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Folhas mortas 05.04.2018

[Folhas mortas 05.04.2018]

Lisboa, Arco do Cego, quinta, 05 de abril de 2018

 

 

»»»»» (… fim de sonho:) Sigo por ruas estreitas, que me levarão a casa, assim o pressuponho. Oiço ruídos de vozes juvenis, provenientes de uma rua próxima, depreendo tratar-se de um grupo de jovens em convívio festivo. Tento passar a esquina da rua sem ser visto, no entanto percebo que me vêem… Não olho, sigo o meu caminho, mas parece-me que eles me observam e comentam. Desço uma rua onde se alinham moradias térreas, e percebo, sem olhar, que alguém me segue, e entretanto chego à vivenda que seria a minha; meto com alguma precipitação a chave na fechadura de um portão, acedo a um jardim fronteiro à casa. Dou-me conta de que quem me segue é uma jovenzinha de aspecto banalmente liceal. Cumprimenta-me, olha-me inspectivamente e fala-me por cima do muro que separa o jardim do passeio:

»»»»» — Olá! Queria ver-te bem, para ter a certeza de que eras mesmo tu, de quem dizem tantas coisas.

»»»»» Fico expectante, no jardim, a sensação de perigo esvai-se e oiço-a ainda:

»»»»» — Dizem que tu és um militarista, um fascista.

»»»»» Fixo nela um olhar firme, vejo-me perplexo (… acordo neste ponto, com um sentimento de opressão e angústia.)

 

Muro no Bairro Azul 001

»»»»» Notas descodificantes:

»»»»» 1) a vivenda com jardim era difusamente similar à moradia que habitei na infância e primeira adolescência, situada no Bairro Azul, Nova Lisboa;

»»»»» 2) “fascista” foi o que L.K. me chamou uma vez, desabafo resignado por eu não deixar fumar dentro do carro, no decurso das viagens.

 

António Sá

 

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Folhas mortas 08.01.2018

[Folhas mortas 08.01.2018]

Lisboa, Hospital Curry Cabral, segunda, 08 de janeiro de 2018

 

 

»»»»» Sensação, por estes dias, de que a experiência de internamento numa enfermaria tem eventualmente similitude com uma visão do Inferno, tal como o descreveram os pintores religiosos do século XVI mas aqui, por acréscimo, sonorizada. Gritos nocturnos entrecruzados de dois destroços humanos, minados por diabetes em estado muito avançado: chamam pelo nome, cada um, as respectivas mulheres e outros familiares, julgando, no seu delírio, estarem em casa. Corpos e mentes minados pela doença, remexem-se agonicamente nas camas-de-hospital, de onde provavelmente já não se levantarão. O terceiro doente no quarto é um magríssimo “rapaz” de meia-idade, ex-bombeiro, que caminha curvado, de cabeça pendida, rolando consigo o aparato do soro. Foi operado o verão passado a um gânglio no pescoço, e espera a operação próxima a outro. Sorri sempre, tendo eternamente à mostra uns enormes dentes incisivos, e observa fixamente, sem pudor, cada deslocação minha. Comenta tudo com as enfermeiras e auxiliares, num discurso corrido, língua-de-trapos. E, em conversa, conta-me como testemunhou o horror de assistir uma família carbonizada dentro de um automóvel, após um acidente, repetindo como refrão: “não há cheiro pior que o cheiro da carne humana queimada.” Este seu relato confirmou-me a impressão de estar nas imediações do Inferno.

O Inferno

»»»»» Os hospitais enquanto não-lugares onde se pode testemunhar a energia-da-matéria no seu estado de decomposição irreversível.

 

António Sá

Folhas mortas 01.01,2018

[Folhas mortas 01.01.2018]

Lisboa, Hospital Curry Cabral, segunda, 01 de janeiro de 2018

 

 

»»»»» Entrar num hospital, entregar-me às enfermeiras é um processo de despojamento do ser. Fico entregue a elas, mais tarde (amanhã) à equipa médica. Adquiro, de algum modo, o estatuto de marioneta, ou seja, todas as opções decisivas ficam a cargo de outrem.

 

Imagem relacionada

»»»»» Devo portanto entregar-me, como a marioneta, à decisão do demiurgo, que são os horários, a organização hospitalar, as decisões médicas. Mas não perco a consciência-de-mim, o que não me habilita a ter a “naturalidade” da marioneta, tal como John Gray a perspectiva, inspirado em Kleist.

»»»»» A consciência-de-si é a única liberdade do escravo. E é isso que não possuem a marioneta, tal como os animais, assim se supõe. Só o animalhumano a possui, adquire-a nesse longo processo que constitui o crescimento em sociedade.

»»»»» O que alguns pensadores e místicos querem não será a liberdade de escolha: “Instead, what they long for is freedom from choice.” (John Gray, The soul of the marionette, p.7). Os estóicos da Antiguidade consideram que um escravo pode ser mais livre que o dono que sofre de auto-divisão, informa John Gray (ibidem, p. 6). Acrescento que será assim — desde que tal escravo aceda à inteira consciência-de-si.

»»»»» No hospital, entrego-me ao fluxo dos acontecimentos, estou livre da escolha. É a hora da visita, há dois doentes idosos no quarto onde fui internado, e junta-se à volta deles uma pequena multidão, cruzam-se conversas sobretudo fáticas. Uma empregada auxiliar vem-me oferecer o lanche. Pergunto-lhe as opções: não há; só há café com leite e pão com manteiga. Estou livre da escolha, portanto. Não posso deixar de ouvir fragmentos das conversas, entrego-me ao fluxo das palavras ouvidas. Não tenho necessidades nem urgências. Estou de facto livre da escolha neste momento. Recebi entretanto um telefonema amável de um casal amigo: o fluxo das ocorrências.

 

António Sá

Miniatura 22

Miniatura / 22 [Entre pai e filho]

 

»»»»» [Relato baseado em testemunho oral.]

»»»»» A história começa num ralhar irritado de pai, tom de voz alteado contra o filho, que chegava silvestre a desoras para o almoço-de-domingo. A essa chegada, o pai levantou-se da mesa, estava com ele a Mariazinha, ambos já muito avançada a refeição; levantou-se parece para assestar um bofetão no filho, em cuja direcção deu uns passos enquanto ralhava mas, a haver tal desígnio, não houve tempo de acontecer a acção: o rapaz de corpo já graúdo agarrou-lhe os pulsos, empurrou-o contra a mesa.

»»»»» — Ah, canalha! O que vem a ser isto?

»»»»» Mesa de madeira, que o embate do corpo paterno fez abanar, com trepidação, tinir de louças. Mariazinha levantou-se num salto, esbarrou no aparador, aí ficou a tremer.

»»»»» — Ah, canalha! — deste pai, temente a Deus todas-as-horas da vida, assim de verbo contido saiu mesmo esta impropriedade, vinda de involuntário fundo de si. Em que acepção ele empregava a palavra parece clara, mas não fique por esclarecer, em abono da observada moderação verbal que era a sua, ser corrente à época aquele termo para designar a miudagem em geral: a “canalha” saída dos portões das escolas, assolando as ruas em bandos grulhas.

»»»»» Ao empurrá-lo, o adolescente soltou-lhe os braços, e o pai fez por se esgueirar de lado ao longo da mesa, porque viu o filho a aproximar-se — e empurrá-lo de novo. Amparando-se à mesa, resvalando, o pai chegou à cabeceira onde era o seu lugar de patriarca. Aí, a quente, deu-lhe para agarrar pelo espaldar a cadeira, essa mesma onde se sentava sempre e, rodando o corpo magro, alçando alto a cadeira, com força de pai-sem-idade avançou contra o filho, vituperava entre-dentes: — Ah, canalha! — única palavra que a religião fundamente professada e a turvação momentaneamente desencadeada lhe facultavam. Avançou contra o filho, que paralisara frente à ameaça e olhava abismado. Pai Antonio esteve momentos prestes a desfechar a cadeira na cabeça instante-ali oferecida, mas o Deus de Abraão lhe travava o acto, manteve-o suspenso, olhar faiscando contra o filho agressor, Joãozinho, nos seus treze anos. Enfim desfez o gesto, a cadeira voltou a assentar na terra-batida, que era soalho na casa-da-xitaca. Deus lhe travara o sacrifício, como em tempo útil já remoto o fez a Abraão, esse que erguia alto a espada pronta a trespassar o filho. A razão próxima não-bíblica deste recuo foi ter percebido que o corpo do rapaz, mais que esboçar o desvio do eventual golpe-de-cadeira, se retraía em colapso diante do poder paterno, não só ancestral poder, mas ainda propriamente físico, apesar dos muitos cinquenta anos de esforçada vida. Era já entrado o estio, com seus sóis e aguaceiros, violentos uns e outros, finais de mil-novecentos-e-quarenta-e-dois.

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»»»»» Solvida em breve esta cena-limite, ido o rapaz por mando paterno para o quarto, sem almoço esse dia, o genitor abateu-se na cadeira, deslocada da cabeceira da mesa, onde seria o seu lugar devido, e ficou imóvel algum tempo, em silêncio. Ainda sob o efeito da altercação, apontou à filha Mariazinha, parada junto ao aparador e também ainda sob o efeito do susto, o lugar que lhe cabia à mesa, gesto a que ela obedeceu depressa, agora sob o efeito do temor ao pai austero. Este desfez um tanto, o que pôde, o ar soturno de viúvo de vai para onze anos, ajeitou-se à mesa, almoçou o que ainda era de almoçar, a sós com a pequena Maria de Fátima; sentia a perturbação da menina, e para a tranquilizar lhe explica que um filho não pode erguer a mão contra seu pai, aquele que o faz comete um grande pecado, e deve ter o castigo correspondente ao acto que cometeu; se não for o próprio pai a castigá-lo, por não poder fazê-lo, será o Deus Pai que está nos céus que o há-de castigar, a não ser que o filho se arrependa e se regenere, obtendo assim o perdão das suas más acções. Para Mariazinha não era necessário entender a razão deste discurso, confiava na bondade paterna, acatava as suas palavras, mas tinha pena do irmão, tão bom com ela sempre. Depois ficaram calados, a ama Alice trouxe a fruta, que era a sobremesa, entrou e saiu calada, não ia interferir no drama que ainda pairava; ouvira, ao passar pelo corredor, o Joãozinho a chorar no quarto, espreitara pela cortina, e vira-o de bruços sobre o catre, a chorar agarrado à almofada.

»»»»» Na sala continuavam calados pai e filha, ela tremia em algum lugar de si-mesma, lugar inda malrecuperado da cena de violência-inacabada, seu pequenino coração oscilando entre as cumplicidades juvenis dos jogos com o irmão, por um lado, e a devoção filial para com o pai, por outro, embora ali se decidisse pelo pai, sempre com ela carinhoso, mas exigente na aprendizagem da escrita e das contas: o pai era a sua escola infantil. E entretanto o irmão, nestes últimos anos interno no Colégio Adamastor, afastava-se da vista e das brincadeiras, era um irmão já só dos fins-de-semana, mais esquivo, vadio dos terrenos da xitaca e arredores, convivendo com os meninos negros na pesca e na caça de aves, o que se vinha tornando o mais implicante motivo dos ralhos colonos e agrestes paternos. Não tolerava que filhos seus convivessem com os monandengues da sanzala limítrofe. Os ralhos, extensivos aos cada vez mais maus modos do rapaz e aos motivos de queixas regulares do director do colégio, ralhos tornados recursivos, percutiram na cabeça do adolescente até extravasarem no movimento inconsequente de violência contra o progenitor.

»»»»» Ainda durante esse fim-de-almoço, o pai decidia que já nada, depois do acontecido, podia continuar como era. Decidia que tinha de “tomar medidas”, foi o que comunicou a Alice nesse domingo. Adepto de ecos de noticiosos ecos das teorias eugenísticas, que a imprensa portuguesa ecoava e difundia como “ar da época” ao longo da década em que teve início a Segunda Grande Guerra, convencia-se de que os desvios comportamentais do filho, culminando naquela agressão-tentada, constituíam uma anomalia a necessitar de intervenção psiquiátrica. Assim começou a planear as “medidas” que urgia tomar logo a partir de segunda-feira, dia em que o rapaz deveria iniciar a semana no colégio onde estudava em regime de internato, mas eram já outros o destino e o internamento que o pai planeou esse domingo, enquanto inspeccionava, com a filhinha no seu encalço, os campos de milho e massambala.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Glossário:

»»»»» xitaca (s.f.) — Pode ser uma lavra, ou uma pequena propriedade agrícola, uma quinta. Casa e respectivos anexos no centro de uma xitaca são os lugares onde ocorre este episódio colonial. Do termo umbundo oxitaka.

»»»»» monandengue (s.m.) — Menino, garoto, criança. Do kimbundo (quimbundo) mona (“criança”), ndenge (“recém-nascido”).

»»»»» massambala (s.f.) — Milho-miúdo, sorgo. Manobrando pilões, as mulheres reduzem este cereal a farinha, chamada fuba, que serve para fazer o pirão, ou seja, uma papa consistente, base da alimentação nativa. Ícone da Angola ancestral e colonial é a mulher, com o filho atado por panos às costas, a manobrar o pilão. Ou ainda, quando são maiores a quantidade e o esforço, duas mulheres socam alternadamente no mesmo pilão grande, em cadência e entoando cantigas ritmadas. A massambala é também excelente para a alimentação das galinhas, que assim alimentadas põem muitos mais ovos, inclusive ovos de ouro. Do kimbundo (quimbundo) masa-a-mbâla.

 

 

António Sá

[março, 2018]

 

Miniatura 21

Miniatura / 21 [Uma intrusa ao serão]

 

»»»»» [Relato baseado em testemunho oral.]

»»»»» No corredor da casa-da-xitaca, e fardando-se ainda da sua querida camisola-de-gola-alta azul-claro, último ano em que com ela se armava contra o frio, num serão do planalto, estava Mariazinha trabalhando na debulha das maçarocas, junto com os outros moradores que aí moravam na semana: o pai Antonio, que fizera cedo na tarde os dez kilómetros de bicicleta, regresso desde a cidade; a ama mulata, Alice, que entretanto lavara a louça do jantar lá-fora, no anexo-cozinha. Essa menina Mariazinha, por esse serão, estava dispensada de apresentar ao pai os seus progressos na escrita e nas contas. O outro dos entretanto-ainda moradores, o insubmisso João, só ali se encontrava aos fins-de-semana, em que o soltavam do internamento no colégio.

»»»»» Estavam aqueles-outros três trabalhando na debulha das maçarocas novas a seu tempo, sentados no chão-de-terra-batida do corredor, junto aos degraus cavados no solo húmido, pelos quais se descia para o celeiro-interior, também depósito de alfaias agrícolas; nesse chão, para conforto de assentarem os respectivos traseiros, os do magro pai colono e os da ama e mais da menina, nadas ambas no continente dito negro, tinham-se estendido pequenas esteiras entrançadas; ao alcance das mãos trabalhadoras, estavam implantadas grandes cestas de vime: esteiras e cestas, produção das mulheres artesãs da sanzala limítrofe. Estas cestas, onde caberia em cada uma um pequeno ladrão de entre os quarenta juntos por Ali Babá, cestas sem-fundo, serviam para empilhar: numa, as maçarocas vestidas; na outra, as maçarocas debulhadas. A palha do revestimento acumulava-se no chão duro, para depois ser varrida, sendo que parte dela ou, se necessário, toda ela, era ensacada para encher colchões e almofadas.

»»»»» Estavam assim tranquilamente a seroar trabalhando esses habitantes do sertão na debulha das maçarocas, sentados nas esteiras, quando uma qualquer vai-ser pedaço de corda pesada caiu com um baque amortecido que, no entanto, os três humanos ali ouviram, mas sobretudo viram: uma cobra de muitos oitenta-noventa centímetros, pode-ser um metro, listras amarelo-negro rebrilhantes, quase-atordoada, se cobra alguma vez se atordoa de queda silvestre, que ela decerto pensava estar em alguma gruta rochosa entre arbustos dessas colinas arredor; decerto reflectira em fazer ninho no tecto de colmo, que era o tecto da casa-da-xitaca, e andava por ali a explorar suas hipóteses territoriais e alimentares — osgas, salamandras, camaleões cambiantes, acaso algum rato flanavam por-ali, pelas imediações, descuidados uns e descuidadas outras de suas vidas.

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»»»»» — Não se mexam — sussurrou autoritário o pai, enquanto ele-mesmo se levantava. — Deixem-se estar quietinhas — sussurrava como com medo que a cobra ouvisse e, tão depressa quanto as suas idade e força permitiam, desceu os degraus de terra até ao celeiro, onde se armou de uma catana que ali havia, de uso dos dois capatazes negros.

»»»»» Entretanto, ama e menina queriam fugir, vendo a cobra rastejar apressada pelo corredor, junto à parede; a bicha estranhava decerto aquele lugar onde caíra. Não fugiram só por uma razão, e era que a cobra ia indo pra longe do lugar onde elas duas estavam paralisadas. E o pai Antonio já aí vinha acelerado, segurando junto ao corpo a catana.

»»»»» — Onde está? — pergunta cego de turvação guerreira, varrendo com um olhar-sem-ver o corredor.

»»»»» — Está a ir prà lá — explicou a mulata, e apontou na direcção da porta da frente.

»»»»» Antonio viu a criatura reptante esgueirando na esquina entre chão e parede do corredor. Correu pra lá, onde ela reptava, e assestou-lhe uma catanada na cabeça elíptica. A cobra ressentiu-se, enrolou-se e esticou-se muitas vezes, estrebuchou pra um lado, maldisposta e, ao sair da esquina onde estivera, ficou vulneravelmente exposta à segunda catanada, bem certeira, separando-lhe para esta vida cabeça e corpo, sendo que este ficou entontecido, por falta da cabeça, e a reptar sem rumo. A um mando do patrão, a ama foi buscar um saco de serapilheira e, com a ajuda da catana e de uma vassoura, recolheram os restos do réptil, vidrados os olhos na cabeça solta, reptantes ainda os anéis do corpo. E a ama levou o saco para fora, para o aterro por trás dos anexos, que era onde se enterravam os lixos caseiros. Foi esse o fim daquela intrusa equivocada. Dela só ficou de lembrança o susto. Das muitas cobras avistadas na propriedade, só esta foi aquela que deixou história e lembrança. Havia muitas cobras por-ali, tinham-se fidelizado sobretudo nos entornos da azenha, certo que aí as ratazanas e as galinholas-do-mato mais se passeavam e faziam pela vida.

 

 

 

 

Glossário:

»»»»» xitaca (s.f.) — Pode ser uma lavra, ou uma pequena propriedade agrícola, uma quinta. Casa e respectivos anexos no centro de uma xitaca são os lugares onde ocorre este episódio colonial. Do termo umbundo oxitaka.

 

António Sá

[janeiro-fevereiro, 2018]

 

 

Miniatura 20

Miniatura / 20 [— Na minha cama!]

 

»»»»» [Advertência à maneira de filmes realistas: este relato é baseado em acontecimentos reais.]

»»»»» Acordaram ao ruído de golpes contra a madeira, e logo, sem tempo de estremunhar, as meninas olharam no escuro para a ama, que fez uma exclamação, e elas ecoaram, desalojadas de si, era o susto, surpresa-medo imediatos. Levantaram-se para junto da ama, que se levantava também precipitada, mas sem querer deixar-se assustar-à-vista, impassível para sossegar as meninas.

»»»»» — Estão a bater à porta! — Mariazinha alterada, sobre a estridência de um grito da mulatinha, em resposta a nova saraivada de batidas, e o silêncio suspenso da ama. Com seu silêncio tentava, além do susto próprio, conter o susto das crianças, a negrinha mulata de olhos espavoridos, e Mariazinha de Fátima com seu pavor pálido a crescer, mas confiando entretanto na boa protecção da ama Alice. E esta quebrou o silêncio:

»»»»» — Aka! Estão sim! — reflectiu um momento e mandou:

»»»»» — Fiquem quietas e caladas!

»»»»» Conjecturava se não seria o patrão Antonio, estaria voltando mais tarde, como às vezes acontecia, e teria esquecido a chave, ou talvez perdido, ou só não a encontrava naquele escuro da noite… mas se era ele, por que batia com aquela força de quem vai é partir a porta?… talvez que julgasse terem elas o sono mais pesado e nem ouvissem… mesmo assim não era motivo de partir a porta… E Alice, confiante na sua força de ânimo e no seu Deus, palpitava assim se era o patrão, ou se era forças do mundo do além que se desencadeavam contra a casa…

»»»»» Entretanto suspenderam-se os golpes… “Schiu… schiuuuu…”, sussurrou a governanta, e as crianças provisoriamente obedeceram, escutaram silêncio restolhado nesse entretanto sucedido.

»»»»» — Que foi isto? — perguntava Fátima, pálida à luz do candeeiro-a-petróleo que a ama acendera.

»»»»» — Vamos ver… — disse Alice tranquila quase, para sossegar o caso. — Deve ser o paizinho que chegou e não encontra a chave…

»»»»» Tranquilo esteve o exterior algum tempo, mas como a natureza aborrece a tranquilidade instalada mais que o tempo devido, mais violentos golpes e vozear inumano se desencadearam contra a porta da frente. No compartimento que era a alma da casa, o infinito quarto-das-arrumações-caseiras, aí estavam instalados os catres onde dormiam a mulata Alice, ama e governanta da casa; a sua pequena sobrinha negrinha de sete-oito anos; e a filha do dono da propriedade, colono Antonio. Era filha baptizada Maria de Fátima, pela muita devoção paterna, agora no seu oitavo ano de vida, mil-novecentos-e-quarenta. Neste sítio da casa as três se encontravam suspensas, no instante desses novos golpes seguintes na porta.

»»»»» — Vou esconder-me debaixo da cama! — solução encontrada pela Mariazinha assustada.

Fátima 100 001

»»»»» — Debaixo da cama! — falou Alice em subvoz-sem-querer, para não a ouvir o mundo fora, quem sabe qual fosse. — Nada! Debaixo da cama não! — E encaminhando-se para o corredor. — Deixa inda ver qui é isto. Há-de ser teu paizinho… Quem havia de ser, a esta hora?

»»»»» Fátima queria impor-se à autoridade da ama, esconder-se debaixo da cama, mas Alice agarrou o braço da menina, não a deixou; e logo avançou pelo corredor de terra-batida, em direcção à porta da frente. As meninas, levadas nesse movimento, colaram-se-lhe às saias de chita da camisa-de-noite. A governanta firme, bem frente à entrada, perguntou sonoro:

»»»»» — Quem é?

»»»»» Mas já com os golpes e estertor rouco, parece de monstro fora-porta, Alice assustou-se, agarrou as raparigas pelas mãozinhas e levou-as refugiarem-se no primeiro quarto que dava para o corredor. As tábuas pareciam estalar, e logo com os golpes seguidos a porta cedeu, bateu ressaltando contra a parede, e surgiu recortado na noite um vulto negro-informe para a imaginação das meninas, que espreitavam, mais a ama, por trás da cortina-de-chita, era assim a porta do quarto onde se refugiaram, sem luz de candeeiro, a ama tratara de a apagar logo-antes. Assim como apareceu na porta, a aventesma entrou, grunhia sempre vozes sem sentido humano, que elas três percebessem que fosse português deste mundo falado com frases, palavras soltas que fosse; e desandando corredor fora sem controlo, como bala-humana disparada, mas voando por seu pé passadas soltas e aos baldões contra as paredes laterais, foi encontrar entrada lá no fundo, no quarto-das-arrumações-caseiras. A ama aproveitou o momento para levar as meninas, mudas de terror, porta fora, “vamos chamar os homens!”, era o que dizia para sossegá-las, nada sabia mais explicar aos porquês mudos delas.

»»»»» Saíram logo por essa porta recém-arrombada, têm o terreiro livre de kazumbis, seres nocturnos, almas vagantes, essas que a ama sabia que vinham às vezes por ali, com saudades, pisar a terra vermelha de onde tinham partido. Não, aquele que invadiu a casa não era alma do outro mundo, era ser vivo mesmo que estava já dentro da casa, nem se sabe para quê. Animal assim tão grande, tão descontrolado, assustava qualquer alma de outro mundo que estivesse a vir essa noite.

»»»»» Saíram as três noite escura fora, as meninas coladas às saias da governanta. Ouviam orquestra colorida de sons que a noite compõe, e até se viam estrelas, noite melhor que qualquer dentro de casa vítima de assalto. Saíam a correr pela vida ou qualquer coisa que pudessem perder, eram entretanto integridade salva de qualquer intenção intrusa. Foram correndo à solta caminho fora, que Alice conhecia, o pomar, a azenha, as margens do ribeiro até à sanzala, mais além do lugar onde acabava a xitaca, era muito correr contra o ar fresco do planalto africano, o conhecimento do terreno as alumiava e ajudava a evitar escolhos escondidos.

»»»»» Chegaram directas à cubata do Xatovera, que Alice sabia onde era, e gritou-lhe de fora, instalando no lugar lá dentro confusão de vozes e sobressaltos. Saiu logo o capataz Xatovera e, uma a uma, suas três mulheres estremunhadas, e da porta da cubata alguns olhos acesos de crianças iluminavam o escuro. A dona informou o porquê que vinha, a voz agitou-se, agora a emoção vem toda a sair da garganta; as meninas ajudavam desajudando à explicação, atropelando com frases soltas o discurso da ama, mas o chefe-capataz percebeu o essencial, que era que um intruso arrombara a porta e se instalara dentro da casa do patrão, como em fortaleza assaltada. O invasor falava, informou a dona, era negro alto, enorme, falava era estrangeiro ou o quê, grunhia como animal, “pareceu-me que dizia fo-me, fo-me, mas se calhar era outra coisa que dizia”, informava a dona.

»»»»» — É dona, pode ser é um fugido desses país lá fora, que nem português sabe falar — confirmou Xatovera.

»»»»» Todos na sanzala foram aparecendo interrogados do alvoroço. O capataz entrou em acção pronta, que logo comandou, de assédio do invasor que falava sons estrangeiros, ver quem que era aquele. Mandou Nunda, segundo-capataz, secundá-lo em expedição e alguns homens da sanzala com eles, e após foram alguns negrinhos mais crescidos, curiosos de ver esse o quê. E no caminho, o chefe-capataz sossegava a governanta e as meninas:

»»»»» — Vamos já ver qual que é esse negro que anda a ’saltar casa. Não pode ser dos kimbo’ aqui nosso perto. Isso é preto estrangeiro do longe.

»»»»» — Deixe estar descansada, dona — diz Nunda. — Nós tratamos desse caso. Fica por nosso conta.

»»»»» Chegaram à casa que a porta da frente estava arrombada, era madeiras partidas-caídas depois que foram porta, e estavam agora os homens a entrar pelo chão batido do corredor até ao quarto-das-arrumações, que era para onde Alice lhes indicava que se tinha metido o assaltante. Xatovera à frente, olharam o compartimento escuro, cortina saída para o lado. Alice acendeu o candeeiro, levantou-o alto pelo pé, alumiou por trás deles a cena e, no círculo de luz, viram deitado num catre o negro estrangeiro intruso, maior que os negros do planalto, a dormir para o resto de qualquer descanso. As raparigas tinham-se infiltrado atrás da ama, entre os homens da sanzala, levadas por essa curiosidade que vai além do medo, e olharam o enorme resto adormecido de monstro que as assombrara.

»»»»» — Lá está ele! — Alice disparou, voz entrecortada do que era comoções de tudo o que a noite estava a ser.

»»»»» — Na minha cama! — assustou-se Fátima, vendo-o deitado no catre que era a cama onde dormia, e passou um calafrio de espanto e medo diferido, agora que se via segura com a presença dos homens da sanzala. — Logo na minha cama!

»»»»» Xatovera e Nunda agarraram do fundo dos sonhos o negro. Mal acordada a resistência do corpo mole-adormecido, logo ele lutou, mas outros homens ajudaram a dominar mais ressaltos, e o arrastaram para o terreiro. Sujeitaram-no até não sentirem movimento de resistência naquele ente enorme, fraquejando das forças-gastas, e perguntaram-lhe coisas, que era aquilo que fazia ali a ‘saltar casa do patrão e ‘sustar a dona e as menina’ dentro. Nada era que entendessem do que o foragido disse-gemido em espécie de resposta, e agitados que estavam os homens perguntando, e língua-de-trapos que ele falava, nada mais que não fosse grunhir sofrimento-animal sujeito-à-força.

»»»»» Alice mandou as meninas irem para dentro, para as suas caminhas, mas ela deixava-se por ali a ver o que os homens faziam, e as meninas deixavam-se esquecidas da ordem, a curiosidade era muita do que acontecia. Os capatazes tentavam ainda sacar ao estranho respostas, que era o que fazia ali, mas nada lhes aproveitavam palavras numa língua que nem era português, nem umbundo, até nem nenhum angolês, nem nada. O estranho era estrangeiro mesmo, e era estranheza de palavras as dele que resinava, e já se esfalecia, ficou mudo, cara encostada ao chão, agarrado sob a força dos capatazes, Nunda lhe impunha pé calejado sobre essas costas só esqueleto.

»»»»» — Esperamos pelo patrão — decidia a governanta, impressionada com o aspecto falecente do assaltante, vítima de pé nas costas. – Ele resolve…

»»»»» — É mesmo — disse Xatovera. — Esse aí já não faz mal.

»»»»» — Esse já não faz nada — disse Nunda

»»»»» Esse não é homem daqui — esclareceu Xatovera. — É homem que ninguém aqui conhece de ver…

»»»»» Alice decide: — Prendam-no nesse anexo. Quando chegar, o patrão resolve.

»»»»» — É, dona. Patrão que resolve. Vamo’ só ‘marrar esse bandido, pra não fugir.

»»»»» — Está parece morto — disse Alice, após observação.

»»»»» Ficaram a olhá-lo os capatazes, a governanta, as meninas que não iam deitar nem admoestadas. Nunda aumentou a pressão da corda que um homem tinha ido buscar à arrecadação, com que o prendia à volta do peito, os braços atados atrás. Aí o assaltante soltava estertores moribundos, era estertores do ar que lhe estava a faltar, Alice dizia, e mandava-lhes que o deixassem ao menos respirar, não era preciso matá-lo.

»»»»» — Deixa-o respirar — disse, — se não ele vai morrer.

»»»»» — Traz aqui — comandou Xatovera.

»»»»» Nunda e os homens da sanzala que ali estavam a assistir arrastaram o corpo preso, braços e pernas tudo amarrado, levaram-no para o anexo-exterior que era a casa-de-banho, sentaram-no aí no chão de terra-batida e fecharam a porta, ficaram de guarda, sentaram no chão, a enrolar erva nas mortalhas, trocar conversa.

»»»»» Quase sem tempo depois, nem tempo de acalmar, Alice já levava as meninas para dentro, quando ouviram o chiar das correntes de bicicleta, era o pai Antonio que chegava do seu atraso mais que muito. Explicaram-lhe o alvoroço de tudo o que era a ocorrência, que aquele assaltante quase estava vivo, mostraram-no caído de lado sem acordo, amarrado no anexo. O patrão mandou-lhes que o levassem para o anexo-cozinha, porque aquele da casa-de-banho ele ia precisar.

»»»»» — Veio quem sabe de qualquer estrangeiro… — explicava Xatovera.

»»»»» O patrão tinha deixado a bicicleta tombada no caminho, não era seu costume essa falta de método, foi ouvindo relatórios, certificou-se de que o estranho nem dava acordo de si, mas estava vivo. E tomou decisões: mantê-lo preso, fechado no anexo, com um homem a vigiá-lo bem de cada vez, por turnos, até manhã-cedo, e logo levá-lo na carroça à esquadra de polícia na cidade.

 

 

Glossário (por ordem de ocorrência):

»»»»» aka! (interj.) — Sonoridade muito flagrante da Angola colonial, esta interjeição de surpresa, espanto, na boca dos populares negros: “Aka, patrão!” Tanta é a sua força expressiva, que os brancos, naturais ou não de Angola, a adoptaram: “Aka!”.

»»»»» kazumbi (s. m.) [nos dicionários: cazumbi] — Espírito inda vivo de alguém que morreu e se insinua pelos lugares onde os vivos inda vivem, influenciando-lhes, eventualmente, os percursos e as decisões. Será enfim alma de outro mundo, que persiste habitando neste, até ver. Do kimbundo [nos dicionários: quimbundo] ka-nzumbi.

»»»»» xitaca (s.f.) — Pode ser uma lavra, ou uma pequena propriedade agrícola, uma quinta. Casa e respectivos anexos no centro de uma xitaca são os lugares onde ocorre este episódio colonial. Do termo umbundo oxitaka.

»»»»» kimbo (s.m.) [nos dicionários: quimbo] — Povoado ou bairro indígena, constituído por casas isoladas ou blocos de casas. Do umbundo ko imbo (“no povoado”). Corresponde à sanzala, termo kimbundo [nos dicionários: quimbundo].

»»»»» umbundo (s.m.) — Grupo etnográfico-linguístico dos umbundos ou ovimbundos, constituído por diversas tribos que habitam ao sul do rio Kwanza, entre elas a dos huambos, na região onde se passa o episódio narrado neste texto. No contexto em que aqui ocorre, a palavra indica a língua falada pelo referido grupo humano. Provém do termo regional mbundu.

 

 

António Sá

[2009-2017]

 

“Famílias na guerra”

“Famílias na guerra”

»»»»» A propósito da edição online da novela “Famílias na guerra”, enviaram-me, da parte da editora Bubok [http://www.bubok.pt/], um conjunto de perguntas sujeitas a respostas breves, destinadas á promoção do livro. Delas (perguntas/respostas), respigo as seguintes:

  • Publicou na Bubok o livro “Famílias na guerra”. Do que trata o livro? — “Famílias na guerra” trata de um episódio ocorrido num lapso temporal de três anos (1988-1990) durante a Guerra Civil que devastou Angola por longo tempo. Em confronto, dois movimentos desavindos pós-eleitoralmente: o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).
  • É uma história real, ficcionada ou… ambas? — História desencadeada na imaginação do autor após ouvir o relato do episódio vivido pelo protagonista, que deu um testemunho circunstanciado, seguido de múltiplas entrevistas e revisões conjuntas de texto.
  • O que o levou a escrever este livro? — Vários factores intervieram para que o autor se decidisse a redigir este relato, entre eles: o acaso de ter sido professor do rapaz que viveu as situações e as relatou; e o facto de o autor ser natural de Angola, embora não da região onde os acontecimentos têm lugar.
  • Qual a melhor parte de ter escrito o livro “Famílias na guerra” e da sua publicação? — A melhor parte da escrita foi o investimento de viver na imaginação esses dias turbulentos, essa vida insegura e errante na mata, na floresta, esses momentos de relativo repouso em remotas sanzalas semi-abandonadas. Quanto à publicação, na Bubok, tratou-se de um demorado investimento ao nível da edição virtual.
  • Porque é que os leitores devem ler este livro? — Porque lerão nele um exemplo dos danos das guerras actuais, todas as guerras. Desencadeadas por interesses claramente turvos e turvamente claros, e de que as principais vítimas são os civis, homens, mulheres e crianças usados e abusados pelas facções em litígio.
  •  Porque é que decidiu publicar na Bubok? — Publicar na Bubok, ao invés de uma editora tradicional, será um modo mais expedito de aceder a um público-alvo — o público angolano. Mais imediato e menos custoso será, a esse público, aceder à edição online em qualquer recanto do território angolano.

António Sá

[22.11.2013]