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Archive for Julho, 2012

 

 A subtil alegria enche-me de prazer

A subtil alegria enche-me de prazer:

por isso eu canto muito mais feliz

e não me detêm nenhuns cuidados

nem mesmo nenhuns pensamentos,

porque sei que existem pra meu dano

os malignos palradores cobardes

e seus malévolos ditos não me demovem

por eles antes me sinto duplamente feliz.

 

Que eu não lhes dou nenhuma confiança,

a esses palradores maldizentes,

que não pode ter nenhuma honra

o homem que a eles dê o seu acordo:

que eles são de todo semelhantes

à nuvem que ao expandir-se

faz perderem-se os raios do sol,

por isso não me apraz essa gente má.

 

E vós, ciumento maldizente,

não julgueis que eu me atarde

antes que Alegria e Juventude me envolvam,

e por tal vos corroa o despeito.

 

»»»»» Parece que, na segunda metade do século XII após-os-padecimentos-e-morte-de-Cristo, os maledicentes invejosos ou ciumentos (“gelós”) não tinham descanso e muito falavam! Atendendo à época tão remota em que tanto falavam, talvez seja de lhes desculpar tanto a inveja quanto a cobardia.

»»»»» Traduzi o termo “lauzengièr” (“maledicente”, “aldrabão”), que ocorre duas vezes, por “palrador”, tendo em conta que em português esta palavra se utiliza sobretudo na sua conotação negativa, indicando aqueles que falam só para dizer mal.

»»»»» Na coda, traduzi o occitânico “gelós”, que corresponde ao actual francês “jaloux”, por “ciumento”, reenviando toda a fúria genérica da trobairitz para um destinatário em particular. No entanto, não é certo que a palavra “gelós” marque a singularidade, pelo que poderia também tê-la traduzido por “ciumentos”. Optando pelo singular, intensifico e particularizo a crítica. Como se se visasse um líder — o líder dos cobardes maledicentes.

»»»»» Esta canção, de que não se conhece a música, é simples, directa, prática: visam-se, apontam-se, expõem-se os maledicentes, enquanto coveiros da liberdade individual ou, talvez mais ajustado à época, coveiros dessas abstracções que são a “Jòis” (“Alegria”) e a “Jovenz” (“Juventude”).

»»»»» O que a trobairitz não saberia, apesar do psicologismo da sua perspectiva, é que os maledicentes, sabemo-lo hoje, nunca sabem afinal do que falam — falam sobretudo de si mesmos, desconhecendo-se e julgando que falam de outrem. Malhas que o psiquismo humano tece.

»»»»» Apesar da trobairitz explicar, num verso lapidar, que não dá nenhuma confiança a essa gente ignara (“En mi non an ges fiança”), toda a composição, desde o quinto verso da primeira estrofe, se destina a dizer mal dos maledicentes, o que é prova de que estes fazem dano, e ela o diz: “car sai que son a mon dan”, ou seja, “porque sei que existem pra meu dano”.

»»»»» Mas enfim, numa bela revanche, degustando a sarcástica vingança, e não lhes dando nenhuma confiança, ela determina que eles a não atrapalham e, não tarda muito, vagas envolvê-la-ão de Alegria e de Juventude. E os obscuros, visados maledicentes que se roam e revolvam sob o aguilhão do “despeito” (“dòls”): “dòls vos deschaia”.

»»»»»»»»»» Versão original:

Fin jòi don’alegrança :

Per qu’ieu chan plus gaiamen,

E non m’o tenh a pensança

Ni a negun pensamen,

Car sai que son a mon dan

Li mal lauzengièr truan

E lor mals ditz non m’esglaia,

Anz en som dos tantz plus gaia.

 

En mi non an ges fiança

Li lauzengièr mal dizen,

Qu’òm non pòt aver onrança

Qu’a ab els acordamen:

Qu’ist son d’altretal semblan

Com la nívol que s’espan

Que’l solelhs en pèrt sa raia,

Per qu’eu non am gent savaia.

 

E vos, gelós mal parlan,

No’us cugetz qu’eu m’an tarzan

Que Jòis e Jovenz no’m plaia,

Per tal que dòls vos deschaia.

»»»»» Traduções e mais dados relativos a La Comtessa de Dia (segunda metade do século XII) podem ser lidos neste lugar, nas entradas:

  • De Alegria e de Juventude me inundo [CD Cansós de trobairitz,Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990: versão sobre melodia de Bernart de Ventadorn]
  • Eis-me a cantar do que eu não quereria [CD Troubadours, Clemencic Consort, harmonia mundi, 1977; ou ainda o CD Cansós de trobairitz,Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990, onde se gravou uma versão na voz de Montserrat Figueras
  • Achei-me eu em grande cuidado [CD Cansós de trobairitz,Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990: versão sobre melodia de Raimon de Miraval]

»»»»» [Para esta tradução foi utilizado o texto constante da obra Chants d’amour des femmes troubadours,  de Pierre Bec, Stock/Moyen Age, Paris, 1995.]

António Sá

[Julho, 2012]

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Achei-me eu em grande cuidado

Achei-me eu em grande cuidado

por um cavaleiro que cativei,

e por todos os tempos o saibam

como tanto o amei retraída;

agora vejo como sou traída

por não lhe dar todo o meu amor,

no que me vi em grande erro

tanto no leito quanto inda vestida.

 

Bem quereria ao meu cavaleiro

tê-lo uma noite nu em meus braços

e que ele se tivesse por satisfeito

só por fazer de mim sua almofada,

porque mais enamorada me encontro

que não o esteve Floris de Brancaflor:

dei-lhe o meu coração e o meu amor;

o meu senso, os meus olhos e a vida.

 

Belo amigo, acolhedor e generoso,

em que hora vos terei em meu poder,

que me deite convosco uma noite

e vos dê enfim um beijo amoroso?

Sabei que grande vontade teria

de vos ter em lugar de meu marido,

desde que vós me houvésseis prometido

de fazerdes tudo o que eu quisesse.

»»»»» Mais uma composição da trobairitz La Comtessa de Dia (segunda metade do século XII), esta do mais flagrante erotismo, justificando as considerações desenvolvidas por Henti-irénée Marrou a propósito das manifestações de sexualidade na lírica occitânica.

»»»»» Narrativa de uma dòmna que cativou o amante perfeito (“belo amigo, acolhedor e generoso” / “bels amics, avinenz e bos”), assim o trata em discurso directo na última estrofe, mas não se lhe entregou sexualmente e esse foi o seu “grande erro” (“gran error”), de que adveio a traição do “cavaleiro” (cavalièr”). E esse erro ocorreu “tanto no leito quanto inda vestida” (“en liech e quand sui vestida”). Para reparar o erro, esta dona enamorada não vê a hora de o ter em seu poder (“em que hora vos terei em meu poder” / “quora’us tenrai en mon poder”), de o ter “nu” (“nut”), de ser a “almofada” (“cosselhièr”) de que ele se sirva, deitando-se num enlace amoroso (“bais amorós”). Ela prefere tê-lo em lugar do “marido” (“marit”), mas estabelece uma condição, na qual pode residir qualquer perversidade: é necessário que ele lhe prometa fazer tudo o que ela quiser.

»»»»» Encontro neste sofisticadamente convulso texto em que o “leito” (“liech”) preside, de modo explícito ou implícito, enquanto lugar para a pulsão amorosa, duas referências a artefactos da produção têxtil: o vestido de que a dona estaria “vestida”, e que não seria impedimento para a intimidade sexual; e a “almofada” que a amante seria, eventualmente, caso o seu amado não tivesse apetência para se servir dela de outra maneira.

»»»»» Uma observação final para referir o par amoroso Floris / Brancaflor. São eles os protagonistas de um romance em verso, Floire et Blancheflor, de inspiração oriental, cuja primeira versão datará de cerce de 1150 e é atribuída ao poeta Robert d’Orbigny, originário da Touraine. Floris e Brancaflor seriam heróis literários da juventude culta da trobairitz, protagonistas de um amor juvenil: Floris, filho de um rei sarraceno, está apaixonado por Brancaflor, escrava cristã que é vendida a mercadores e levada para longe; o jovem parte em sua busca, e acaba por encontrá-la no harém de um emir da Babilónia.

»»»»» Versão original:

 Estat ai en grèu cossirièr

Per un cavalièr qu’ai agut,

E vuòlh sia totz temps saubut

Cum eu l’ai amat a sobrièr;

Ara vei qu’ieu sui traïda

Car eu non li donèi m’amor,

Don ai estat en gran error,

En liech e quand sui vestida.

 

Ben volria mon cavalièr

Tener un ser en mos bratz nut

Qu’el se’n tengra per ereubut

Sol qu’a lui fezés cosselhièr,

Car plus m’en sui abelida

No fetz Floris de Blanchaflor :

En l’autrei mon còr e m’amor,

Mon sen, mos uòlhs e ma vida.

 

Bels amics, avinenz e bos,

Quora’us tenrai en mon poder,

Et qe’us dès un bais amorós ?

Sapchatz, gran talan n’auria

Que’us tengués en luòc del marit,

Ab çò que m’aguessetz plevit

De far tot çò qu’eu volria.

 

»»»»» Observação final:

Embora não se conheça música escrita por La Comtessa de Dia para esta canção, a musicóloga Karin Paulsmeier considera  que a mesma seria cantada sobre a melodia de Lonc tems agut consiriers, de Raimon de Miraval (entre 1191 e 1229), como se pode ler no folheto que  acompanha o CD Cansós de trobairitz, Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990, onde se gravou esta versão na voz de Montserrat Figueras.

»»»»» [Para esta tradução foi utilizado o texto constante da obra Chants d’amour des femmes troubadours,  de Pierre Bec, Stock/Moyen Age, Paris, 1995. E consultaram-se os estudos de H.-I. Marrou Les troubadors, Éditions du Seuil, 1977 (1ª ed.: 1961); e de Michel Stanesco e Michel Zinc, Histoire européenne du roman médiéval, esquisses et perspectives, PUF, Paris, 1992.]

António Sá

[Junho / Julho,2012]

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