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Archive for Agosto, 2012

Notas ínfimas sobre as canções de La Comtessa de Dia

»»»»» Notas acontecidas durante a tradução das canções:

  • De Alegria e de Juventude me inundo (Ab Jòi et ab Joven m’apais) [CD Cansós de trobairitz, Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990: versão sobre melodia de Bernart de Ventadorn];
  • Eis-me a cantar do que eu não quereria (A chantar m’èr de çò qu’ieu non volria) [CD Troubadours, Clemencic Consort, harmonia mundi, 1977; ou ainda o CD Cansós de trobairitz, Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990, onde se gravou uma versão na voz de Montserrat Figueras];
  • Achei-me eu em grande cuidado (Estat ai en grèu cossirièr) [CD Cansós de trobairitz, Hespèrion XX, EMI, 1978 e 1990: versão sobre melodia de Raimon de Miraval];
  • A subtil alegria enche-me de prazer (Fin jòi don’alegrança);

que se podem ler neste lugar, acompanhadas do texto original:

»»»»» 1. Estas quatro canções que se conhecem da trobairitz La Comtessa de Dia (segunda metade do século XII) abrem com uma declaração de forte tonalidade emotiva. A arte de um início que suscite imediata adesão. Em duas delas, o primeiro verso é uma manifestação de júbilo pela vida, na perspectiva hedonista que vai percorrer o sentido dos poemas, ainda que a ambas as enevoe a figura dos detractores e maledicentes, obstáculo ao pleno e descuidado usufruto do prazer. Refiro-me às canções De Alegria e de Juventude me inundo e A subtil alegria enche-me de prazer. Já na canção Achei-me eu em grande cuidado, o sentimento é o da angústia, o “cuidado” amoroso, tão glosado desde a Idade Média ao Renascimento e ao Maneirismo, sendo o verbo “cuidar” e o substantivo “cuidado” chaves que não se podem perder, se queremos o entendimento da poesia dessas épocas. São vocábulos belamente recorrentes em Bernardim Ribeiro (falecido supõe-se que antes de 1536) e em Luís de Camões (segunda ou terceira década do século XVI – 1579 ou 1580) para citar dois e não mais. Nesta canção da trobairitz, o “grande cuidado” em que se encontra é de sentido declaradamente erótico: a dona deseja sexualmente o amante e lamenta o erro que cometeu ao ter-se-lhe furtado num primeiro momento. Enfim na canção Eis-me a cantar do que eu não quereria, é manifesta a contrariedade que vai ser explicada nos versos subsequentes: o “amigo” parece não ver nela as qualidades que ela crê possuir, e desdenha dela, que o adverte “que do muito orgulho vem dano a muta gente”. E ocorre-me, num sobrevoo epocal, um verso mais próximo de nós no tempo, fundado também num sentimento de perda, de contrariedade: o intempestivo verso inicial de Contrariedades, assim intitulou Cesário Verde (1855-1886) o seu poema: “Eu hoje estou cruel, frenético, exigente”.

»»»»» 2. Omnipresente em todas as canções, de modo explícito ou subjacente, o impulso ou o projecto hedonista, tipificados nessas abstracções vitais que são a Jòi(s) (Alegria) e a Joven(z) (Juventude), comentadas por Henri-Irénée Marrou na sua obra Les troubadours. A Jòi(s) e a Joven(z) são bens espirituais a ser usufruídos em liberdade, pelo menos relativamente aos vínculos matrimoniais — daí que o marido seja uma entidade a situar fora do campo do gozo hedonista. Esta obliteração do marido é expressa de modo explícito na canção Achei-me eu em grande cuidado onde, na última estrofe, se inscrevem os versos dirigidos ao amante: “Sabei que grande vontade teria / de vos ter em lugar de meu marido”.

António Sá

[21.08.2012]

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