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Archive for Novembro, 2012

Distracção 10

Distracção / 10

»»»»» Se uma pessoa vai sempre a direito, perde-se de certeza.

A.S.

[09.11.2012]

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Distracção 9

Distracção / 9 [Série de textos previstos]

»»»»» [… ], [… ], [… ], [… ], [… ], [… ]

A.S.

[28.10.2012]

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Deserto está o rio

Deserto está o rio

 

Deserto está o rio. E tu sabes que acabam

agora as proezas solares de ontem.

Beijo nas tuas axilas, húmidos, nítidos,

os odores de um verão que se vai.

 

»»»»» Poema de Sandro Penna (1906-1977), incluído na recolha Posie inedite / Poesias inéditas (1927-1955).

»»»»» O momento imediato representado em palavras imediatas e contaminadas do devir: consciência do momento e sua reconfiguração em decurso de tempo. Do lado do imediato, representa-se o rio já sem frequentadores; e o beijo erótico, literal ou figurado, nas axilas, onde odores presentes se concentram e resumem. Do lado do devir, a consciência de que é tempo de acabarem as “proezas solares” (“solari prodezze”) dos dias de verão; esse verão que se vai (“che si guasta”). Ao traduzir a frase “E tu lo sai che basta / ora com le solari prodezze di ieri”, o sentido diferiu ligeiramente: na frase em italiano, é o sujeito que decide, de modo conivente (“tu lo sai che basta”), que é tempo de acabarem as “proezas”, decisão subjectiva; já em português, “E tu sabes que acabam / agora as proezas solares de ontem”, este fim das “proezas” encontra-se decidido por uma instância alheia, superior: o devir temporal que dita o fim do verão. Que “proezas” fossem essas, fiquemos nós, leitores, a imaginá-las conforme o nosso gosto.

 

»»»»» Texto original:

 

Deserto è il fiume. E tu lo sai che basta

ora con le solari prodezze di ieri.

Bacio nelle tue ascelle, umidi, fieri,

gli odori di un’estate che si guasta.

 

»»»»» [Utilizaram-se as seguintes edições de poemas de Sandro Penna: em castelhano, Poesía, prólogo y traducción de Pablo Luis, Ávila Visor, Madrid, 1992; em português, No brando rumor da vida, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, prefácio de Natalia Ginsburg,  Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.)

 

António Sá

[10.05.2012]

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O sol aqui parece-me tão quente

»»»»» Quatro versos, verso livre, muita intensidade atmosférica nas duas primeiras proposições: o sol “così caldo” (“tão quente”) e as flores correspondendo-se com aquele sol numa expansão “ardenti e secchi” (“ardente e seca”). Esta intensidade atmosférica parece dissolver para o sujeito o sentido das palavras. E sem tal sentido ele encontra-se estrangeiro, fora de qualquer enquadramento social, e também feliz nessa sua condição de estrangeiro, ou estranho: a atmosfera terrestre é o envolvimento amniótico onde calidamente está imerso.

»»»»» Quatro versos de Sandro Penna (1906-1977), inseridos da recolha [Stranezze / Estranhezas (1957-1976). Traduzo-os e transcrevo a seguir no original:

O sol aqui parece-me tão quente.

As flores crescem ardentes e secas.

E o que se ouve dizer parece apenas som.

Oh feliz estrangeiro em todo o lugar.

»»»»» Em italiano:

Il sole qui mi sembra così caldo.

I fiori crescono ardenti e secchi.

E quello che qui dicono mi sembra solo suono.

Oh felice straniero in ogni luogo.

»»»»» [Utilizaram-se as seguintes edições de poemas de Sandro Penna: em castelhano, Poesía, prólogo y traducción de Pablo Luis, Ávila Visor, Madrid, 1992; em português, No brando rumor da vida, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, prefácio de Natalia Ginsburg,  Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.]

António Sá

[14.02.2012]

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Estou num lugar lúgubre e escuro

 

Estou num lugar lúgubre e escuro,

cheio de fumo, cheio de palavras.

Mas ausente: e sonho o cemitério

de uma pequena aldeia sob o sol.

 

»»»»» Poucos mas misteriosos versos. Se o lugar interior é genericamente identificável pela breve caracterização feita, um café, uma taberna, a imagem antitética da aldeiazita sob o sol é perturbada pela menção do cemitério. Aqui reside o mistério, invocado mas não resolvido: — porquê o cemitério? — quem se evoca que aí tenha estado de passagem ou aí repouse?

»»»»» Ensaiando uma leitura não literal, divago que aquele lugar descrito nos dois primeiros versos seja um lugar mental, um estado de espírito, onde reine a confusão, o ruído da vida, a “confusão de Babel” camoniana; e o cemitério sonhado venha a ser a tranquilidade do espírito, o silêncio a que a mente aspira.

»»»»» [Poema de Sandro Penna (1906-1977), que traduzo utilizando a recolha bilingue Cruz y delicia. Extrañezas, traducción y prólogo de Edgardo Dobry, Lumen, Barcelona, 2007; e o volume No brando rumor da vida, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, prefácio de Natalia Ginsburg,  Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.]

 

»»»»» Texto original:

 

Io sonno in un locale greve e nero,

pieno di fumo, pieno de parole.

Ma sono assente: e sogno il cimitero

di un piccolo villaggio sotto il sole.

 

António Sá

[29.07.2012]

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Enquanto estamos aqui

Enquanto estamos aqui

»»»»» Poema das coisas simples da vida, acreditando que na vida haja coisas simples, é este breve poema de Sandro Penna (1906-1977), onde a lua com o seu lume banha os cantos dos camponeses, estimula os pensamentos daquele que regista o momento, esse momento em que as sebes ouvem os cantos e ele ouve-se a si mesmo. No entanto não está isolado: é um plural “noi siamo” (“nós estamos”) que se encontra num espaço de coisas cotidianas, objectos usuais.

»»»»» Traduzo assim esse poema que integra a recolha Poesie inedite / Poesias inéditas (1927-1955), e a seguir transcrevo no italiano de origem:

Enquanto estamos aqui, entre usuais

coisas sepultos,

*************** vive sobre o mundo a lua

e banha o canto aos camponeses. Sossegadas

escutam as sebes.

*************** Eu escuto o fundo

da minha vida sob o lume da lua.

»»»»» Texto de partida:

Mentre noi siamo qui, fra consuete

cose sepolti,

*************** è sul mondo la luna

e bagna il canto ai contadini. Quiete

ascoltano le siepi.

*************** Il fondo ascolto

della mia vita a quel lume di luna.

»»»»» [Para este texto utilizaram-se as seguintes edições de poemas de Sandro Penna: em castelhano, Poesía, prólogo y traducción de Pablo Luis, Ávila Visor, Madrid, 1992; em português, No brando rumor da vida, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, prefácio de Natalia Ginsburg,  Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.]

António Sá

[02.01.2012]

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Soft porno

»»»»» Comparativamente a Bright star (Jane Campion, 2009), e porque resulta útil olhar em contraste certos artefactos cinematográficos, nenhuma perspectiva sobre os seres e as coisas significativamente outra se descobre em Une vieille maîtresse (Catherine Breillat, 2007), a partir do romance homónimo (1851) de Barbey d’Aurevilly (1808-1889). É um filme de época também, sobre um libertino preso ou liberto nas teias da sexualidade. Este, protagonizado por Fu’ad Aït Aattou, desposa uma bela jovem (actriz: Roxane Mesquida) de boas famílias, por quem se apaixonara, mas a pudicícia, o puritanismo desta esposa não lhe são propícios a esquecer a ardente “velha amante” espanhola (Asia Argento, overacting), que o entretinha há dez anos.

»»»»» Da figura do jovem libertino ressalta um pavoneante laço branco que lhe afoga o pescoço, mas são mais os momentos em que expõe o corpo branco desnudo.

»»»»» Onde seria uma experiência estética percepcionar o vórtice existencial — uso esta expressão pensando no cinema de Ingmar Bergman — esse vórtice em que os personagens entram e onde gravitam, encena-se o curso dos enredos de modo plano, convencionalmente funcional, ocasionalmente inepto, como por exemplo em toda a distensa e frustre sequência do duelo; e o referido vórtice potencial fica-se pela superfície de intrincadas, longas sessões, com diálogo divergente incluído, de puro — não sei se o há impuro — soft porno.

António Sá

[28.10.2012]

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