Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Fevereiro, 2013

Sou tal como o rei de um país pluvioso

 

»»»»» Este é um dos vários poemas a que Charles Baudelaire (1821-1867) deu o título de Spleen, palavra inglesa que responderá à noção de “tédio”. O poeta preferiu o termo inglês ao possível correspondente “ennui” em francês.

»»»»» Neste Spleen, “Je suis comme le roi d’un pays pluvieux”, que traduzo a seguir, Baudelaire dá uma imagem sensível a esse sentimento. Serve-se para isso da figura-estereótipo de um rei medievo que tudo tem ao seu alcance e tudo pode, e essa totalidade do poder tornam-lhe tudo tedioso e transformam-no em um ser embrutecido, socialmente insensível e cruel: imagem e metáfora de um tédio tão avassalador que, pelo menos nos momentos da sua vigência, deixam o poeta num estado de estupor, prostração e, por consequência, de insensibilidade quanto às dores do mundo.

 

Spleen

Sou tal como o rei de um país pluvioso,

rico, mas impotente, jovem mas já ancião,

que, desprezando vénias de seus preceptores,

com seus cães se entedia e outros animais.

Nada pode alegrá-lo, nem caça, nem falcões,

nem seu povo a morrer frente à sua varanda.

A balada grotesca do bufão favorito

já não distrai a fronte deste cruel enfermo;

seu leito brasonado em féretro se torna,

e as cortesãs que julgam qualquer príncipe belo

inventar já nem sabem impúdicos preparos

pra sacar um sorriso desse jovem esqueleto.

O alquimista que lhe produz o ouro não pôde

do seu ser extirpar o elemento corrupto,

e em banhos de sangue que vêm dos Romanos

e dos quais na velhice os tiranos se lembram,

não soube ele aquecer este amorfo cadáver

no qual em vez de sangue correm limos do Letes.

 

»»»»» Três notas:

»»»»» 1ª) Prevenindo anacronismos: tenderíamos hoje a catalogar medicamente a experiência do tédio enquanto “depressão”, no entanto não é óbvio que o spleen baudelairiano enformasse o conteúdo da “depressão” de um ser humano sujeito à “pressão” da vida contemporânea, embora o estado de prostração possa ser um elemento comum.

»»»»» 2ª) Letes é o topónimo mitológico de um rio verde dos limos das águas mansas que nele correm, um dos rios do Hades (o subterrâneo mundo dos mortos): quem bebesse das águas deste rio esquecia os seus males

»»»»» 3ª) Nota bibliográfica: utilizei o volume das Oeuvres complètes de Baudelaire publicado nas Éditions du Seuil em 1968; e é daqui que transcrevo o poema na língua original:

Spleen

Je suis comme le roi d’un pays pluvieux,

Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux,

Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,

S’ennuie avec ses chiens comme avec d’autres bêtes.

Rien ne peut l’égayer, ni gibier, ni faucon,

Ni son peuple mourant en face du balcon.

Du bouffon favori la grotesque ballade

Ne distrait plus le front de ce cruel malade ;

Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,

Et les dames d’atour, pour qui tout prince est beau,

Ne savent plus trouver d’impudique toilette

Pour tirer un souris de ce jeune squelette.

Le savant qui lui fait de l’or n’a jamais pu

De son être extirper l’élément corrompu,

Et dans ces bains de sang qui des Romans nous viennent,

Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,

Il n’a su réchauffer ce cadavre hébété

Où coule au lieu de sang l’eau verte du Léthé.

 

António Sá

[06.02.2013/20.02.2013]

Read Full Post »

Distracção 17

Distracção / 17 [Palavra]

 

»»»»» Se quero editar só uma palavra, edito palavra.

A. S.

[25.02.2013]

Read Full Post »

Distracção / 16 [Leis coxas]

 

»»»»» O filósofo saiu-me com uma teoria das leis:

»»»»» — As leis devem sair sempre coxas.

»»»»» — Porquê? — espantei-me.

»»»»» — Já viu o que seria um país onde as leis fossem sempre pensadas em todas as suas vertentes e consequências? O que seria das televisões, dos jornais, se não houvesse o escândalo permanente de leis bacocas… muitas delas só para figurarem eternamente impressas no Diário da República? O que seria dos cidadãos, sem motivos para se indignarem, para se manifestarem e pedirem a demissão dos ministros? Já viu o que seria isso? O que seria a vida? — O aborrecimento perpétuo de cumprir leis justas e adequadas… enfim, chatice de vida…

»»»»» — Se calhar… — reflecti.

A. S.

[22.02.2013]

Read Full Post »

Distracção / 15 [O castigo de Priapo]

»»»»» O meu filósofo deu-me encontro na esquina da igreja, e segredou-me:

»»»»» — Então agora há um ministro que mandou os fiscais “tomar no cu”?

»»»»» Eu olhei-o opacamente, preocupado quanto ao futuro de uma conversa que começava assim.

»»»»» — Bem… — gaguejei, procurando alçapões onde me escondesse — não foi um ministro… foi um secretário… que aliás já não é secretário… era subsecretário ou coisa-assim…

»»»»» — Pois olhe — desviou o filósofo para o seu assunto, — esse é o castigo que Priapo dá aos hipócritas, num poema de Goethe…

»»»»» Aliviou-me esta feição erudita da conversa, e lembrei-me que o meu filósofo era homem de cultura, remetido agora à triste condição de só ter os céus por tecto e horizonte.

»»»»» — Que poema é esse? — quis saber duvidoso.

»»»»» — Olhe, é logo o primeiro poema da Erotica romana

»»»»» Apressei-me no dia e ele, à laia de despedida, lançou-me:

»»»»» — Eles merecem, eles merecem… esse castigo e pior… os hipócritas, claro… Quanto aos fiscais… não tenho nada com eles…

»»»»» — Você é um homem às direitas — lembrei. — Não paga impostos…

»»»»» — Nem mais!

»»»»» Mais tarde, ao fim do dia, e lendo comentários num jornal sobre aquele caso referido pelo filósofo, remordi-me na minha ignorância sobre o tal poema de Goethe. Fui ao lugar da estante onde se alinham as lombadas das obras-primas deste génio, e descobri entre elas a da Erotica romana. Era uma tradução e, o que é mais!, eu já a tinha lido, e até tinha anotado a lápis observações ao longo dos versos. Portanto, perdera a memória de ter lido esse poema, e logo tratei de apagar as notas a lápis, com vergonha das inépcias desses meus comentários arcaicos e esquecidos.

»»»»» E de facto, no final do poema que abre o livro e é o 1º Priapeon, visto que há um 2º Priapeon a fechá-lo, Goethe investe não só contra os hipócritas, como lembrara o filósofo, mas também contra os “pálidos e púdicos criminosos” (suponho que “criminosos” culpados de medo da sexualidade), incitando Priapo a dar castigo a algum desses que se lhe aproxime: “(…) castiga-o por detrás, / com a estaca que, encarnada, te cresce das ancas”.

»»»»» E qual a razão por que são castigados? Por não terem o amor, nomeadamente o amor erótico, na devida consideração, e até por encararem o gozo sexual com repugnância puritana.

»»»»» Priapo era aquela divindade rústica da mitologia grega que guardava os jardins, as vinhas e os pomares e, sendo um símbolo de fecundidade, aparece representado nas figurinhas com o enorme falo sempre em estado de erecção.

Priapo 001

»»»»» [Cito os versos de Goethe na versão portuguesa da obra Erotica romana, tradução de Manuel Malzbender, revisão literária de Maria João Mayer Branco, Cavalo de Ferro, 1ª ed. 2005.]

A. S.

[17.02.2013]

Read Full Post »

Distracção 14

Distracção / 14 [Um cidadão exemplar]

»»»»» Quanto mais a “austeridade” avança e a classe política entra em espiral desvairante, mais o meu filósofo favorito se torna insidioso, invasor do meu sossego.

»»»»» Esperou-me à esquina da igreja, ele sabe já a que hora do dia passo por ali, para me atirar de supetão:

»»»»» — Se é para transformar os cidadãos do país em sem-abrigo, como quer um senhor doutor que tem seu quê de engenheiro, e se para o conseguir é só questão de milhões, porquê ficar-se o governo por cortar quatro mil milhões?, se é só questão de milhões para quê ser modesto?, por que não quarenta mil milhões, ou quatrocentos mil milhões?

»»»»» — Sim — disse eu perturbado, paralisado, incapaz de dar o fora.

»»»»» — Olhe, eu já cá estou. Não recebo salário, logo não pago impostos para alimentar os bancos tóxicos e os corruptos de todos os quadrantes… Já cá estou, já sou sem-abrigo antes de vocês todos! Também nunca cometi fraudes, nem recebi dinheiros por baixo da mesa! Sempre fui um cidadão exemplar… Sou um cidadão exemplar!

»»»»» Ele exaltava-se no seu discurso, mais do que lhe é habitual e eu, tentando acalmá-lo, proclamei:

»»»»» — Por quem é! Ninguém disse outra coisa! Claro que você é um cidadão exemplar!

»»»»» E fiz-me ao dia apressado.

A. S.

[08.02.2013]

Read Full Post »

Distracção 13

Distracção / 13 [Coisas nocivas]

»»»»» O meu filósofo favorito, instalado no banco de jardim, náufrago na sua ilha à tona de um mar de relva florida de beatas e sobras de raspadinhas, chamou-me, quando eu passava ao largo, habituado à minha paciência para lhe prestar atenção e, babujado e ufano, deserto por me apanhar numa qualquer ratoeira, fez-me ouvir o seu mais recente aforismo:

»»»»» — Meios mais expeditos de realizar todas as coisas: nem sequer começá-las, pensá-las enquanto coisas inúteis, acaso nocivas.

»»»»» — Por que hão-de ser nocivas? — objectei, impaciente, com pressa intolerante.

»»»»» — Não são nocivas a maior parte das coisas que os homens empreendem?

A. S.

[28.01.2013/30.01.2013]

Read Full Post »