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Archive for Abril, 2013

Pizza fria?

»»»»» Discutindo tamanhos e estéticas, aspectos mais ou menos tenso ou enrugado dos pénis em erecção ou nem por isso, uma das modelos relata às duas colegas de profissão que o pénis do seu primeiro namorado tinha o mesmo aspecto em repouso e em erecção, era-lhe mesmo difícil perceber quando passava de um estado a outro, e nesse ponto lança a inesperada, improvável metáfora de pizza fria para caracterizar o sexo desse namorado ou, para empregar o termo das legendas em português, a “picha” do mesmo, rematando com enjoo despeitado que o “sacana” entretanto casara e era pai de filhos. Uma das colegas confidentes rememora um dos seus namorados, que aproveitava as festas como pretexto para mostrar a “picha” às amigas convidadas, tantas quantas pudesse.

»»»»» Este é um dos tópicos das conversas que se estabelecem entre estas jovens modelos de poucos vinte anos. O espaço privilegiado onde ocorrem é o das longas casas de banho das discotecas, frente aos espelhos onde refrescam o rosto, se remaquilham, se inspeccionam e confidenciam as perspectivas de engate para a noite em curso.

»»»»» Outros tópicos ocorrem nas conversas da modelo louro-platinado, cujas aventuras se vão sucedendo, conversas com os tipos-de-uma-noite. Um desses tópicos é o dos preservativos: ela, na sua feminilidade agreste, increpa um rapaz-de-uma-noite por não trazer preservativos, a que se segue a condenação geral de todo o género masculino, por se facilitar a si mesmo a vida, não se precaver, deixar isso displicentemente para as mulheres. Outro tópico é o do amor-à-primeira-vista, e é desenvolvido na cama, já numa descontracção pós-coito, com um homem de aspecto maduro e poderoso. Ela pretende que ele lhe manifeste o mesmo sentimento amoroso que ela sente e expressa, talvez de modo algo alucinatório, dado o seu hábito de snifar cocaína sobre e com álcool. Ele, pacientemente, faz-lhe ver que o que ela sente é uma construção mental sua do momento, um devaneio, visto que mal o conhece, e é também uma manifestação de inocência adolescente, uma crença desadequada para a sua idade no príncipe encantado dos contos de fada.

»»»»» Conversas e situações expostas no filme Models (1999) do austríaco Ulrich Seidl, filme hibridamente documental-ficcional, mais esta coisa que a outra, pelo menos a nível de registo cinematográfico.

»»»»» Um longo plano-sequência um tanto enigmático, talvez o melhor momento do filme, o mais intenso e desconfortável, fecha a peregrinação da modelo louro-platinado, expoente de todas as outras modelos do seu círculo. O plano enquadra uma larga cama-de-ferro num quarto de hotel e, já em situação pós-coito, um belo homem inda jovem, um tanto aninhando-se ensaia acariciar-lhe o corpo. Ela, recostada e refugiada num cigarro defensivo-agressivo, rejeita-o uma e outra vez, sob pretexto de ele ter as mãos frias. A esta recepção agreste ele explica, num tom tranquilo, que a “queca” acontecida não foi grande coisa. Ela não concorda nem discorda, nem muito perplexa parece mais concordar que discordar. Neste impasse desafectivo, ele explode num riso compulsivo, potenciado pelas garrafas de cerveja que se acumulam na mesa-de-cabeceira. Esse  riso prolonga-se por largos minutos, torna-se convulso, imparável, a que ela responde com um riso não menos imparável mas menos intenso. E enfim uma e outro páram de rir por etapas, com remissões, ele já num estado de exaustão, e o plano fecha. Este final pode constituir, na sua pretendida deceptividade, uma súmula da situação ontológica destes personagens, incómodos ou insatisfeitos nas suas situações ou insituações, incómodos ou insatisfeitos de modos intraduzíveis consigo mesmos.

António Sá

[21.03.2013]

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Distracção / 35 [‘Tá num ‘tá?]

 

»»»»» Fala um dirigente desportivo:

»»»»» — O nosso clube não se pode dizer que ‘teja hoje em dificuldades… ‘Teve em dificuldades, mas hoje já num ‘tá… já num ‘tá, graças ao nosso esforço… E mesmo que ‘tivesse não ‘taria por muito tempo, porque a energia da nossa massa associativa e o empenho dos dirigentes actuais não permitiriam que ‘tivesse.

António Sá

[10.04.2013]

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Caracóis louros

»»»»» Da touca cingida escapam-se pequenas volutas de caracóis louros que caem sobre a testa, e sobre a têmpora visível descai mais solta voluta até junto à base do lóbulo. Estes breves sinais de ouro permito-me entendê-los enquanto índices da fortaleza, heróica fortaleza dessa heroína que é ou foi, é ainda outra vez aqui na tela a branca face de Judite, essa que apresenta numa bandeja os louros do seu heroísmo: a cabeça cortada de Holofernes.

Lucas Cranach 2 001

»»»»» Escrevo sobre o que os meus olhos inda vêem do que entretanto ao vivo vi na tela Judite com a cabeça de Holofernes (c. 1530) de Lucas Cranach o Velho (1472-1553). Evocando assim essa representação, divago sobre o valor da tonalidade laranja dominante. A touca que subjaz ao chapéu com penachos; o vestido que cobre os seios não muito e, sob a vistosa jaqueta, surde na zona das mangas: são, touca e vestido, de um entramado de losangos bordados a fio branco sobre um tecido cor-de-laranja. Também cor-de-laranja a base das duas grossas gargantilhas de pedrarias; a cadeia de argolas que lhe rodeia o peito branco e a omoplata; os largos debruados da jaqueta, provida de foles de cetim branco na dobra do cotovelo. Em tonalidades mais ou menos saturadas ou sombreadas, o cor-de-laranja institui visualmente o tónus da obra, e providencia à heroína uma útil aura de juventude e dinamismo, valores que tal cor transporta. Útil aura porque a narrativa refere como essa heroína judia, com audácia juvenil, seduz o general assírio Holofernes para mais expeditamente o eliminar. Assim ela dá um contributo fatal ao episódio bíblico: na sequência, as tropas assírias levantam o cerco a Betúlia, cidade judaica.

»»»»» E, para interpretar as tonalidades laranja, acrescente-se esta noção: tal cor realiza o equilíbrio entre o espiritual e o carnal, ao reunir em si o amarelo-dourado celeste e o vermelho ctónico: é através de um acto libidinoso, a sedução sexual, que Judite efectiva um objectivo altruísta, a libertação do flagelo a que o seu povo estava sujeito.

»»»»» Uma coisa posso ler no olhar desta Judite: a determinação, uma determinação que não conhece limites e por isso é uma branda, firme compaixão por si, a quem coube o acto necessário; e pelo outro, o executando, literalmente aquele que havia de ser executado, que tinha de ser executado.

[Leitura informativa: ficha do Museu Nacional de Arte Antiga relativa à exposição “Obra convidada: Judite com a cabeça de Holofernes” (24 de janeiro – 28 de abril, 2013). Perifericamente: Michel Pastoureau, Dicionário das cores do nosso tempo, Editorial Estampa, Lisboa, 1993; Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos símbolos, Teorema, (1994).]

António Sá

[20.03.2013/07.03.2013]

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