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Archive for Maio, 2013

Distracção / 36 [Hecatombes sócio-homicidas]

 

»»»»» — Esta dita crise, álibi pré-fabricado, como se de crise não fosse o permanente estado das coisas humanas, fez perder a tramontana aos ministros, secretários, subsecretários de estado, enfim toda essa tropa… — atirou-me o meu filósofo, saltando de golpe, como um assaltante, por detrás de uma árvore do seu jardim.

»»»»» — Que quer dizer com isso de “perder a tramontana”? — diferi, defendendo-me.

»»»»» — Quer dizer que esses desgraçados perderam já a noção do que dizem e do que fazem, entraram em desvario vertiginoso… o que sempre acontece aos seres humanos quando em situação de poder mais ou menos soberano…

»»»»» — E porquê isso?

»»»»» — Tal como Hitler, na luta com os seus demónios interiores, entrou numa espiral de sanha contra judeus e ciganos, assim os nossos chefes-de-fila, em luta contra quem sabe que retorcidos demónios seus, entraram em espiral de sanha contra reformados e pensionistas. Aliás os governantes que hoje presidem ao destino das nações constituem o tipo de gente que antecede e prepara as grandes hecatombes, já não hecatombes bélicas, mas hecatombes diferidas no tempo, hecatombes concentracionariamente congeminadas em gabinetes caligarianos, sócio-homicidas. Eu não sou profeta, nem é preciso ser-se profeta para ver o que visto está, é mesmo só ver… Mas inda há uns desavergonhados desses faustianos que dizem, segredados por Mefistófeles, que “o pior da crise já passou”… — E rápido, cortante, desferiu: — Quanto a reformados e pensionistas, eu cá não tenho nada com isso… nunca fui nem uma coisa nem outra na minha vida, e até acho bem-feito que castiguem essa gente inútil, que só quer é viver à borla e com todo o conforto…

»»»»» — O quê? — indignei-me. — Você está enganado… — investi, disparando uns perdigotos: — “Essa gente”, como você diz, deu o seu contributo para a sociedade, não merece castigo… E você está mesmo é a fazer de profeta da desgraça!

»»»»» — É bem-feito que todos os dias apareça um senhor ministro, ou secretário, ou qualquer coisa assim a aterrorizar essa gentalha e logo outro que lança água na fervura e diz o contrário, e logo outro que lança achas na fogueira e diz o contrário do contrário… É bem-feito! Lancem-lhes novos impostos todos os dias! Cortem-lhes a eito nos rendimentos! A jusante e a montante! Já no outro dia um senhor deputado, marçano de seu chefe e obrigado, execrou a “peste grisalha”! Esse estava era a preparar a investida taurina do senhor doutor engenheiro ministro, esse que preside aos nossos destinos. E é assim mesmo: são a peste dos nossos tempos! Por que não hão-de todos eles viver como eu, que sou sem-abrigo, e com muita honra! Já lá dizia um outro senhor doutor engenheiro, que não é ministro nem nada, que todos podemos ser sem-abrigo, e aguentamos, todos os sem-abrigo aguentam, oh, se aguentam!

»»»»» Esmagado por tão veemente, vingativa, cartesiana argumentação, fiquei sem saber como sair do atoleiro verbal daquele filósofo implacável, mas ocorreu-me atacá-lo:

»»»»» — Oiça, e que tal… que diria o senhor que aí vive no jardim e diz que é sem-abrigo, se lançassem taxas de sustentabilidade sobre vocês-inúteis?

»»»»» — O quê? Deve estar a brincar…

»»»»» — Não estou não! E bem que devia acontecer! — uma taxa, um imposto, um contributo para a sociedade que vos sustenta gratuitamente a vocês, que vivem das esmolas, das sobras do que nós, que pagamos impostos, vos damos e lhes permitem continuar a viver…

»»»»» — E quais são esses nossos rendimentos? Como vão saber quais os nossos ganhos, para a partir daí criarem as taxas correspondentes?

»»»»» — É fácil: põem-se os inspectores das finanças a fiscalizar. Não é o que eles devem fazer em relação a todos os cidadãos? E quem sabe quão surpreendentes os resultados se revelariam!?… Se calhar você aufere por mês mais do que eu, mais do que os doutores engenheiros de que tanto fala…  — hiperbólide era eu de pressa e exagero, no auge do desencadeamento discursivo.

»»»»» — Cabrão! Filho-da-puta! — insultou ele, e pegou numa pedra solta do jardim, avançou curvado contra mim, como uma cobra-capelo no momento de se catapultar.

»»»»» Recuei, fixando-o hipnoticamente nos olhos, de modo a evitar que se descontrolasse e me partisse a cabeça à pedrada. — Peço-lhe desculpa… lamento imenso, não devia ter dito o que disse…

»»»»» Ele descontraiu, baixou o braço, sem no entanto largar a pedra, e disse, enquanto eu recuava sem o perder de vista:

»»»»» — Quem sabe o que esta gente pode fazer! Só falta taxarem os meus proventos de guarda-do-jardim… guarda voluntário, que da Câmara não recebo um tusto por isso… Quem sabe o que podem fazer estes ministros desentoados, anárquico-confusos, desancadores de inválidos e anciãos, promotores da crueldade e do pânico.

»»»»» Aí desandei, mas ele entrou em confidências gritadas para a avenida: — Sabe… eu, nos meus anos de juventude, fiz parte de um grupo de acção teatral chamado Zona de Pânico.

António Sá

[10.05.2013/13.05.2013]

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