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Archive for Junho, 2013

Traj’ agora Marinha Sabugal

»»»»» Marinha Sabugal seria uma soldadeira, ou seja, aquela serviçal que, ao ganho de um soldo ou soldada, baila e canta e eventualmente segue ao serviço das hostes durante a guerra da Reconquista cristã aos mouros, no século XIII peninsular. E enquanto soldadeira, ela projecta integrar-se numa próxima acção bélica: “mais ora quer ir moiros guerreiar”. Quer levar consigo uma velha, sua conterrânea, à qual “quer ben” e dela não se quer separar. Mas a relação entre estas duas mulheres é desigual, porque a Marinha Sabugal quer-lhe bem, “faz-lhe’ algo”, ou seja, age em seu favor, “e quer consigo a velha levar”; em contrapartida esta velha “lhe quer mal”, e muito “erra” em malefício da soldadeira, além disso não é costumada neste tipo de actividade: “mais a velha non é doita da guerra”, entendendo “doita” por “douta”, “sabedora”, experiente”, “costumada”.

»»»»» A interpretação acima exposta, cingindo-se à actividade própria de soldadeiras em tempo de guerra, será uma interpretação literal. Outra interpretação, capciosa, consistirá em entendermos “guerra” enquanto metáfora de “actividade sexual”, metaforização esta assaz corrente na literatura ocidental. Assim, Marinha Sabugal gostaria que a velha sempre a acompanhasse para seu disfrute sexual, configurando este apego um caso de lesbianismo, mas a dita velha não é “doita”, ou seja, “costumada” nessas práticas e muito “erra” contra a companheira. De resto, estas interpretações, a literal e a metafórica, fundem-se harmoniosamente no conspecto social e época histórica em que o trovador opera.

»»»»» O trovador desta composição é Afonso Anes do Coton, activo nas décadas de quarenta e cinquenta do século XIII, ao qual se faz referência neste sítio a propósito de uma outra sua cantiga de maldizer: ver a entrada Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen.

»»»» Segue-se a transcrição da única estrofe desta cantiga, sendo que, segundo Manuel Rodrigues Lapa, a versão completa teria outras duas, uma inicial e outra a finalizar:

Traj’ agora Marinha Sabugal

ua velha que adusse de sa terra,

a que quer bem, e ela lhi quer mal;

e faz-lh’ algo, pero que [muito] lh’erra,

mais ora quer ir moiros guerreiar

e quer consigo a velha levar,

mais a velha non é doita da guerra.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição de Manuel Rodrigues Lapa em Cantigas d’escarnho e de mal dizer (2ª ed., Editorial Galáxia, 1970); colheram-se informações sobre o trovador nas obras Depois do espectáculo trovadoresco (António Resende de Oliveira, Edições Colibri, Lisboa, 1994) e Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, Lisboa, 1993).]

 

António Sá

[09.06.2013]

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Distracção / 37 [O dia dos investimentos — uma fábula]

 

»»»»» Um belíssimo dia de aguaceiros, o ministro mosquito das finanças turvas declarou publicamente distante e perante a sua mais vasta assembleia:

»»»»» — Chegou o momento do investimento!

»»»»» No seu fraseado de mosquito obsessivo, deveria ter repetido lerdo:

»»»»» — Chegou o momento do investimento!

»»»»» Mas desta vez não repetia a declaração, tão decisiva e única ela era.

»»»»» Todos os muitos mosquitos presentes ficaram imobilizados na sua distância, emudecidos, como se fica nos grandes, excessivos momentos desta vida de mosquitos. Depois, entreolhando-se e entrestimulando-se riram, riram zumbidamente, esvoaçantemente, como riem os mosquitos. E logo pararam de rir todos ao mesmo tempo, estarrecidos, tanto estavam estarrecidos que se percebeu que tinham de súbito realizado o vasto alcance retrospectivo e prospectivo da hipercagliostroextraordinaríssima declaração do ministro. Como quem acciona, pela calada, um plano de emergência, alguns deles fizeram telefonemas prioritários, outros rodearam o ministro e prenderam-lhe asas e patas, imobilizando-o. Logo chegou telefonada uma equipa de emergência, que envolveu o ministro numa camisa-de-força e o levou de ambulância zunida para uma vasta moradia toda paredes brancas, largos envidraçados por onde entra uma luz inundadamente branca, e aí o ministro logo se sentiu como na sua casa, que assim devera ser desde sempre. Assim se sentiu e declarou, com lampejo celestial no rosto glabro de mosquito recursivo:

»»»»» — ‘Tá-se bem.

»»»»» E, como usualmente acontecia, reincidiu:

»»»»» — ‘Tá-se bem.

»»»»» Nesse isolamento branco, e depois de um prolongado silêncio, zumbiu como quem ressuscita:

»»»»» — Foi a chuva.

»»»»» Tendo assim encontrado uma explicação óbvia e definitiva para tudo o que acontece, rezumbiu, na sua discursividade obsessiva de mosquito, a sua fala mais doente e monocórdica do que a de outro qualquer mosquito, fala de mosquito aflito, com uma asa rota:

»»»»» — Foi a chuva.

António Sá

[07.06.2013]

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Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen

»»»»» Muito houve de que rir, na Idade Média gótica e por aí fora, da sexualidade alheia — ignoro se alguém, nessa longa duração histórica, se riu da sua própria sexualidade. Esquecendo outros séculos, anteriores e posteriores, vou focalizar o século em que viveu o trovador Afonso Anes do Coton, escudeiro ou cavaleiro natural da Corunha e activo nas décadas de quarenta e cinquenta do século XIII. Terá participado no cerco ao castelo de Jaén (1246), episódio do longo confronto entre cristãos e muçulmanos pelo domínio da Península Ibérica. Afonso Anes riu-se muito, e com ele os que lhe ouviram a cantiga “Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen”.

»»»»» Condenso em poucas frases o teor da cantiga, que integra os cancioneiros medievais galego-portugueses, e transcrevo-a sequentemente. Diz o trovador que se quer ir do lugar onde está, porque ali não pode “cono baratar”, ou seja, foder uma qualquer vagina. E desenvolve este raciocínio: alguém lhe daria esse “cono” que ele deseja, mas esse alguém não no tem; e quem o tem, não lho quer dar. E no refrão, que integra as duas estrofes da cantiga, vem uma explicação lapidar: ele interpela essa mulher, Mari’ Mateu, increpando-a por estar tão desejosa de “cono” quanto ele. Na segunda estrofe, o raciocínio é este: Deus criou ali em abundância muitos “conos”, mas criou-os para quem não precisa deles; e entretanto ele e a Mari’ Mateu, sendo esta embora mulher, estão ambos desejando muito esses “conos”.

»»»»» Duas observações sobre pequenos mistérios desta cantiga:

»»»»» Primeira observação. O que quer dizer aquela ideia de que quem quer dar o “cono” não no tem, “alguen que mi o daria nõno tem”? Aventuro que se tratasse de um homossexual, que se lhe oferece, mas não tem “cono” para oferecer.

»»»»» Segunda observação. O que quer dizer que Deus criou em abundância “conos” em mulheres nos quais eles não fazem falta, “que o non an mester”? Que estas mulheres de tão enclausuradas ou sexualmente inactivas não precisavam de ter vaginas? Pode-se ir nesse sentido. Mas a estes “conos” esquecidos, Deus deu-lhes a oportunidade de serem muito desejados pelo sujeito masculino e por esta mulher libidinosa que é a Mari’ Mateu: “[Deus] feze-os muito desejar / a min e a ti, pero que ch’ és molher”). Enfim, muito se riram no século XIII: a cantiga entende-se enquanto jocosa.

»»»»» Segue-se a transcrição textual:

Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen,

por que non poss’ un cono baratar;

alguen que mi o daría nõno ten,

e algu[a] que o ten non mi o quer dar.

Mari’ Mateu, Mari’ Mateu,

tan desejosa ch’ és de cono com’ eu!

 

E foi Deus já de conos avondar

aqui outros, que o non an mester,

e ar feze-os muito desejar

a min e a ti, pero que ch’ és molher.

Mari’ Mateu, Mari’ Mateu,

tan desejosa ch’ és de cono com’ eu!

»»»»» Este mundo da sexualidade assim revelada, sexualidade exposta de que esta cantiga constitui uma cena festiva, seria obliterado, remetido à categoria de “vício” pelos estudiosos da literatura medieval. Assim o fizeram, na tradição académica, e seria anacrónico rirmo-nos da sua moral, fosse religiosa fosse laica, a moral vigente no século XIX, no qual se fundam os estudos da cultura medieval.

»»»»» Sinalizará esta cantiga, no seu pretendido riso, a intuição do absurdo vivencial estatuído no plano sério, impositivo, hierárquico da vida social? Hipótese possível e extensível a um bom número do núcleo de cantigas ditas de escárnio e maldizer. Ela apresenta-se alheia ou paralela ao mundo da ordem religiosa e política, numa época em que reinaram D. Sancho II, deposto violentamente, em 1246, pelo irmão que viria a ser o rei D. Afonso III, em cuja corte se deu grande acolhimento aos aristocratas trovadores. Certamente esta cantiga indicia uma liberdade expressiva num século ainda não inquisitorial. É uma cantiga de maldizer, ou seja, visa abertamente um caso particular, o daquela tão evidente mulher, com a qual o trovador estabelece uma cumplicidade enunciativa, ao tomá-la por interlocutora e confidente (“Mari’ Mateu, ir-me quer’ eu daquen”). E sem embargo o sujeito que a entoa envolve-se, ainda que jocosamente, no jogo do desejo sexual.

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição de Manuel Rodrigues Lapa em Cantigas d’escarnho e de mal dizer (2ª ed., Editorial Galáxia, 1970); colheram-se informações sobre o trovador nas obras Depois do espectáculo trovadoresco (António Resende de Oliveira, Edições Colibri, Lisboa, 1994) e Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, Lisboa, 1993); e ensaiou-se uma interpretação teórica global a partir de dados colhidos em História do riso e do escárnio (Georges Minois, Teorema, Lisboa, 2007).]

 

António Sá

[Maio, 2013]

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