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Archive for Julho, 2013

Distracção / 39 [Teoria do “crescimento”]

»»»»» Hoje, dias depois de inexplicáveis febres, vejo o meu filósofo lavado e vestido de roupas largas, claras, como se todo ele, em conjunto com a roupa, tivesse passado por um programa de qualquer espécie de máquina-de-lavar gigante. Tinham-no levado para o hospital e curado — sabe-se lá de quê.

»»»»» — Estive no hospital e não aprendi nada — disse ele, ingrato para com o Serviço Nacional de Saúde.

»»»»» — Mas já está bom… — preocupei-me cristãmente.

»»»»» — Já estive melhor… — esclareceu-me, sempre céptico.

»»»»» E derramou agreste sobre a minha pacífica bonomia uma nova teoria:

»»»»» — Agora toda a gente, da esquerda radical à direita conservadora, quer o “crescimento”… “Crescimento” como, porquê, para quê? Não era “crescimento” o que havia antes da “crise” e deixava todos os imbecis felizes? Desejar o “crescimento”, na boca de toda esta gente desenfreada que fala nas televisões, significa desejar um apocalipse planetário… supostamente lento… e até… sabe-se lá…

»»»»» — Mas… — disse eu, apanhado nesta ratoeira— sem “crescimento” a sociedade não prospera, não se move e, sem movimento, a vida estagna, perece.

»»»»» — Sem dúvida, senhor doutor, mas “crescimento” é o quê afinal? Só se viu, só se vê excesso e delapidação! Não me venha dizer que não é assim… — e mostrou-se maldisposto comigo.

»»»»» — Pode haver um “crescimento” positivo, de preservação e não-delapidação.

»»»»» — Vá explicar isso a quem o quiser ouvir, que é ninguém. Eu nem sequer percebo o que é isso… Isso não existe… “Crescimento” não preserva, transforma…

»»»»» — Sim, é verdade — discorri. — “Crescimento” pode sempre ser um movimento que transforma o presente favoravelmente…

»»»»» — Um movimento? — ecoou, desvairando numa pirueta de desequilíbrio. — Isso não existe… um movimento favorável! O que é isso? Que tal um movimento para fora deste mundo, deste planeta, antes que seja só escombros e gases tóxicos?

António Sá

[23.07.2013]

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Distracção / 38 [Que le monde aille à sa perte]

 

»»»»» Falou-me o meu filósofo do jardim vizinho requalificado lorpamente, e agora já só com funcionalidades tuberculosas. Falou-me não no jardim onde não estava, mas sentado no passeio junto a um semáforo e abraçando-o, estremecendo como se estivesse transido de frio num dia soalheiro de verão. Falou-me com uma elocução sossegada e um ríctus de sensatez menos que amargo, sobretudo cansado, numa resignação de adeus:

»»»»» — Fazem-se apelos a pôr na rua estes políticos que nos desgovernam, mas eu tenho para mim que bater nos políticos é bater em comerciantes a retalho, comerciantes enfim dos grandes poderes económicos, que são os que mandam, visto que os únicos valores-de-facto que regem e sempre regeram este mundo são os valores auríferos, todos os outros de que se fala, a honestidade, a humildade, etc., são retórica desses mesmos merceeiros bem falantes… e os comentadores da televisão são marçanos de tais merceeiros… tudo bons rapazes: doutores, engenheiros, advogados… Assim, se substituirmos estes comerciantes, logo outros, piores, mais rapaces virão para ocupar os lugares vagos… O mundo não tem nenhuma espécie de virtude nem emenda de nenhum efeito… e o género humano é nele um acidente inviável, porque vorazmente predador e em simultâneo implacavelmente autodestrutivo.

»»»»» — Que le monde aille à sa perte — comentei, na mesma clave do filósofo gélido de frio no verão, e sem ter a certeza de que ele entendesse a mensagem dita em francês: ocorreu-me essa frase dita por uma romancista e cineasta francesa de renome há algumas décadas atrás.

António Sá

[16.07.2013]

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