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Archive for Agosto, 2013

El transexual

»»»»» Híbrido de filme documental e melodrama musical, produzido em tempos pioneiros de afirmação de uma cultura gay. Fragilíssimo em ambos os registos, pode ser visto actualmente sobretudo enquanto documento de época, nas vertentes cultural e para-sociológica.

»»»»» O aspecto documental é introduzido pelo depoimento de um transexual masculino de sotaque brasileiro, depoimento que se suspende e vai regressando, irrompe esporadicamente ao longo da película. Esta figura mutante apresenta definições sucintas e algo primárias de termos como “homossexual”, “bissexual”, “transexual”, “travesti”; discorre sobre a sua experiência, autobiografia e actual situação biológica após intervenções cirúrgicas; esclarece os passos das intervenções a que os transexuais se submetem de modos transversos, tudo isto com imprecisões e algumas noções míticas, como por exemplo a de que os homossexuais são especialmente sensíveis, por terem uma personalidade feminina a cinquenta por cento e masculina outro tanto.

»»»»» Quanto ao enredo, refluindo para breves analepses accionadas a partir dos diálogos das personagens, centra-se no drama patético da paixão não consumada de um homem por um transexual com aspecto de grande perfeição feminina, e que não tem coragem de revelar a sua verdadeira condição, vindo a morrer durante a última operação que lhe perfaria uma vagina ou arremedo de tal órgão. Enredo para um melodrama kitsch na essência e no estilo. Mas um melodrama musical: o mais divertido são os números de cabaret que pontuam o entrecho. De entre os números cantados destaco o de um performer metade vestido de homem e outra metade de mulher, o qual, apresentando ao público ora um perfil ora outro, interpreta uma canção construída em diálogo amoroso entre um homem e uma mulher. E apresentam-se trechos musicais espanhóis, estadunidenses (incluindo a versão instrumental de uma tema celebrizado por Peggy Lee), brasileiros (o samba “Tristeza, por favor vai embora”). Gay Club é o nome do teatro-cabaret destas actuações: a palavra gay já fazia caminho em mil novecentos e setenta e sete.

El transexual 001

»»»»» El transexual, filme de noventa minutos estreado em 1977, interpretado por Agata Lys, Paul Naschy, Sandra Alberti; produção espanhola realizada por José Jara. Exibido na Filmoteca Española, em Madrid, a 29 de junho de 2013 pelas vinte horas.

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A ua velha quis ora trobar

 

»»»»» A figura temível deste trovador, Afonso Anes do Coton, natural da Corunha e participante no cerco ao castelo mouro de Jaén em 1246, enfim a sua figura e a sua fama, má fama de satírico implacável, convoca a apreensão e a prevenção de uma idosa.

»»»»» Esta mulher tenta atalhar uma situação embaraçosa, humilhante, recorrendo a métodos muito em uso actualmente pelas figuras públicas, que são os de tentar impedir ou censurar previamente a divulgação pública do que se quer silenciado. Ela pede por Deus ao trovador que este não faça trovas satíricas contra uma “velha” ali, naquele lugar, porque todos irão crer que é a ela que esses versos aludem. A censura prévia é-lhe atribuída nesta fala: “— Por Deus, que vos fez, / non trobades a nulha velh’ aqui”. Este “aqui” indicia um lugar circunscrito e rarefeito — todos os habitantes do lugar identificarão aquela “velha” enquanto sendo ela mesma, a Orraca López que vive em tal “aqui”, correspondente a uma toponímia constante do segundo verso desta cantiga: “quand’ en Toledo fiquei desta vez”. Um implícito do seu discurso consiste em reconhecer-se enquanto “velha”, e como tal facilmente identificável (“ca cuidaran que trobades a min”) e passível de crítica por parte de outrem pela sua condição ou conduta. Assim ela pede por Deus ao trovador que não a humilhe, e perversamente o trovador faz esta cantiga onde a identifica, nomeando-a — Orraca López — e expõe-lhe a estratégia defensiva, ou seja, a censura prévia ao conteúdo dos versos. Desta cantiga de maldizer, leia-se a única estrofe constante dos cancioneiros medievais:

A ua velha quis ora trobar,

quand’ en Toledo fiquei desta vez;

e veo-me Orraca López rogar

e disse-m’ assi: — Por Deus, que vos fez,

non trobades a nulha velh’ aqui,

ca cuidaran que trobades a min.

 

»»»»» [Referências bibliográficas: adoptou-se, para a transcrição do texto medieval, a lição de Manuel Rodrigues Lapa em Cantigas d’escarnho e de mal dizer (2ª ed., Editorial Galáxia, 1970); colheram-se informações sobre o trovador nas obras Depois do espectáculo trovadoresco (António Resende de Oliveira, Edições Colibri, Lisboa, 1994) e Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, Caminho, Lisboa, 1993).]

António Sá

[26.07.2013]

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