Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Setembro, 2013

Tanto me atraem alegria e amor e canções

»»»»» Traduzo adiante uma canção do troubadour provençal Berenguier de Palazol [Palou] (… 1164…) e nela utilizo a palavra jazer que ocorre na quinta estrofe, fazendo-a corresponder ao occitânico “eschazer”. Evidente a proximidade fónica entre estes verbos, o galego-português e o provençal, decorrentes ambos de iacere ou jacere, infinitivo latino. Jazer, bem entendido, não no seu sentido funerário actual, mas no sentido corrente na lírica galego-portuguesa do século XIII, que vem a ser o de “dormir com” ou “ter relações sexuais com”. Traduzido, o verso resulta-me em “que venhais algum dia comigo jazer” (“que vos poscatz a mos ops eschazer“), que é a pretensão masculina do troubadour: a de que a “bela dona cortesã de bom acolhimento” venha, muito em modo de amor físico, deitar-se com ele. Esta canção ausenta-se quanto a qualquer onda de neoplatonismo, mas adianta uma exclusividade preferencial: “ e nunca eu a outra beije, abrace ou tenha” (“qu’ autra baizar embrassar ni tener“). E desta mulher “única”, “inigualável”, para evocar a adjectivação de Cesário Verde, o trovador occitânico faz o retrato, sem embargo estandardizado na lírica medieva. É a “dona” em suas magnificências sempre-as-mesmas: o “parecer” humilde, o “gentil” falar, a “bela companhia” e o “bom acolhimento”, o “corpo amoroso e suave”; e a indução, que de tudo isto decorre, da sua verdade existencial: não caberia ao amante temer “falsidades ou enganos” da parte de tal “dona cortesã”, assim dotada de perfeições.

»»»»» Enfim, uma canção festiva, primaveril, impregnada de erotismo:

Tanto me atraem alegria e amor e canções

e jovialidade, desporto e cortesia

[Tan m’abelis jois et amors e chans

Et alegrier deport e cortesia]

»»»»» E a coda de três versos é uma antecipação do gozo amoroso quando “preso entre vossos braços”, assim presos amante e amada nos braços um da outra, se fundam os dois corpos no enlace erótico, sendo “os dois ambos” (“ambedui”) “um só querer”. Tanta felicidade o amante não sabe onde possa caber.

»»»»» Tradução:

Tanto me atraem alegria e amor e canções

e jovialidade, desporto e cortesia

que no mundo não acho riqueza nem bens

que me tenham de todo mais favorecido,

pois sei eu bem que a minha dona tem as chaves

de todo o bem a que eu aspiro e espero

e nada disso sem ela poderei ter.

 

Seu grande valor e humilde parecer

seu gentil falar e bela companhia

fizeram-me querer sempre seu senhorio

mais que outro que eu visse antes ou depois

e se o seu corpo amoroso e suave

em sua mercê não se digne reter-me,

Amor não pode de outro fazer meu prazer.

 

Tanto quis eu seu bem e sua complacência

e tanto a desejei e à sua companhia,

que já não creio, se quisesse afastar-me,

que minha vontade pudesse partir-se

e se eu cantei seu bem, sua honra e louvor,

ninguém me fará passar por mentiroso:

que seu valor há-de provar minha verdade.

 

— Bela dona cortesã de bom acolhimento

por seguro sem máculas nem desvarios:

ainda que não vos veja tanto quanto gostaria

minha imaginação alivia meus cuidados,

nela me deleito, restabeleço e repouso

e quanto não possa ver-vos com os olhos

em pensamento dia e noite vos estou vendo.

 

Sabeis por que não me desvio nem hesito

em vos amar minha bela doce amiga?

Porque não me caberia temer, se vos tivesse,

que misturásseis falsidades ou enganos,

por isso eu antes prefiro, e nem ouso imaginá-lo,

que venhais algum dia comigo jazer

e nunca eu a outra beije, abrace ou tenha.

 

Assim, se eu já me vejo preso entre vossos braços,

tanto que os dois ambos sejamos um só querer,

maravilha-me onde tanta alegria possa caber.

»»»»» Texto original:

Tan m’abelis jois et amors e chans

et alegrier deport e cortezia

que-l mon non a ricor ni manentia

don melhs d’aisso-m tengues per benanans

doncs sai eu ben que midons ten las claus

de totz los bes qu’eu aten ni esper

e ren d’aisso sens leis non posca aver.

 

Sa grans valors e son umils semblans

son gen parlar e sa bela paria

m’ an fag ancse voler sa senhoria

plus que d’ autra qu’ eu vis pueis ni dabans

e si-l seu cors amoros e suaus

en sa merce no- denha retener

ja d’ als Amors no-m pot far mon plazer.

 

 

Tant ai volgut sos bes e sos enans

e dezirat leis e sa companhia

que ja no cre si lonhar m’ en volia

que ja partir s’ en pogues mos talans

et s’ eu n’ ai dic onor ni be ni laus

no m’ en fatz ges per messongier tener

qu’ ab sa valor sap ben proar mon ver.

 

Bela domna corteza benestans

ab segur sen ses blasm’ e ses folia

sitot no-us vei tan soven com volria

mos pensamens aleuja mos afans

en que-m deleit e-m sojorn e-m repaus

e quan no-us posc estiers dels olhs vezer

vei vos ades en pensan jorn e ser.

 

Sabetz per que no-m ni vir no-m balans

de vos amar ma bela douss’ amia

car ja no-m cal doptar si e-us avia

que mesclessetz falsia ni engans

per qu’ eu am mais car sol albirar n’ aus

que vos poscatz a mos ops eschazer

qu’ autra baizar embrassar ni tener.

 

Doncs s’ eu ja-m vei dins vostres bratz enclaus

si qu’ ambedui nos semblem d’ un voler

meravilh me on poiria-l joi caber.

»»»»» [Para a transcrição do texto original foi utilizada a leitura constante da obra de Gérard Zuchetto Terre des troubadours, XII et XIII siècles, anthologie commentée, préface Max Rouquette, Les Éditions de Paris, Max Chaleil Éditeurs, Paris, 1996. Esta canção de Berenguier pode ser ouvida no CD Music of the troubadours, Ensemble Unicorn, Oni Wytars, Michael Posch, Marco Ambrosini, ed. NAXOS, 8.554257.]

António Sá

[29.08.2012/16.09.2013]

Read Full Post »

Castelo de Jaén

»»»»» Quando li que o trovador galego Afonso Anes do Coton participara na tomada aos árabes do Castelo de Jaén em 1246, pus a hipótese de já nem haver castelo. Mas sim, havia castelo e nem sequer era só pedras, mas coisa visitável, embora sombra antiga de castelo havido, enfim muralhas e torre. Na esperança de ver tal sombra ou sobra do passado, aí estive, em Jaén, por uma quarta-feira de julho e, no cimo da montanha sobranceira à cidade, lugar onde tais edificações eram edificadas medievalmente, muito solidamente edificadas, dei-me conta de que o perímetro do castelo, muralhas e torre quadrangular, tinha sido vedado por motivo de obras, quem sabe se destas obras que se prolongam por um ano, dois, uma década e mais outra infinita. Assim são as obras nos nossos paraísos e, quando acabadas, para que o trabalho não acabe, logo outras se fazem a corrigir ou refazer as anteriores.

File:Jaén - Castillo.jpg

»»»»» Assim não pisei esse mesmo chão intramuros, sagrado pelos cruzados que fizeram da Ibéria pátria de todo cristã, mas ainda faltaria mais de dois séculos, após a queda de Jaén em 1246, para que uma outra queda, a de Granada, em 1492, essa sim extinguisse qualquer domínio árabe sobre o nosso paraíso-na-terra ibérico.

»»»»» Acoplado às muralhas do castelo, foi construído um extenso paradouro muito alongado, arquitectura neomedievalpósmoderna. A vida é assim: cada vez mais estupidamente kitsch, ou seja, pretensiosa e falsa. Digo paradouro por comodidade de expressão: trata-se de uma pousada de luxo, salão amplíssimo para grandes eventos, a espreitar por envidraçados vertiginosamente verticais. Da varanda-esplanada exterior tem-se uma vista a perder de vista sobre a cidade, a chávena de café é arcaizante e forte o café; mesas e cadeiras de ferro forjado, coxins a confortar o assento, aperitivos crocantes, frutos secos.

António Sá

[06.07.2013/09.09.2013]

Read Full Post »

Um templo para nada

»»»»» Que se construa uma igreja monumental numa aldeia de montanha, numa região em cujas cercanias não existe nenhuma cidade: eis o que se afigura um mistério, talvez nem tanto, apenas um caso. Caso explicável se nos ativermos aos meandros das psicologias e derivas dos poderes sociais e políticos. Esta igreja a que me reporto nunca foi uma igreja no pleno das suas funções, por isso os intérpretes da sua história preferem referi-la como “Ruínas de Santa María”, construídas no século XVI. Sem que a sua construção fosse nunca concluída, conheceu três destruições: a consequente à inundação do rio Cerezuelo e derrocada da montanha adjacente; a que decorreu das invasões napoleónicas, nos inícios do século XIX; e a da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Apesar do sítio ou por causa do sítio, foi um membro da nobreza, o Cavaleiro da Ordem de Santiago Francisco de los Cobos y Molina (finais do séc. XV-1547), em ascensão na esfera do poder, que ordenou e custeou a sua quase-construção sempre quase. O que impressiona, para além das Ruínas a céu aberto, na sua desproporção relativamente à pequenez da povoação de Cazorla onde se situa, é que, sendo projectada para se erguer sobre o rio, se construiu, para a passagem das águas do mesmo rio, um extenso, ingente túnel de centenas de metros paredes-meias com a fundação das habitações, complexa obra de engenharia hoje tão subterrânea e grandiosa quanto inútil, desde sempre inútil para sempre inútil.

»»»»» Útil afinal para excursões turísticas guiadas às ruínas.

File:FranciscoDeLosCobos.jpg

»»»»» Francisco de los Cobos era um fidalgo que sempre soube ir ascendendo, em tempo de clivagens políticas optou por prestar vassalagem ao infante Carlos, esse que viria a ser o imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico e rei Carlos I de Espanha. Francisco de los Cobos foi seu secretário, acumulou fortuna que utilizou ordenando o plano de urbanização da cidade onde nasceu, Úbeda, e onde foi construído o seu palácio, assim como avantajada igreja. Cidade a bastantes quilómetros de Cazorla, esse povoado das grandiosas Ruínas de Santa María. As igrejas referidas, o palácio de los Cobos e muito do vasto conjunto arquitectónico de Úbeda são obra do arquitecto espanhol Andrés de Vandelvira (1509-1575).

»»»»» Consta que Francisco de los Cobos y Molina teria mandado erguer isso a que chamam Ruínas de Santa María, para contrapor uma igreja com grandiosidade cristã ao elevado castelo mouro de Cazorla, poeticamente dito Castelo de la Yedra, e que aliás era só um posto de vigilância; teria sido também para firmar o seu poder em toda a região, sendo o lugar de Cazorla, com seus dezanove moinhos de água ao longo do Cerezuelo, um próspero núcleo de produção de farinha e de azeite.

»»»»» Encontrei este lugar de Cazorla e a cidade renascentista de Úbeda, quando em demanda do Castelo de Jaén, em cujo cerco participou o trovador galego Afonso Anes do Coton no século XIII, mais exactamente no ano de 1246.

»»»»» [Nota iconográfica: a imagem reproduz o retrato de Don Francisco de los Cobos y Molina em todo o seu poder e plenitude, obra de Jan Gossaert, conhecido por Mabuse, datada de 1530-1532.]

António Sá

[02.07.2013/10.07.2013] / [texto revisto e corrigido a 06.09.2013]

Read Full Post »