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Archive for Janeiro, 2014

Figurações nocturnas [Tanning & Füssli]

»»»»» Utilizei uma frase de peso “as obscuridades, as profundidades nocturnas onde os sonhos se projectam”, para interpretar a tela Nue endormie (Dorothea Tanning, 1954), na qual a figura feminina se eleva diagonalmente do cadeirão seda-grená onde deveria repousar. E desde o seu rosto elidido engendram-se figurações, não de sonho mas de pesadelo. De entre estas formas heteróclitas, que a um primeiro olhar se afiguram abstractas, pode perceber-se um corno afilado e o que pode ser uma orelha aguda de gnomo ou ente demoníaco.

Dorothea Tanning 001

»»»»» Esta visível orelha espetada associei-a à do íncubo da onírica obra de Johann Heinrich Füssli, The nightmare (1781). Pus a hipótese, decerto inverificável, de que tais formações em Nue endormie consubstanciassem amorfamente um íncubo, num eco, à distância de um século, deste íncubo de Füssli, onde a mulher não flutua, antes pende: o tronco, a cabeça e a cabeleira loura, os braços pendem num abandono inarticuladamente solto — absoluta, inquietante entrega à inconsciência do universo.

Füssli 1 001

»»»»» E o universo imediato que sobre ela pousa é a de um ser compósito e terrífico — o íncubo, aquele que pesa sobre e atormenta o universo existente, e decerto não só em pesadelos, mas em circunstâncias humanas e por consequência históricas. A um canto da tela, a cabeça de um cavalo desabrido, esse cavalo que o íncubo cavalga, pela noite fora, e que relincha, olhos acesos, força desatada de tudo.

»»»»» [Nota iconográfica: das variantes ou pinturas afins, a tela de Füssli aqui reproduzida, The nightmare, é  a que se encontra no Institute of Fine Arts de Detroit, datada de 1781. O título italiano — L’incubo — afigura-se-me mais descritivo.]

António Sá

[21.01.2014]

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Inverno (desenho AS) 001

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Nue endormie

»»»»» Secção de corpo feminino na base da tela de Dorothea Tanning (óleo sobre tela, 1954), corpo em diagonal, de que não se vê a parte inferior das pernas e cujo rosto se encontra parcialmente elidido por formações de matérias acetinadas, cetins róseo-azuis, matérias voláteis, abstractas.

»»»»» No canto inferior da tela onde se visiona a cabeça feminina, pendem soltos cabelos negros até à zona onde se dobra o cotovelo, apoiado no estofo seda-grená de um cadeirão.

»»»»» Tais texturas sedosas e acetinadas, sobretudo estas, lembram luxuriantes texturas de óleos de Tamara de Lempicka.

Dorothea Tanning 001

»»»»» O negro dos cabelos equilibra o negrume do fundo diametralmente oposto da tela. Ambas estas escuridões remetem para as obscuridades, as profundidades nocturnas onde os sonhos se projectam.

António Sá

[03.01.2014]

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Seeing is believing (L’île invisible)

»»»»» Enorme cabeça feminina invertida, de suaves feições perfeitamente delineadas segundo o modelo dos magazines norte-americanos, cujos longos cabelos louros pendem na vertical, vão unir-se a uma ilha de arquitecturas urbanas em intersecções estilizadamente geométricas.

»»»»» Do mar que rodeia a ilha, e num primeiro plano, emerge uma mão isolada e vertical, de tons avermelhados.

Roland Penrose 001

»»»»» Obra de Roland Penrose (óleo sobre tela, 1937). Exemplo de uma utilização surreal da cabeleira loura, investida de um sentido arbitrário, se se quiser, ou acolhedor, neste caso associado à ideia de ilha, lugar simbólico de acaso salvamento, acaso salvação, enfim coesão, recolhimento.

António Sá

[02.01.2014]

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Imaginación 3

Imaginación / 3 [En el agua]

»»»»» Me encuentro, no solo en ese momento, pero en casi todos los momentos que pasan demasiado en la superficie del agua para que pueda tener conciencia de que tenga cuerpo y esté despierto. Así estoy instalado en el sueño, pero un sueño tan ligero como suelen ser los sueños que se transforman en vigilia.
»»»»» En ese sueño estoy en la superficie del agua, y soy el único que está ahí, en mi agua, y todos los vivientes flotan en algún lugar en sus aguas, y yo mal los puedo ver, porque estoy ocupado en respirar. Mi sola ocupación es respirar y eso me lleva todo el tiempo y toda la energía. No me encuentro mal, si bien tranquilo, pero no veo claramente a los otros y es como si nadie existiera de verdad.
A.S.
[1990]

»»»»» Esta imaginação saiu-me em castelhano. Não sei onde estava, nem porque estava, mas saiu-me nesse idioma a primeira frase e as outras assim vieram e assim as guardo, com a data do ano em que foi escrita. A seguir situo a versão que fiz em português, com a data em que a fiz:

»»»»» Na água
»»»»» Encontro-me, não só nesse momento mas em quase todos os momentos que passam, demasiado à superfície da água para que possa ter consciência de que tenha corpo e esteja desperto. Assim estou instalado no sonho, porém um sonho tão ligeiro como soem ser os sonhos que se transformam em vigília.
»»»»» Nesse sonho estou à superfície da água, e sou o único a estar aí, na minha água, e todos os viventes flutuam em algum lugar nas suas águas e eu mal os posso ver, porque estou ocupado em respirar. A minha única ocupação é respirar e isso me toma todo o tempo e toda a energia. Não me sinto mal, antes tranquilo, porém não vejo claramente os outros e é como se ninguém existisse de verdade.
António Sá
[12.11.2013]

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