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Archive for Março, 2014

Distracção / 44 [Buracos]

 

»»»»» — Eu não entendo isto — dizia o meu filósofo empreendedor lamentativo.

»»»»» Via-o num estado lamentável, sentado no chão junto ao banco de jardim que é a sua morada, aspecto geral enxovalhado, uma equimose feia na maçã do rosto.

»»»»» — Não entende o quê? — digo eu, pronto para nem ouvir e seguir caminho, que na verdade não me apetecia ouvir qualquer desgraça.

»»»»» — Não entendo os serviços camarários.

»»»»» — Ah, temos queixas contra a Câmara Municipal…

»»»»» — Nem mais.

»»»»» — Mas o que é que lhe aconteceu afinal?

»»»»» — Aconteceu que caí num buraco.

»»»»» — Pois, você anda à-toa, não olha os caminhos, anda a contar as nuvens…

»»»»» — Qual quê? Eu ia a atravessar a estrada… é verdade que não ia na passadeira… mas quem tem tempo e paciência para procurar uma passadeira?…

»»»»» — Você não tem tempo, claro…

»»»»» — Não tenho tempo, não! O que é que você julga?! — assanhou-se e eu calei-me, porque sei quanto ele pode ser irascível, se ofendido. Mais sereno, prosseguiu:

»»»»» — Então eu ia a atravessar a rua, vejo vir lá um motociclista disparado e, a fugir dele, nem vi que havia um buraco no meio da estrada… e caí no buraco.

»»»»» — Sssschchch… — comento. — E aleijou-se, claro.

»»»»» — E de que maneira! Olhe só para isto! — Exibiu-me a face equimosada.

»»»»» — Mas considere que há sempre uma razão-de-ser das coisas — digo eu, apaziguador. — Considere que a cidade ela-mesma é empreendedora, cria buracos, cria baldios, enfim a cidade vive!

»»»»» — Está a gozar comigo?! — diz ele mal-disposto. — Isso é entropia, não é criatividade!

»»»» — Mas a entropia urbana também vem a ser criadora. Nunca ouviu falar de “destruição construtiva”?

»»»»» — Criadora só se for pra me fazer cair e aleijar!… Você deve ser é choné! Olha-m’esta! Estamos a falar do quê? Empreendedorismo dos buracos?  Que conversa é esta?

»»»»» — Calma aí — digo eu, habituado a tais reacções temperamentais.  — Estamos a falar de um buraco…

»»»»» — Não era um buraco qualquer! Era uma cova funda! Eu caí lá inteiro, e foi um trabalhão pra sair de lá pra fora! Se não fosse o segurança de um supermercado ali em frente a ajudar-me a sair, eu ainda lá estava!

»»»»» — É verdade — comento. — Já vi este inverno dois buracos desses abertos no meio da estrada. Primeiro abriu um, depois lá taparam mais ou menos, e logo abriu outro uns metros à frente. Creio que são bocas-de-entrada das canalizações subterrâneas, que cedem com os temporais.

»»»»» — É isso! ‘Tá a ver como eu não invento? E por causa das chuvadas estas ruas estão todas esventradas, asfalto solto, levado quem sabe pra onde, tudo cheio de escrófulas e aos altos e baixos…

»»»»» — Boa descrição destas ruas, apesar de centrais…

»»»»» — Ah, você concorda comigo… E o que eu não entendo é como estando estas ruas como estão, o obreirismo camarário, obreirismo bacoco pra falar verdade… porque sempre há, continua sempre, tanto obreirismo destrutivamente bacoco afinal… esse obreirismo dedica-se, neste mesmo bairro de ruas esventradas, a construir, nas bermas e esquinas de ruas, maciços cubos decorativos de cimento, design neofascista, obstruindo o vazamento dos caudais de aguaceiiros. Que vão pôr nesses caixotões, esses vasos cúbicos de cimento? Árvores pra dificultar a visibilidade nos cruzamentos? Palmeiras? Cactos? Florinhas de São Francisco de Assis?

»»»»» — Pergunta bem.

»»»»» — Estes meses de inverno, esses vasos ingentes na estrada, nas esquinas das ruas, têm servido de lixeiras… São particularmente úteis para lá abandonar chapéus-de-chuva quebrados, revirados…

»»»»» — Tudo tem um propósito… — argumento eu, conciliador.

 

António Sá

[10.03.2014]

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Distracção / 43 [O sem-abrigo empreendedor]

»»»»» — Empreendedorismo, dizem… Que sabem eles de empreendedorismo?, esses governantes, todos já carreiristas desde sempre, desde crianças eram carreiristas… desde as incubadoras até aos aviários… esses governantes que, no exercício da sua governação, nos seus próprios campos de influência e acção se revelam a cada dia que passa sem imaginação empreendedora, enfim pomposos e sempre rotineiros, previsíveis nas sua decisões políticas, seguidistas de soluções caducas, fortes aproveitadores muito em discurso do que outros fazem, esses outros de facto empreendedores na indústria, na exportação, no turismo, na cultura…

»»»»» — Sim — digo eu em pânico, sacando o telemóvel do bolso, na hipótese para mim evidente de ter de chamar ambulância urgente.

»»»»» De facto eu via-o num estado transverso, e escrevo transverso na acepção propriamente física, embora não garanta que o seu estado mental não fosse também transverso. Via-o deitado ou, mais propriamente, descaído no seu banco de jardim: os pés assentes no topo da sua nutrida mochila, postada numa das extremidades do banco, as pernas e o tronco enviesando numa hipótese de estabilidade, e a cabeça a pender desamparada rebordo fora, deixando soltar até rente ao solo as vagas grisalhas dos cabelos. Via-o assim cruzado transversalmente sobre o banco, pés ao alto, cabeça a rasar o empedrado.

»»»»» — Você imagina — diz ele espevitado, antes que eu telefonasse para as urgências — a energia empreendedora que eu tenho de despender para viver assim?

»»»»» — Não, não imagino — disse eu, contrito, e guardando o telemóvel urgente no bolso, até ver.

»»»»» — Quantas horas julga que eu durmo, cada vinte e quatro horas por dia?

»»»»» — Não sei… — disse eu, prudente.

»»»»» — Nenhuma!

»»»»» — Nenhuma? Isso não é possível. Alguma hora dormirá…

»»»»» — Não durmo — e, girando o corpo revirado no banco, descendo os pés do topo da mochila até ao solo, erguendo a cabeça pendida e o tronco, ficou sentado, normalmente sentado e pronto a argumentar. — Deitado neste banco, vigio os ladrões-vadios, essas aves de rapina, que querem roubar qualquer coisa que eu tenha. E controlo os moradores do jardim: volta-e-meia aparece um novo morador-intruso, que quer ocupar sem-cerimónia o lugar dos que já cá estão. Controlo também a passagem das camionetas do lixo, e cumprimento os funcionários, conheço-os a todos, muitos deles já pensam vir viver aqui neste jardim, formaremos uma grande comunidade só gente-de-bem!

»»»»» — Ena pá! — digo eu.

»»»»» — Eu sou o “chefe” para eles todos! Não há funcionário das recolhas que não me conheça! Mas digo-lhe mais: às cinco da madrugada já estou à entrada do Mercado, e aí recolho o que fornecedores e comerciantes me deixam: fruta, cenouras, nabos, etc., coisas que eles acham impróprias, mas muito boas ainda! Eu guardo o que posso pra mim, e dou o resto aos que vivem no jardim.

»»»»» — Muito generoso da sua parte.

»»»»» — E há muito que fazer no dia: variar as tascas onde me deixam ver televisão e ler O Correio da Manhã… e leio-o todo!

»»»»» — Néctar dos deuses…

»»»»» — Qual quê!… E esperar na fila pela carrinha dos voluntários que oferecem refeições, angariar alguns trocos das vizinhas bondosas…

»»»»» — Mas o que me dá mais gozo — continua ele, num transporte entusiasta — são as conferências que organizo…

»»»»» — Ah sim?! E de que tratam essas conferências?

»»»»» — Tratam dos mafiosos que ascendem à governação… e são todos, a bem dizer… e nestas conferências que dou aqui de pé no meu banco, reúno às vezes três, quatro sem-abrigo, mas já cheguei a reunir nove!

»»»»» — Ena pá! — digo eu, ultrapassado.

»»»»» — Mas não é só isso — diz ele, imparável.

»»»»» — O quê? Há mais?

»»»»» — Sim, há mais. Por exemplo, um portefólio com para cima de cem desenhos de mobiliário urbano para substituir os que ultimamente foram postos por aí em praças e jardins, todo um mobiliário a substituir pelo que eu desenhei, este sim amigo dos sem-abrigo, enfim um mobiliário sem blocos-paralelipípedos de pedra, coisas neofascistas, ao gosto de Albert Speer… Também projectos para revolver, remover todas essas ervas-prò-cocó-dos-canídeos, que invadiram tudo, tomaram o lugar das lajes e caminhos entre árvores e arbustos… Também, por exemplo, outro portefólio…

»»»»» — … e onde arranja todo esse material: capas, folhas de desenho, lápis…

»»»»» — Eu cá tenho os meus meios — replica ele e guarda para si o mistério dos meios. — Também outro portefólio — continua — com o desenho de naves-automóvel, de dois lugares e de quatro lugares…

»»»»» — E o que vem a ser isso?

»»»»» — São automóveis que tanto circulam em estrada como pelo ar… tudo a ser construído em materiais amigos do ambiente…

»»»»» — Ena pá!

»»»»» — E as roupas e o calçado… já pensou como me arranjo?… Ou você julga que eu não faço nada?!

»»»»» — Por Deus! Eu não julgo nada!

António Sá

[22.02.2014/25.02.2014]

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