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Archive for Abril, 2014

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Revolução & Rotura

 

»»»»» O que é Revolução (Ana Hatherly, 1975)? Compósita, longa de vinte minutos sequência de imagens, planos em movimento rápido, travellings na vertical e na horizontal intervalados por breves, se não brevíssimos planos fixos. Montagem assim aproximada à vertigem imagética do cinema de Dziga Vertov, esse fluxo visual propagando-se e criando propaganda para a Revolução Soviética de mil-novecentos-e-dezassete. No caso desta curta-metragem, a propaganda, a havê-la, é a do acto eminentemente político de filmar obsessivamente, a um ritmo à beira desse limite que o olhar capte, ainda chegue a captar, as “paredes da revolução”, ou seja, os grandes murais, os graffiti inscritos nas paredes e paredões da cidade, após o golpe militar português de vinte-e-cinco de abril de mil-novecentos-e-setenta-e-quatro. Concomitantemente à vertigem grandiosa das imagens, a voragem dos sons —a banda sonora é a dos slogans entoados por multidões, as multidões que encheram as ruas de Lisboa nas manifestações subsequentes, a mais esmagadora das quais, única em multidão no mundo português, a do primeiro de maio desse mesmo ano. Esmagadora banda sonora, onde ecoam vozes entoadas, música-em-ritmo-de-marcha, fragmentos de discursos dos chefes políticos regressados do exílio. Banda sonora remanejada pela realizadora em dois-mil-e-um, substituindo uma das músicas. E é a esta versão que se reporta o presente texto.

»»»»» Tanta quanta a euforia deste registo feito na hora sobre a população politicamente exultante, quanta a disforia do movimento obsessivo-agressivo de rasgar telas brancas em Rotura (Ana Hatherly, 1977). Uma e outra das curtas-metragens, Revolução (vinte minutos), Rotura (dezasseis minutos), constituem um insubstituível díptico euforia # disforia, que regista, como um barómetro, as disposições em jogo após as mudanças revolucionárias operadas pelo golpe militar dos capitães do exército luso. E quanto a esta oposição euforia # disforia , cinjo-me em rigor aos objectos fílmicos —ao que neles se visiona, ao sintoma de estado-das-coisas que subjectivamente constituem.

 

»»»»» (Nota: para a redacção deste texto utilizei os dados das folhas volantes da Cinemateca Portuguesa, relativas às projecções, respectivamente a 9 e a 12 de abril de 2014, dos filmes Revolução e Rotura, ambas as folhas assinadas por Joana Ascensão.)

 

António Sá

[09.04.2014 / 20.04.2014]

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Rotura

 

»»»»» Rotura traduz-se literalmente-visualmente em rotura ou ruptura, acto de romper, sinónimo de rasgar. É preciso rasgar o mundo. Rasgar a placenta para aceder ao mundo. Rasgar os dias de vida para estar neles, e estar de outros modos — não os modos pelos quais se supõe, as convenções sociais supõem que neles se deva estar. Rasgar vai ser um acto vital, o acto vital por excelência — respirar não do corpo, mas do ser.

»»»»» Rasgar pode ser extremo acto activo, agressão em acto. Como ser-se violento contra o mundo para se subsistir, por desespero de causa ou, por hipótese, em movimento de alucinação psicótica. Rasgar munido de um artefacto cortante, desferir golpes que podem ser no vazio, podem ser numa tela, podem ser num corpo vivo: é sobre um corpo humano ainda vivo que se desferem os golpes obsessivos de Norman Bates em figura de mulher (Anthony Perkins), sobre esse corpo sucinto, programático de Janet Leigh, figurando uma refinada e arrependida ladra. E por esse ralo sucinto e único em cinema se esvaem circuncentricamente água e sangue vertido, acto psicopata desenhado para o derramamento de sangue, sequência inscrita em Psycho (Alfred Hitchcock, 1960).

»»»»» Golpear o infinito pode ser um acto zen, um desenho do gesto, como desenho à pena, gesto repetido e, na sua hipnose obsessivo-repetitiva, concentração da mente até ao limite do nada, desferir golpes por desferir, rasgar por rasgar, libertar, depurar das escórias acumuladas na entropia natural da mente cotidiana.

»»»»» Impressiva e minimal expressão das mutações portuguesas do século XX, o filme-performance Rotura (Ana Hatherly, 1977-2007). Expressão-compreensão não na compreensibilidade-explicativa ou compreensibilidade-enumerativa dos eventos do século, mas no que possa ser qualquer síntese-toda, assinalando o fascismo de meio século e as omnipresentes inatenção-em-curso e corrupção-em-curso nos regimes pós-fascistas, alongando-se uma e outra até hoje sem se lhes ver resolução, antes pelo contrário. Inatenção sempre pelas gentes, suas necessidades vitais e sua emancipação cultural; corrupção sempre, por cupidez basilar e estupidez terrena.

Ana Hatherly 1 001

»»»»» Tendo em vista as considerações anteriores, aventuro três níveis de leitura aventurosa para os dezasseis minutos de filme, na versão de 2007:

»»»»» 1º nível. O do acto zen, pura concentração mental no acto mínimo repetido até se tornar essencial em si mesmo — resumo de todos os actos vitais e resumo, por extensão, de toda a instante deslocação cósmica.

»»»»» 2º nível. O do acto individual, acto de rejeição de todos os absurdos sociais e políticos… e por aqui não me aventuro mais, por respeito e por cautela.

»»»»» 3º nível. O do acto político, em mil-novecentos-e-setenta-e-sete, três anos depois da mudança de um regime fascista para um regime oligárquico-bipartidário. Rejeição do passado fascista, rejeição do presente bipolar, e isto vem a ser uma aventurosa minha leitura do que não sei, nem bem nem mal, o que seja o ideário de Ana Hatherly.

»»»»» O que é o filme? — Materialmente, um filme-performance, ou seja, filmagens de uma performance realizada em 1977, à época apresentada numa primeira versão mais mundana, com frases soltas e vozear de espectadores flanantes, reconhecível gente do mundo artístico-intelectual coevo; e objecto, em 2007 e por vontade da artista, de uma remake mais longa e sonoramente restringida ao agreste, arrepiante, rítmico rasgar das telas, sendo esta a versão aqui em foco. É portanto o registo de uma série de actos, obedecendo a um ritual, criando um seu ritmo, o ritual de subir sucessivamente a um escadote para rasgar, tela após tela, grandes telas brancas dispostas umas atrás das outras, pequeno bosque de telas. Assim o visualizo e o escuto, sonoridade desferida do instrumento cortante retalhando cada tela, gestos sequenciais — na vertical, na diagonal, na horizontal, ocasionando que pedaços de tela se soltem e junquem o chão. Visualizo-o como um filme-bailado, deslocações sucessivas, gestos obsessivos de um corpo gerador de ritmos visuais e sonoros. Escrevendo isto, evoca-se-me uma coreografia minimal de João Fiadeiro registada em filme, ou uma deslocação-em-ratoeira numa curta-metragem de Samuel Beckett, tanto uma como outra evoluindo em soalhos sinalizados. Este filme-performance não se faz no solo, mas sobre e contra esse dispositivo múltiplo de grandes telas brancas. Ritual em três momentos: um primeiro, quando a câmara avança silente por entre o bosque de telas, como no início do filme Benilde ou a virgem mãe (Manoel de Oliveira, 1975), início no qual a câmara avança entre telões de um bastidor de teatro ou de um estúdio de cinema; um segundo, quando a câmara foca os gestos de agressão contra as telas ao som do rasgar sucessivo, intercalados breves, raros planos do rosto da agressora, e anotações esparsas dos alguns espectadores defendidos junto às paredes; um terceiro, estabelecido novo silêncio sobre o estrago feito, no qual a performer guarda num saco de plástico o instrumento cortante, provável espátula, e a câmara paira um pouco por ali, enquadrada por outra câmara, e figuras fugidias de espectadores sem destino, no cenário remanescente: telas malmente esgaçadas, farrapos de tela juncando o chão.

»»»»» Seja lida a cor branca das telas enquanto índice da matéria opaca, uniforme, que oferece resistência, toda a matéria oferece resistência à acção humana, essa cor branca percebida como uniforme e primordial em sociedades antigas, latinas e germânicas; e ainda enquanto símbolo da opacidade dos poderes instituídos, que oferecem resistência, justa ou injusta, ao acto individual. Por muito que se rasguem telas brancas, muitas outras haverá sempre a rasgar. Mais aforisticamente: por muito que se rasgue, muito haverá a rasgar.

»»»»» Cumpre aos artistas avisados sinalizar que o mundo foi e vai mal regido, sempre regido por potências dominantes, que não são necessariamente nocivas, antes benévolas parcialmente e para parte dos povos e das populações, mas perseguindo sempre e necessariamente desígnios inquinados pelos tão incontrolados quão incontroláveis poderes económicos, estes sempre e necessariamente cúpidos, cumulativos e predatórios. Cumpre enfim a tais artistas sinalizar esse mal, ainda que a sua revolta, o seu testemunho sejam nulos para os poderes globalmente instituídos.

 

»»»»» (Nota: para a redacção deste texto utilizei os dados da folha volante da Cinemateca Portuguesa, assinada por Joana Ascensão e relativa à projecção do filme em apreço, a 12 de abril de 2014.)

 

António Sá

[13.04.2014 / 19.04.2014]

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Ianus inverso

Ianus inverso 001

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Bons meses de primavera

Primavera (desenho AS) 001

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