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Archive for Maio, 2014

Sob qual bandeira?

 

 

 

 

»»»»» Ele está sentado à sua mesa de trabalho, tem um sorriso franco e sedutor. Sempre uma vida nele. Está agora sentado nos seus dias enquanto.

»»»»» Está sentado numa fotografia. Feliz sorriso, como o de um Clark Gable com mais idade que a dos ecrãs, mais sedutor e entregue que o de Clark Gable. Clark Gable pelo bigode, não pela face — a deste fotografado mais oval, menos fechada. Sempre uma vida mesmo se quanto na vida foram agruras — “as agruras da vida…”, “muito há que penar nesta vida…”: maneiras de dizer ocasionais nas conversas sempre tão conversadoras, tantas conversas sempre, persuasivas, joviais, intermináveis. Mesmo falar em agruras e penas era com a vitalidade ingénita que vem no momento.

»»»»» Sentado à mesa de trabalho, fixa quem observa a fotografia. A mesa de trabalho do oculista-agora, oculista de recurso porque fora desde muito sempre ourives, mas nas circunstâncias actuais, neste ano de mil-novecentos-e-setenta-e-oito, date-se assim esta data, neste ano, nesta latente e logo eruptiva guerra civil e sequente desmoronamento social, ninguém ou quase precisa de artigos de ourivesaria, mas óculos úteis sempre precisam de reparação, ou então são úteis na rua, na praia, úteis não só contra o sol subequatorial, mas muito como índice de um status social mais urbano, sofisticado.

»»»»» Sobre a mesa, alguns instrumentos úteis ao trabalho do oculista: pequena almofada de madeira embutida no rebordo; máquina de optometria; um torno arcaico, utensílio de ferro maciço com manchas de oxidação; e, episodicamente abandonados, lá estão os óculos que o ourives-oculista tirou para olhar sem lentes a lente da câmara fotográfica. Sobrevoando baixo a extensão da mesa, a oblonga mancha branca de um candeeiro fluorescente, neste momento apagado. Ao fundo, um móvel de escritório-oficina com gavetões. De pé, por trás do ourives sentado, o vulto de que só se vêem antebraço e mãos mulatas da assistente.

pai na oficina 1978 001

»»»»» É verosímil datar-se esta fotografia de mil-novecentos-e-setenta-e-oito. O protagonista é retratado na sua oficina, no dia dois de março desse preciso ano, dois de março é o dia do seu aniversário, seu septuagésimo aniversário esse ano.

»»»»» Outra fotografia foi tirada no mesmo dia, nessa loja-oficina do Lobito, nela vêem-se dez pessoas, uma décima-primeira estaria disparando, ouve-se o clique, instante irreversível que corta testas dos figurantes de pé. Do ourives-oculista e do sócio-empresário, primeiro a contar da esquerda, de camisa castanha, cortou-lhes parte das faces: sobram-lhes lábios e queixos. Apresentam-se-nos estas pessoas assim sem testas, nem todas no entanto, e não que todas não tivessem a inteligência do momento, e mais do que isso: a inteligência de ir vivendo e trabalhando num país em confrontos civis, ora iminentes ora declarados, e assim foi por mais de uma, duas décadas, malhas que a longa irresolução do império teceu. Essas dez pessoas são, além do mestre-ourives septuagenário e do sócio-relojoeiro, as empregadas que atendem os clientes; os três negros jovens-aprendizes nos ofícios dos mestres; e, ao fundo, entreportas, a empregada das limpezas.

loja-oficina 1978 001

»»»»» Outras fotografias foram tiradas nesse mesmo dia, na casa do aniversariante, de entre as quais aquela onde sopra a vela cravada no bolo-de-aniversário. Com um guardanapo vermelho ao pescoço, inclinando-se, sopra a vela, inclina-se, soergue-se neste sentido: eleva um pouco o tronco por cima da mesa do jantar, à volta da qual se reúne um pequeno grupo de amigos: o sócio e seus familiares.

aniversário 1078 (1) 001

»»»»» Fotos-a-cores-densas, todas elas, as fotos, despreocupadas, enquadramentos sem-jeito, fotógrafo-desconhecedor.

»»»»» O ourives é José Gomes Sá, assim assina o nome nos documentos,

cartão de sócio 1932 001

»»»»» Praticante de ourivesaria em Angola desde o ano de mil-novecentos-e-vinte, primeiro como aprendiz em Loanda; depois como empresário em Nova Lisboa, hoje Huambo; desde o princípio dos anos setenta, e falido o negócio no Huambo, empregado numa oficina do Lobito; e agora, em mil-novecentos-e-setenta-e-oito, empresário nesta mesma cidade, já sob outra bandeira que não a portuguesa, mas qual bandeira, de entre as duas que disputam a soberania do país?

»»»»» Nascido em Vila Nova de Gaia a dois de março de mil-novecentos-e-oito, e no mesmo ano baptizado na igreja paroquial de Sandim, região do Porto, casado em Loanda no ano de mil-novecentos-e-trinta-e-sete, e pai de três filhos, que em algum momento a vida tornou mais filhos impossível.

»»»»» No ano posterior à Revolução dos Cravos, o português vinte-e-cinco-de-abril, ano posterior portanto: mil-novecentos-e-setenta-e-cinco, esse ano de grande vaga de refugiados brancos-mulatos-negros que saíram para Portugal, África-do-Sul, Brasil, ele viajou com a esposa para Lisboa e logo, uma vez ela instalada, inda que em modalidade provisória, ele regressou ao Lobito, à sua oficina, no intuito de manter-se activo no negócio sem afrontar a concorrência múltipla do rectângulo lusitano, defender seu espaço, e também no entendimento de alguma que viesse a ser a afirmação neonacional angolana. A sua de sempre atitude vitalista, tão conversador nato e convincente, e a qualquer certeza de não ter racismos indesculpáveis na consciência que lhe propiciassem vitimizações ou o acobardassem, tudo ponderado levou-o a esse passo algo aventuroso, na circunstância. E não se enganou no bom crédito quanto à hombridade humana, assim pôde concluir sua longa saga africana boamente. Certo que o interesse de angolanos era esse coincidente de manter empresas úteis a funcionar, mesmo quando as perspectivas futuras fossem quase mais que incertas, só a boa-vontade cega não perspectivou isso mesmo: guerras prolongadas em perspectiva, e assim foi.

»»»»» Depois de transferir a esposa para território português-europeu, o ourives regressou ao Lobito ainda a tempo de assistir ao dia da independência de Angola, a onze de novembro de mil-novecentos-e-setenta-e-cinco. Provavelmente teria dado a sua palavra de que assistiria a esse evento a correligionários da UNITA, União Nacional para a Independência Total de Angola. É de supor que a ligação a este movimento se devesse a uma avaliação conjuntural, mais do que a uma qualquer convicção política, excepto aquela que se tem quando se é transportado no calor das gentes em entusiasmo de causas, seus entusiasmos no calor de entenderem, defenderem suas existências como causas. No Lobito este movimento político que era a UNITA era movimento hegemónico. Assim o ourives que, no Portugal salazarista, por rebeldia congénita, se arruinara em consequência da sua adesão activa à causa de Humberto Delgado, rebelde este que se candidata à presidência contra o regime de Salazar, esse mesmo ourives agora integrava-se, não se descortina com que grau de envolvimento, nesta força partidária hegemónica na cidade onde vivia e trabalhava. Assim ele se encontra no centro de uma fotografia, isolado no alto da escada de acesso às bancadas, como um possível correligionário-honorário, ingente fotografia a preto-e-branco tirada na estádio onde se comemora um acontecimento neonacional, seja ele o comício comemorativo do nascimento de uma nação. Ao fundo, são decifráveis graffiti: mais visível, FALA, Forças Armadas de Libertação de Angola, braço armado da UNITA, e esta última sigla vê-se inscrita no último murete da bancada.

Lobito, 11-11-1975 001

 

 

 

 

»»»»» [NOTA: Este texto foi publicado em número especial da revista da Associação Portuguesa de Escritores, comemorativa dos quarenta anos da Revolução dos Cravos; no entanto, o critério editorial não contemplou a inserção de imagens, pelo que edito aqui o mesmo texto acompanhado dos documentos iconográficos respectivos. Referência do número especial: Abril – 40 anos, Associação Portuguesa de Escritores, Âncora Editora, 1ª edição: maio, 2014.]

António Sá

20.03.2014 / 21. 03. 2014

 

 

 

 

 

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