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Archive for Junho, 2014

Miniatura / 5 [Basquetebol]

»»»»» Aos vinte-e-poucos anos de idade, acabou-se o basquetebol para mim. Por muitos anos póstumos, sonhei ocasionais sonhos-angústia em que jogava ainda, elevava-me em suspensões para, com mão certeira e à distância, lançar a bola, trajectórias perfeitas para o cesto; ou, mais instantâneos triplo-saltos, encestar por tabela ou directamente. Acordava na angústia de saber que o tempo disso estava extinto, as minhas imediatas coisas eram o trabalho ou os trabalhos, coisa ou coisas muito-muito. Doeu-me por longo tempo este fim, que era parte do fim de parte da minha longa adolescência prolongada em parte longamente ainda hoje.

»»»»» Lembrei-me do básquete por esta manhã-tarde no ginásio, numa conversa-mini-circunstancial com um tipo extrassimpático, um latagão, como se dizia, creio que ora já não. Ele fazia extensões rolando uma pequena bola na zona do pescoço, explicou que sofrera um torcicolo. Comentei que quem faz desporto está sujeito a todo-acidente. Ele aludiu outros problemas que o acompanhavam, porque praticara não sei que desportos, não os disse, imoderadamente. Segui o lamento: jogara básquete por alguns anos — e fiquei todo lixado! Apontei o cotovelo e o pulso direitos, onde tive e vou tendo crudelíssimas epicondilites e tendinites.

»»»»» Epicondilite no cotovelo que não sei se é longínqua consequência do básquete, pode que nem seja, de alguma coisa há-de ser. Quanto ao basquetebol, pratiquei-o intensamente entre os doze e os dezasseis, em Nova Lisboa (Huambo). Interrompi quando a família se instalou em Sá da Bandeira, onde completei um ano-lectivo, não lembro qual, o terceiro liceal talvez. De regresso a Nova Lisboa, reatei por um tempo, mas penosamente: qualquer inaptidão adquirida ou crescimento articular me tolhiam a corrida. Mais tarde, em Lisboa, entre os dezanove e os vinte-e-dois, integrei-me no básquete universitário, e nesse âmbito ainda treinei uma equipa feminina da Faculdade de Letras, mas tudo era-foi relativamente frustre, não por me eu não empenhar, mas por tudo ser de um voluntariado volátil.

»»»»» Algumas fotografias me restaram a certificar estas actividades de bola-ao-cesto, bem como as de hóquei. Falta desencantá-las de onde estejam subjazendo.

António Sá

[12.06.2014 / 21.06.2014]

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Vida está a nascer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

»»»»»» Regularidade dos dias, das estações, da organização da vida, toda que está a ser tanta regularidade proporciona continuação prevista do tempo e das tarefas. Cuidados-de-todo-o-instante com o bebé que cresce cada-dia e actividades domésticas, logo após o momento que o marido parte com ranger de correias e cascalhar de pneus junto, rumo à cidade, a enorme Rabuja e o rafeirozito correndo rente às rodas. Que actividades? Distribuidamente pelos dias da semana fazer tudo o necessário para que tudo aconteça, tudo o que não se vê depois, como se nada tivesse acontecido: abastecer-se nos depósitos de farinha para amassar e cozer broa de milho e pão de trigo, avaliar as quantidades de leite das vaquinhas para fabricar manteiga. E sair às vezes, dar milho às galinhas, mais de trinta, que se calhar os capatazes já lhes deram nessa manhã, galinhas gulosas, e entretanto vaticinar qual das aves ou qualquer outra criação vai ser abatida nessa semana ou próximos tempos — galinha ou leitão, borrego mais raramente no ano — e quais haveria a comprar, caso de vitelos ou alguma leitoa para procriação. Quem decidia no fim, em todo o caso, vai este-dia, outro-dia falar com ele, era o marido.

»»»»» De manhã muito cedo, pelo estio, recolhia os produtos hortícolas, alguma borboleta adejando à volta, produtos recém-colhidos que os capatazes deixavam à porta; pelo cacimbo fazia tudo mais tarde, porque o sol o permite quando mais sobe na hora, sol fresco, tem mesmo sol frio, há dias. Na cozinha anexa à casa principal, preparava as papas para o nené, o almoço para ela e o jantar para a família, jantar para aquecer mais tarde, ao fim do dia, quando o ranger das correias e o cascalhar dos pneus das bicicletas, tudo combinado trazia Antonio e Joaquim de volta, os seus dez quilómetros desde a Cidade de Huambo. Mas almoço era só para ela: o marido e o filho agora-aprendiz Joaquim almoçavam na cidade, num restaurante, casa-de-pasto de conterrâneo gerado na mesma Gaya de onde o ourives-agricultor viera, no defunto ano já longe de mil-novecentos-e-vinte. Assim, ela só lhes preparava o jantar, tarefa cuidadosa que começava logo pela manhã, especiosa, exigente, porque o esposo era exigente no paladar, esse esposo que lhe convocava os tantos ciúmes que ela sempre estava a imaginar, até do próprio ar que ele respira ela imaginava ciúmes, ciúmes não precisam razão de ser, são assim igual a paixão, ciúmes têm de ser paixão, vai sempre ser sua forma de ser. Esse marido era de paladar lusíada entranhado, tanto quanto entranhado lhe habitava o exigente pormenor da joalharia que fabricava morosamente na oficina, incrustação de pedras preciosas, algum dia mais rico vinha a ser diamante.

»»»»» Chegava a hora do aleitamento do nené, biberon solidamente vítreo cheio directo das tetas da vaquinha Zuarte, cujo leite foi eterno, e a hora do almoço da mãe, frugal, isso lhe mantém a figura firme, junto com os muitos trabalhos. Refeição sozinha devagar na mesa da cozinha, interrompida por diálogos com o nené, sorrisos, sussurros, gritos cantados que interpelam, mimalhos, conversa em que o tom amoroso sobe e desce, varia sons arcaicos, instintivos, ternos, respondidos ora ternamente, ora abstraìdamente pela criança, que vai palrando primeiras palavras, quando não dorme no côncavo da enxerga de barbas-de-milho a acolchoar o fundo do berço.

»»»»» Os capatazes apareciam numa hora do dia quase que nem era manhã, quase não estava a tarde a deixar-se começar, hora certa deles só por si, por olhar onde está o sol e onde cai a sombra, hora mais certa que qualquer hora de relógio, que marca enganado a mesma hora todo o ano, seja estio, seja cacimbo. Apareciam ali parados à frente do anexo-cozinha, onde a patroa estava dentro. Estavam só parados como quem vai estar ali o tempo do dia, a amarelenta Rabuja a olhá-los pelo cantos do olho, sentada e a abanar orelha para afastar mosca, e a dona entretanto saía, encontrava-os parados a olhar para a porta de onde ela saía. Qualquer dia que ela não saía no tempo que devia sair, atraso da cozinha ou percalço do nené, eles chamavam-na, um chamar de alarido baixo, vozes em coro, suas duas vozes falando uma por cima da outra a chamar como quem está só a falar, nem quer chamar, vozes como de música dissonante, não era tragédia de ópera nem drama sequer, era só os capatazes a explicarem que estavam ali, estavam a querer fazer a conferência das coisas deste ou do próximo dia.

»»»»» “Patroa, alguma coisa que está faltar?”, Xatovera quer saber. Quase que sabem que nada está faltar, alguma coisa até que havia de faltar, quem sabe, este dia aquele dia a patroa dizia o que estava a faltar, que era isto ou aquilo, pouca coisa, o patrão sempre em cima de cada acontecimento cada-dia providenciava o que ia faltar até no mês que vem, assim que o que a patroa descobria que era preciso era pouco-nada, coisas que acabaram de imprevisto, ou coisas muito de segredos da cozinha dela, que podiam já nem só faltar, mas nem haver na horta. Assim que a pergunta era pergunta só por fazer, pergunta de todos os dias da manhã que já esteve a ser, maneira de fazer a conferência que vai tratar de quase-nada, só conferência. Xatovera falava, Nunda acrescentava outra coisa que era a mesma, falavam um e outro era para variar, falavam conforme dos atrasos das estações, dos acasos do tempo, das secas, dos impostos parecia coisa urgente que o chefe-de-posto lhes cobrava, dos gafanhotos que eram praga de qualquer ano, ninguém sabe quando vai vir, tudo era quase dificuldades. Conforme era preciso, no acaso dos dias, ela ouvia-os explicar o que era motivo de explicação.

»»»»» Finda a conferência sobre o nada quase sempre, partiam para a vida na tarde que vai ser próxima, a dona dizia “adeus, até logo”.

»»»»» Em coro quase-nada assíncrono, eles falavam “c’até, dona”.

»»»»» Hora da sesta do nené e descanso da mãe, descanso desse dia, que ficava em silêncio-de-meio-da-tarde, tanto fazia sol de pedra do planalto, nuvens que algum dia estão a escondê-lo, chuvisco ou chuvas desaguadas, frio de nevoeiro, qualquer época ou tempo que fosse, o dia descansava.

»»»»» Trabalho da tarde para as lavadeiras que vinham no meio da semana era aplicar goma nos colarinhos e nas mangas das camisas do pai Antonio e do menino Joaquim, passar-a-ferro as peças de roupa assim engomadas e toda outra roupa, tudo perfeito para parecer não acontecido. Passar era com ferro maciço, pesado como ferro que era e maciço, com adorno de furos regulares talhados artisticamente em friso nas bandas superiores do bojo, utilmente talhados para deles sair o fumo dos carvões que o Xatovera ou o Nunda providenciavam em bruto numa lata grande e calcinada, e que primeiro se metiam para arder numa braseira e depois dentro do ferro-de-passar, onde se acamavam abrindo a tampa movível, também de ferro, presa ao bojo por uma dobradiça, e provida de um manípulo de madeira. Os carvões ardentes aqueciam a superfície lisa do fundo até escaldar, e assim escaldada essa superfície passava e repassava os tecidos sobre os quais as lavadeiras salpicavam antes pingos de água. Eram elas duas a fazer este trabalho, no quarto das arrumações domésticas, levavam-no a termo com cuidado, repassando cada prega, dobra, costura de cada peça de roupa, atentas ao acaso de soltarem-se ciscos, faúlhas minúsculas dos carvões incandescentes. Estes acidentes, a que era preciso acorrer com rapidez, aconteciam por duas circunstâncias: quando, no princípio da tarefa, havia que encher com uma longa pinça metálica o bojo do ferro, metendo lá os carvões em brasa, e mais tarde repetir estes gestos de alimentação quando os carvões se tinham consumido e a base do ferro tendia a arrefecer; mais insidiosa circunstância, se no decurso da tarefa de passar-a-ferro, e até que acontecia, faúlhas ardentes se soltam dessas frestas laterais situadas no rebordo superior do ferro, frestas para a ventilação interior, para que os troços de carvão não se apaguem por falta de oxigénio, frestas de onde se liberta, além do fumo, qualquer ínfimo míssil errático, caindo a arder sobre qualquer peça de roupa, assim lhe há-de imprimir marca indelével. Um só cisco ardendo no aventuroso voo podia fazer, se caísse no pano, um ponto negro, até um eventual buraco com aura chamuscada, que devia depois ser cerzido, trabalho que há-de ser feito com minúcia. No pior dos casos, se elas não acudissem de imediato e o fogo alastrasse no tecido, a peça de roupa estava já era estrago irremediável, fosse pano-cru, chita, linho, seda, algodão. Mas era raro, a mãe recomendava muita atenção: só o princípio, a possibilidade de haver acidentes destes enruga as testas lisas femininas. Todo o trabalho, o de cuidar das coisas da casa e da vida, é elevado a um alto patamar de perfeição. A mãe sempre se ocupava de inspeccionar as ínfimas manchas negras de insectos que caíam na roupa, quando a punham em extensão a secar e corar, estendida sobre estacas cravadas na clareira, borboletas adejavam junto às margens do talude de onde jorrava a água da nascente próxima.

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»»»»» Vezes até que todas as estava a ver ajoelhadas junto à ribeira onde batiam e esfregavam a roupa, inclinadas sobre as tábuas. Estas grandes tábuas-de-lavar-roupa, rectangulares e dentadas, mergulham a parte inferior em selhas inundadas de água e espuma de sabão-macaco, alcunha do sabão em barras azul-e-branco. E ao fim de algum tempo de esfregar e bater roupa contra as tábuas, elas paravam. Era momento de torcê-la e estendê-la sobre fileiras de estacas ao longo da clareira, para não tocarem os capins, a terra. A patroa algum dia lhes fez observação sobre marcas aureoladas que a desgostavam. Elas quase que nem viam, antes ou quando estavam a passar-a-ferro, nem viam as manchas aureoladas, caganitas de insectos, moscas, borboletas, pior ainda se eram caganitas de aves, sujidade visível nas camisas, nas calças, nas saias e vestidos, lençóis, fronhas, ceroulas, combinações, corpetes, fraldas, qualquer que fosse a peça, esta seguia para lavar de novo, junto com a nova trouxa de roupa suja entregue para ser lavada — não era provável que manchas ocorressem duas vezes na mesma peça de roupa. Evitar manchas na roupa é ocupação de cada semana, semana após semana, mês após mês, e depois vem um ano, outro ano. Ela sabia, cada mãe de família de colonos sabe, num tempo assim, que não pode evitar manchas e picadas de mil e um insectos, larvas dos capins e moscas e moscardos, nem eram picadas, eram dejectos ínfimos em forma de ponto negro ou visível mancha-soltura de ave passageira nas roupas trazidas pelas lavadeiras.

»»»»» Fosse pelo que fosse, insectos, ave passageira, carvão ardente, qualquer acidente estava disposto para acontecer, e nem sempre havia remédio. E no tempo de outras tardes havia que inspeccionar os botões, coser algum que estivesse prestes a cair ou já a faltar, e os rasgões e os buracos eventuais, também da usura, cerzi-los; coser logo sobre um ovo de madeira as peúgas rotas; remendar calças e cotovelos de camisas e casacos; revirar colarinhos coçados; refazer bainhas esfiadas, descê-las conforme o crescimento do rapaz, ou transformar calças em calções; e o incontinente trabalho das fraldas e das roupas do nené… e desenhar modelos em papel vegetal, contra os quais se recortam os tecidos entretanto comprados nos armazéns da cidade para confeccionar roupas novas, e enfim bordar, franzir, orlar… Este trabalho vai ser infinito, ainda continua cada dia, interrompe-se com a chegada do marido junto com a noite. E depois do jantar, outro trabalho começa: ela senta-se ao lado dele, na oficina logo após a entrada principal, e enquanto o ourives faz reparações ou fabrica peças de ourivesaria e cofrezinhos de madeira com aplicações de latão, ela ajuda-o activamente, com ciência artesã dia-a-dia apurada, nos acabamentos e criando pequenas peças de adorno, trabalhos de filigrana. Serões agora não demasiado longos, pelo menos para ela, cujo ventre ia pesando, e a vida activa dos dias traz o sono depressa.

»»»»» Já nas missas dominicais a mãe se confessava habitualmente e mesmo, terminado o ofício, umas vezes ia à sacristia, outras esperava no adro o padre oficiante José Suter para lhe falar. Ele aconselhava-a quanto ao bem-estar da alma e aos cuidados a ter na alimentação e nas tarefas diárias, exortava-a a rezar em todos os momentos, prometia-lhe rezar ele-mesmo por ela, fiel devota, e pela criança que se estava a gerar no seu ventre, e encomendava à Virgem o nascimento-para-breve de mais um paroquiano. Ela agradecia, cores do rosto quase-tisnadas, nova saúde dava-lhe estas cores, pousadas as mãos, tornadas ásperas dos muitos trabalhos, no ventre pronunciando-se sob as rugas do linho-alabastro do vestido.

»»»»» Uma tarde por semana, pelo som cantante das lavadeiras em umbundo, pontuado por um rítmico “hum-hum… hum-hum…”, manifestação da concordância uma com a outra e vice-versa, assentimento e continuidade da conversa, e pelo rolar das rolas abrigadas à sombra dos telheiros de colmo, esvoaçar dos banvos, trilar desigual da passarada por onde havia ramo livre, a senhora recebia essas mulheres, que vinham concertando no seu umbundo rápido as suas vidas, e vinham concertar com a dona, já em português, as roupas lavadas que traziam em cestas, equilibradas no alto da cabeça sobre rodilhas de pano entrançado, feliz equilíbrio que prescindia do auxílio das mãos, só quando se agachavam, ou tinham de vencer irregularidades do terreno, ou afastar formações de moscas, elas usavam uma só mão, erguiam-na até às cestas, apoiavam-lhes os dedos para lhes assegurar a estabilidade.

»»»»» Algum dia a senhora queria explicar-lhes qualquer coisa, entre qualquer conversa, mas não sabia nem o que dizer, tudo havia de acontecer na mesma, era a natureza das coisas. Conversas estão a acontecer sobre o sol e a chuva dos aguaceiros, enxurradas enlameiam o chão, e a roupa já não vai ser estendida, para evitar a lama que venha respingada, isso é o pior, uma semana outra semana sem roupa nem que se pode lavar debaixo da chuva que enlameia as margens. Falam que a senhora está quase-quase para ter nené nascido este ano mesmo quem sabe. Elas sabem que data de nascer não pode ser decidida vai ser hoje, vai ser amanhã, vai calhar nascer qualquer um dia que vem. A patroa conta outra vez que teve muitos filhos já, que morreram uns, outros ficaram longe, e elas também mães de muitos filhos sabem que filhos vão nascer sempre e já crescidos vão ir embora:

»»»»» — Já não tem conta os filhos que nós temos — explica uma das donas.

»»»»» — Viu esses meninos que andam por aí na sanzala? — diz a outra. — São tudo filhos.

»»»»» — Filhos teus?

»»»»» — Meus também.

»»»»» Filhos de uma e de outra, que são mulheres do Xatovera as duas. E entretanto a patroa queixa-se que tem já medo de ter filhos, “muitos filhos que tive morreram”.

»»»»» — É, dona… — comenta uma delas.

»»»»» A outra explica:

»»»»» — Morre muito: logo que vai nascer, morre.

»»»»» No momento que passa devagar diz a primeira:

»»»»» — Vida está a nascer sempre.

»»»»» Nos dias que era dia disso, entrega-lhes a roupa suja embrulhada em lençóis atados pelas pontas com dois nós, e as lavadeiras carregam essas trouxas, despedem-se com adeuses,

»»»»» — C’até,

seguem já sem conversa, só sérias, olham breve pra trás, oscilam as ancas, desviando um pouco lateralmente o andamento no caminho ressequido enquanto avançam, mês calcinante esse dezembro, a equilibrar no alto das cabeças as cestas enormes com as trouxas de roupa dentro.

»»»»» A trinta-e-um desse último mês, ano de mil-novecentos-e-trinta-e-um, a senhora parturiente deu à luz uma menina, e no dia sete de janeiro seguinte falecia de complicações surgidas após o parto, que fora bem-sucedido.

»»»»» Numa carta de Huambo, datada de vinte-e-um de fevereiro desse ano seguinte e dirigida à mãe, a viver na quinta de Sandim, o filho Antonio num “inconssolavel estado” convida-a a chorar com ele a “irreparavel perda”, da qual já estaria advertida por interposta pessoa, a quem ele encarregara de a preparar para “a mais lamentavel noticia”. Faz um elogio superlativo-breve da mulher, a que melhor cumpriu o seu dever para com todos e cada um dos parentes, qualquer que fosse o grau de parentesco. A falecida não fez tudo o que queria porque o não pôde, mas manifestou-lhe os últimos desejos, orientados pelos “mais perfeitos sentimentos”. “Extremosa, inseparavel mulher”, quis festejar a sós com o esposo e os filhos as bodas de prata do consórcio que eles eram, vinte-e-cinco anos de casados se cumpriam a vinte de dezembro. E nesse dia, enquanto o Joãozinho sonhava já no berço, se agitava uma e outra vez no meio de sonho intranquilo, ela serviu um jantar com tanto cuidado, tanta etiqueta, como se houvesse convivas entre eles. Suspeitaria a morte próxima? Apesar da saúde reavida, depois dos tempos insalubres e depressivos de Loanda, ela vivia algum excesso de quebra e susceptibilidade. Explicava-se e explicava ao marido, para não o inquietar, que era a estação, o abraço do clima africano.

»»»»» Iguais cuidado e etiqueta observou, poucos dias depois, na preparação da noite de Consoada e do almoço de Natal, festejados como há já uns anos não se festejavam. O pai, na expetactiva do seu décimo-segundo descendente, proporcionou-lhe tudo o que ela desejava para que essa festa privada não desmerecesse. Ela, o marido, o Joaquim e o Joãozinho, todos vestidos, tanto na Consoada como na viagem de carroça para a missa do dia de Natal, com as roupas melhores, num perfeito asseio e elegância. E a satisfação agora póstuma do pai veio a ser a de tanto ter obedecido às vontades da mulher.

»»»»» No último dia do ano, pelas nove horas da manhã, estando no quarto-de-casal só ele e a parturiente, esta deu à luz uma menina, a que davam o nome de Maria de Fatima, e à qual o ourives deu a bofetada inicial e desencadeou o choro, cortou o cordão umbilical, lavou numa bacia ali disposta para o efeito, embrulhou num lençol e deitou ao lado da mãe exangue, recompondo-se do parto “rasoavelmente sucedido”, num acordo feliz de todos os movimentos do marido e do choro desatado e serenado. Serenada a de olhos muito fechados e rosto arroxeado, minúsculo corpo recém-nascido envolto no seu primeiro lençol, os progenitores felicitaram-se muito, deram graças a Deus.

»»»»» Seguindo o relato, no dia dois de janeiro, “devendo ser umas 7 horas”, sobreveio-lhe uma dor no fígado cuja complicação levou o tantas vezes pai-recente a chamar médico, para o que mandou o Joaquim à cidade, trajecto que lhe levou duas horas: uma para ir, outra para voltar, na bicicleta. O rapaz levava por escrito a exposição dos sintomas, em virtude dos quais o médico vinha não só ele, na sua viatura, mas junto com ele os medicamentos úteis que a dita exposição por escrito lhe prognosticara melhores. Logo nesta primeira visita, relata o pai, qualquer perscrutador atento, e ele era-o nesta circunstância, “poderia ter lido na fisionomia do medico” “tão infeliz vaticinio”: “o mál era de morte”. Actos médicos descritos na carta: não lhe foram ministrados purgantes, apenas clisteres de não mais de três ou quatro decilitros. Quanto a dieta, ela não comeu, o apetite falhava, só “bebia golos d’agua fria”. Das “perto de trinta galinhas grandes de escelente raça” que eram criação da xitaca, o pai matou uma e teve de a dar aos moradores da sanzala, Xatovera a levou, porque ela nada quis, nem fruta, e ele estava numa ansiedade, e o Joaquim seguira para a cidade, para que a ourivesaria cumprisse horários e satisfizesse a clientela.

»»»»» Morreu no dia sete de janeiro, após outras visitas do médico céptico, certo do desenlace que havia de ser. E até ao instante em que a morte lhe tomou o corpo, ela manteve o espírito desperto contra esse corpo moribundo: falou e rezou quase até exalar o último suspiro, sempre em seu juízo. Morreu sem confissão, cumpridos seus quarenta anos de vida, mas na conversa contínua dos seus últimos dias encarregou o consorte de fazer tudo o que ela não pôde fazer; o que ele estaria cumprindo o melhor que podia, criando os filhos inda crianças, e tê-lo-ia cumprido, era esse o seu desejo, mas nem sempre veio a ser bem-sucedido, que algum mal entretanto se levantou contra ele ou contra os filhos.

»»»»» Assim a malograda esposa, sua querida Micas, morreu sem confissão, mas a conversa contínua que manteve com ele, manifestando suas vontades, que seriam últimas, e o relato que de tanta conversa fez o recém-viúvo ao padre-chefe da Missão do Bongo eram confissão bastante, segundo este, “que Deus ve tudo milhor do que nós”.

 

 

António Sá

2012

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