Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Novembro, 2014

Miniatura 2

Miniatura / 2 [Um Gruyère]

»»»»» Um fim-de-tarde, regressando a casa depois do dia de trabalho, o pai trazia uma tranche de queijo Gruyère, e outros bens, eventualmente broa de milho e vinho do “puto”, palavra útil para imaginar esse país longínquo, Portugal. Quando o negócio corria bem na ourivesaria, ou se abriam perspectivas de negócios futuros, o pai trazia de uma mercearia da baixa neolisboeta alguns “mimos”, palavra que não retive nestas circunstâncias felizes, mas mais tarde, quando, em momentos um-tanto-menos ele fazia mesmo-assim questão de trazer “algum mimo”; e mais tarde, quando lamentava o facto de nem poder trazer “qualquer mimo”. Isto faz parte de histórias futuro-defuntas que esta miniatura remete para futuros-se-existentes relatórios e contabilidades de tempos-que-foram.

»»»»» Voltando ao queijo Gruyère: ele fez parte da sobremesa desse jantar de algum mês de algum ano, mil-novecentos-e-cinquenta-e-cinco, mil-novecentos-e-cinquenta-e-seis, algum desses. Sobremesa gostosa, que toda a gente na família, pai, mãe e três filhos, rapaz dos seus dezasseis, rapariga dos seus quinze, rapazito dos seus cinco ou seis degustaram e apreciaram.

»»»»» E o queijo ficou numa travessa, coberto por um pano-contra-moscas, sobre o aparador da sala de jantar, troféu de requinte ocidental, símbolo vivo do bem-estar suíço, paisagens campestres que seduziam e encantavam todos: nos anos cinquenta o pai perspectivava e augurava para Nova Lisboa um futuro suíço assim verdejantemente-eternamente próspero.

»»»»» Mas na manhã seguinte um frenesim de horror, a que vozes de rapariga, algum breve grito na música da frase, sussurros maternos, esteve gerando uma ambiência de escândalo: descobriu-se que entre os buracos clássicos do Gruyère, suas grutas e entranhas, circulavam ínfimos vermes esbranquiçados.

»»»»» O pai achou por bem levar o queijo devidamente embrulhado à mercearia de procedência, para melhor lavrar o seu protesto. A rapariga e outros, por contágio, narraram como, ao mastigarem o queijo na sobremesa anterior, estiveram mastigando partículas como de um arroz tenro que se incrustasse no queijo — eram esses ínfimos, invisíveis vermes o que estavam trincando!

»»»»» Nessa posterior noite o pai explicou a sua conversa com o comerciante-expert da mercearia fina — esse queijo era mesmo-assim, ensinara-lhe o merceeiro. Na Suíça os queijos eram incentivados a criar vermes-do-queijo, e era assim que os comiam na Europa. O pai escandalizou-se com esses hábitos europeus, fez questão de trocar o Gruyère por outro mais normal-flamengo, e a questão comercial ficou sanada.

»»»»» Em-todo-o-caso ou para-todos-os casos-futuros, a experiência de queijo-com-gusanos maldigerido, pelo menos psicologicamente, ficou-se por aí na família. Nas entretanto ocasiões, o pai optou pelo Serra da Estrela, ou pelas intemporais bolas vermelhas do dito flamengo.

António Sá

[13.08.2012]

Anúncios

Read Full Post »

Miniatura 6

Miniatura / 6 [Toldos]

 

»»»»» Desparte do tempo passo-o sob toldos, de verão, de outono, menos de inverno, algum toldo de primavera fria. Toldos de pano: drapejam, arejam o tempo lá passado.

»»»»» Se Debussy nunca fez, não sei se o não fez, ou fê-lo de outro modo… Se não fez o seu piano inspirar-se nos toldos, é na música dele que imagino quando estou sob um toldo, algum toldo solitário  —    este toldo  —    contíguo a uma estrada urbana, trânsito distenso.

»»»»» Sacode brusco, terso, não cede aos desvarios cíclicos aéreos do temporal que aí vem.

 

António Sá

[03.11.2014]

Read Full Post »