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Archive for Janeiro, 2015

Miniatura / 7 [Nêsperas e aguaceiro]

 

»»»»» Escrevi um dia alguma nota ou início de prosa sobre uma tarde de aguaceiro, frases sem continuidade.

»»»»» Por alguma razão sou levado, ciclicamente, a escrever sobre. Uma tarde-resumo de infância de passagem para outra infância. Actualmente, por força de tal cíclico reviver na memória, estou a eleger essa tarde como lugar de alguma coisa: ou seja, escrevendo estas frases, e por força delas pensando nisso, analiso: passagem de uma infância em que os progenitores e familiares próximos, junto com iniciações escolares, estavam a ser o horizonte, para outra infância em que o horizonte se abre aos lugares desconhecidos e elementos naturais, a coisa que é o exterior, a natureza.

»»»»» Outro momento-fronteira, nesta mesma fase do meu curso de vida, mas posterior, com menos história e mais insight, é o de um longo-longo tempo atento ao desviar-se uma tarde para a noite, sentado na balaustrada da varanda fronteira, na vivenda onde vivi os primeiros-que-foram-primeiros anos de infância e pré-adolescência, cinco-seis anos, azul infância ancorada no Bairro Azul na então neolisboeta concentração urbana.

Bairro Azul 001

»»»»» Voltando a esse anterior dia-tarde com mais história mesmo que sem história, como relatá-lo? Pela sucessão dos momentos: andei comendo-roubando nêsperas, por uma tarde, num arredor, pomar-infinito de nêsperas, com outro miúdo-rufia da minha idade, quase desconhecido miúdo nem sequer do Bairro. No regresso sozinho à minha rua, fui fustigado por um aguaceiro interrompendo o sol-com-nuvens. Isto foi o acontecido externamente, mas aconteceram outros subjectivos aspectos. Esta memória voga numa névoa que só se dissipa no longo momento em que esperei, sob árvores no descampado, depois sob a soleira de um edifício-arredor, que a chuva amainasse.

»»»»» Não relato mais, porque é tudo o que há. Já expus acima o que havia a relatar: eu não era mais um elemento-de-família, era eu-em-bruto, elemento exposto ao desencadear dos elementos, à espera sob a soleira de um prédio que o mundo amainasse. Nunca experimentara do mesmo modo ser um elemento-só, um eu-apenas sem continuidade ou contiguidade com ninguém mais, sem referências, coração constrito e assim livre — não é paradoxal, é um compósito de constrição, medo aracaico, esse modo de medo correlativo à sensação de vácuo que é a liberdade-do-ser.

»»»»» Voltando ao início: pelos meus cinco-seis anos estive, com outro miúdo-rufia, roubando e comendo nêsperas num pomar. De regresso a casa, fustigou-me um aguaceiro, experiência intempestiva intensa, desprovida de história: apenas irrepetível primeira experiência da proximidade à terra física e aos elementos desencadeados. Sobre ela redigi alguma nota dispersa, não sei onde possa estar, nem tento encontrá-la.

 

António Sá

[21.08.2013 / 02.01.2015]

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