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Archive for Fevereiro, 2015

Miniatura / 8 [Amor insequente]

 

»»»»» No ambiente social de Luanda, meados dos anos trinta do século vinte, aconteceu que Samuel Gomes de Sá se cruzou com Maria de Lourdes Borralho e ter-se-ão enamorado reciprocamente, talvez camilianamente, ou shakespeareanamente, ou até boccaccianamente, mais para este último pelo enredo ardiloso futuro, passe que em Boccaccio tudo havia de ser felicidade. Esse enamoramento não conheceu sequência feliz, porque um obstáculo e uma artimanha trabalharam no sentido da insequência.

»»»»» O obstáculo foi, imagino que sem particular subtileza, alçado por dona Adelaide Borralho, tia da menina, já nos seus quarentas. Que retrato farei, posso fazer dessa imponente senhora-tia? Já o fiz noutro texto, vou fazer agora outro, fresco, limpo de contágios anteriores, se impossível. Tia Adelaide era cabeça de um núcleo familiar sui-generis. Núcleo recém-aportado a Luanda, em época já de vigência salazária, e quando Hitler paria malmente um “milagre económico”, com o qual potenciava a indústria bélica alemã, arquitectando desde-logo futuras soluções finais já-pouco-futuras. Tal referido núcleo era tão-só composto pela dita tia e duas sobrinhas adolescentes: a Maria de Lourdes, nos catorze; e a Aida, nos doze. Família assim menos-ortodoxa, muito-modernista-anos-trinta. Repensando agora no que nunca pensei, me afoitei a pensar, esta tia-chefe-de-família seria uma aventureira, mas não aventureira-sedutora, como a Gilda protagonizada pelo belíssimo animal-fêmea que esteve-a-ser Rita Hayworth, antes aventureira-dominadora: não se valeria da sua beleza, que não a tinha nem-pensar, valia-se do poder-diferido que lhe era conferido pela beleza adolescente de suas sobrinhas. Era gente saída de Benfica, esse à época arredor de Lisboa, que crescia em prédios-de-habitação-suburbana e vida comercial. Nos cartórios de Benfica terão ficado soterradas as certidões de nascimento destas meninas: Maria de Lourdes Borralho e Aida da Glória Borralho. Quem fossem estes Borralhos, disso não me ocupo, nem me ocuparei de o saber.

»»»»» Apaixonaram-se a Maria de Lourdes e o Samuel, decerto só de se verem, como Romeu e Julieta adolescentes se viram um ao outro no baile proibido. De um tempo pouco posterior, dois anos o mais que fosse, são as imagens que recorto da fotografia oficial tirada no dia de casamento de Aida, já pelos catorze, com o senhor Anibal Henriques de Carvalho. Recortadas de uma fotografia, imagens de Lourdes e de Samuel, a esse tempo em modo de paixão-obnubilada, porque Samuel casara entretanto com a megera-tia Adelaide, muito pressionado pela mesma, manha também dele, segundo inconfidências e entreditos familiares, para se manter nas proximidades de Lourdes. Assim foram a tia o obstáculo; artimanha, a do apaixonado. Obstáculo e artimanha concorrendo para corroer a prazo a paixão juvenil.

mãe num casamento em Loanda 001

»»»»» Maria de Lourdes

Samuel 001

»»»»» Samuel

Adelaide 001

»»»»» Adelaide

 

 

António Sá

[05.02.2015]

 

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