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Archive for Março, 2015

Miniatura / 9 [Casamento de Aida]

 

»»»»» Aida casou-se em mil-novecentos-e-trinta-e-sete, no dia dezassete do mês mais húmido e frio do ano, inóspito julho, mês-de-cacimbo, sol-acabado-para-os-dias, tantos dias. Na fotografia oficial do casamento, ela aparece quase-radiosa e não se vê a cor-do-dia nem nenhuma outra cor, mas imagine quem quiser os coloridos, o grão e a luz da atmosfera.

Casamento Aida-Anibal 001

»»»»» Casamento Aida / Anibal

Casamento Aida-Aníbal (reverso) 001

»»»»» Casamento Aida / Anibal (reverso)

»»»»» Quem foi esta Aida-casando? Era menina saída de Benfica, bairro salazàriamente crescendo-para-onde-era, arredor nobre da Lisboa antiga. Menina nos seus catorze anos, casava; diz-se, confirmadamente por quem o diz, que casava sem paixão, nem amor, nem gosto que fosse. Casava porque tia-aventureira-Adelaide, sua tutora enorme e universal, a levava-obrigava a tal passo-não-sentimental.

»»»»» Essa tia Adelaide seria assim aventureira, atrevo-me a supor e dou a suposição por facto, aventureira cheia de gravidade e pose, que de Benfica, bairro de Lisboa, vai-sair-desembarcada imponente em Luanda, meados dos anos trinta do século hitleriano. Na fotografia do casamento, Adelaide Borralho ostenta uma grande corola de pano entre os seios, usa botinas e tafetá, vestido de tafetá até aos tornozelos, deixando ver os laços das botinas; e no seu fácies duro não é de vislumbrar sítio para brincadeiras, antes para aplicações rentáveis.

»»»»» Assim lhe foram, não fossem os destinos transversos, as aplicações que fez de suas pletóricas adolescentes sobrinhas e de si mesma, por intermédio delas, usadas como isco para boa aplicação matrimonial de si mesma e delas, mais favorável para ela do que para elas.

Adelaide 001

»»»»» Adelaide

»»»»» Adelaide Borralho era chefe de uma família sui-generis, aportada em Luanda provavelmente em mil-novecentos-e-trinta-e-cinco, e constituída por ela-mesma e por duas sobrinhas adolescentes. Neste provável ano, Adelaide, nos seus quarentas, casou, por artes de persuasão não-sei-quais, mas eficazes, com o jovem Samuel Gomes de Sá, da numerosa família-de-ourives Gomes de Sá, numerosa se os rebentos, na sua maioria do sexo masculino, não fossem-sendo-levados pela maligna, nome genérico na família dado às febres endémicas, europeias ou tropicais, febres que sempre dizimaram os habitantes subtropicais africanos.

Samuel 001

»»»»» Samuel

»»»»» Samuel estava nos seus vinte-e-três quando casou, e foram passar uns meses de lua-de-mel ao Huambo, para onde se deslocara o ourives chefe-de-família Antonio Gomes de Sá. Nesta viagem a esse sertão, planalto interior, os recém-casados levaram a adolescente Maria de Lourdes, catorze anos, a mais crescida das duas sobrinhas que Adelaide trouxera de Lisboa; a outra era a Aida, então nos doze, ficando esta à guarda de uma família luandense.

mãe num casamento em Loanda 001

»»»»» Maria de Lourdes

»»»»» Havia nesta circunstância uma artimanha samuelina: que, interdito de namorar ou perspectivar vida com a pequena Lourdes, pela qual lhe crescia desejo correspondido, casava-se ao menos com a libidinosa madonna Adelaide: era-lhe a ela fruto masculino juvenil apetecido, e assim casando na família da aventureira, Samuel ficava parente e próximo da amada sobrinha já por afinidade.

»»»»» De regresso a Luanda, no início de mil-novecentos-e-trinta-e-seis, Adelaide não foi perdendo o seu tempo e pendor de casamenteira: conseguiu arranjar um excelente “partido” para a sobrinha Aida: o senhor Anibal Henriques de Carvalho. Assim se celebrou o casamento entre este senhor e Aida da Glória Borralho, em mil-novecentos-e-trinta-e-sete, dia dezassete do mês mais húmido e frio do ano, inóspito julho, mês-de-cacimbo.

»»»»» Dois ou três meses depois, não me é dado precisar, tratou a tia de fazer casarem-se a sobrinha Maria de Lourdes, já nos dezasseis anos, com o irmão primogénito de Samuel, José Gomes de Sá, ourives, vinte-e-nove anos já. Mais tarde, à confidente sobrinha Fátima, mais nova irmã de José e Samuel, Lourdes confidenciará, algum dia, quanto poderia ter-sido a sua vida se tivesse casado com o Samuel, mais próximo na idade, na sensibilidade e no desejo, do que casando, como casou, com o irmão-menos-infante José. De algum modo, Maria de Lourdes terá amado este José mas, sabe-se, com esta sombra-perene de outro-mais-amado.

Casamento Lourdes-José 001

»»»»» Casamento Maria de Lourdes / José

»»»»» Voltando ao casamento de Aida: como se referiu no início, não foi do seu gosto este casamento de conveniência, pelo menos da conveniência de tia Adelaide, que vinha para isso: casar bem as sobrinhas. Anibal era um homem de mais idade e formalismo do que conviria à adolescente esposa. Do que foi o futuro desta união, estou-a-saber que dela resultaram três descendentes e que, nos anos quarenta do século inventor da fusão atómica, a já-não-adolescente procriadora faleceu, jovem portanto ainda, em circunstâncias luso-tropicais. Foi assim: estando no seu “estado interessante”, como no século se dizia por eufemismo, e não querendo parir mais descendentes, Aida recorreu às mèzinhas, plantas abortivas, de uma curandeira negra, e disso morreu inquinada.

»»»»» Sendo pois que este escrito acaba por ser sobre três casamentos, a pretexto do casamento de Aida.

 

António Sá

[08.03.2015]

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