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Archive for Junho, 2015

Miniatura 10 [Casamento de Lourdes]

»»»»» Um total de treze figurantes, dos quais três negros surdindo ao fundo, dois nos batentes da porta ao canto direito, o terceiro entrevisto na ombreira do canto esquerdo, só visível a cabeça: seria um acólito adolescente, ajudante na celebração finita. Dos dois situados à direita, um é baixo, seria o sacristão, usa fato e gravata; o outro é alto, e deduz-se que também seja um auxiliar da missa, enverga uma veste branca ou capa de oficiante. Na portada do centro entrevê-se afixada uma folha rectangular: o edital da igreja.

Casamento Lourdes-José 001

»»»»» Dos restantes, os dez brancos, vestidos de cerimónia, nem a todos consigo identificar. Dispõem-se no espaço exíguo do átrio da igreja, em Luanda, frente à câmara fotográfica. Descrevo-os, da esquerda para a direita, exceptuando os esposos, que reservo para o fim:

»»»»» Quase encostado à portada lateral, o belo Samuel Gomes de Sá, irmão mais novo do recém-casado, fato branco, gravata escura: fato branco: um must da juventude colonial luandense. Este Samuel estava casado com Adelaide Borralho, que se vê noutro lugar da foto. Casou com tal mulher, de cujo casamento não houve descendentes, era ela tia desta recém-casada. Samuel viria a aventurar-se no Congo Belga, pelos anos cinquenta do século auschwitziano, e por esses anos aí faleceu de peritonite, a ser assim verdade, e aí ficou desfazendo-se o seu corpo, em Berberati.

»»»»» Ao lado de Samuel, uma senhora de ostensivas luvas brancas, vestido-de-não-sei-que-cor, cintado, descendo quase até ao chão: vêem-se as botinas negras; chapéu com arranjo floral expandido. Assim como não sei a cor do vestido, não sei a identidade da senhora, de rosto seco, olhar fixo algures fora do foco.

»»»»» Atrás desta senhora e do noivo, espreita a cabeça de Adelaide Borralho, senhora nos quarentas, trazendo as suas duas sobrinhas, uma das quais esta esposa-agora, como sua propriedade, e enquanto proprietária as casou com quem bem achou. Dela resta memória de megera decerto decorosa e quanto ríspida, autoritária, casamenteira, egoísta, apropriadora e abusadora. De que abusou ela? — Nomeadamente e lendariamente da confiança e do dinheiro do belo Samuel, com quem casara por artes de quem-quer-que-as-saiba, algum prestígio mundano o terá ofuscado, jovem era, nascido em Sandim na primeira década do século ameliano, do nome da portuguesa veneranda, imponente Dona Amélia, rainha-consorte nessa inicial década infausta para o rei-seu-esposo que, juntamente com o filho-herdeiro, foram alvos de certeiros tiros anarquistas no Terreiro do Paço. Voltando a Adelaide Borralho: como abusou ela da confiança e do dinheiro do jovem esposo? Este, prosperando em Berberati, enviou-lhe soma avultada para que ela e sobrinhas e mais família fossem ter com ele e sua prosperidade. Que fez a má megera? Gastou o dinheiro em vestuário e investimento, quedando-se na boa por Luanda, e casando entretanto as sobrinhas com quem lhe aprouve, a contragosto de uma e de outra.

»»»»» Justo atrás dos recém-casados, entrevê-se o padre oficiante, sobre o qual religiosamente me calo, por nada saber de seus negócios com a humanidade e com a divindade.

»»»»» À direita da noiva, subvê-se uma senhora de chapéu-com-fita-escura que não sei, não aventuro quem seja. Já o mesmo não declaro quanto ao senhor de laço, agora com óculos; e à senhora de chapéu-sem-fita ou com fita branca, que se vêem ambos de corpo inteiro, juntos. Os chapéus de ambas estas senhoras flectem os mesmos à-banda, descaindo um pouco para o lado direito — constituiria direito delas, e moda, usarem os chapéus assim. Ora quanto a estes últimos juntos senhor e senhora, identifico-os como esposos recentes, casados poucos meses antes: de facto, a senhora-tia Adelaide, casara-os, à sobrinha Aida e ao Aníbal, por sua conveniência, a dezassete de julho de mil-novecentos-e-trinta-e-sete, e desse casamento, sua fotografia e seu verso, tratei na Miniatura / 9 [Casamento de Aida], para a qual remeto. Mas neste texto acrescento a foto isolada desses esposos, casados a essa data e a essa data fotografados assim um ao lado da outra.

Aida e Aníbal 001

»»»»» Mas na foto agora em foco, pós-matrimónio entre Lourdes e José, Aida está de luvas, segurando a mão de um pequerrucho de roupas claras — o branco-colonial para as crianças, entendido enquanto exigência higienista, nesses anos já fascistas, e de que se uniformiza essa única criança na fotografia; e dela, criança, nada sei nem me consta: por que está ali?, a  quem pertence enquanto menor?

»»»»» Resta assim explicar os recém-casados. A esposa, de branco, vestido ajustado à circunstância; molda-se à linha do corpo, abre-se um pouco na parte inferior até roçar o chão do átrio. Mas o que releva muito, punctum desta foto celebrativa, é o véu que lhe cobre a testa até às sobrancelhas e que, talvez atado, talvez preso por anilhas, pende de um lado e de outro sobre invisíveis orelhas, enquadrando a bondade e redondez do rosto. Moda inusitada, como as modas podem ser; um tipo de véu que elide a testa a algumas vedetas hollywodianas em voga nos thirties. O marido-já segura-a pelo braço, vê-se-lhe a mão assegurando a posse e a pose, que corresponde a circunstâncias da vida; este mantinha e manteve um lado de pose na vida, a pose era parte da sua personalidade. Assim já passei a este recém-casado, não sem antes anotar o justo ramo de flores que a noiva-casada leva sobraçado, justo ramo porque ajustado à figura e ao pouco aparato que a cerimónia configura. Voltando ao recém-casado, a pose resulta de uma educação severa interiorizada: a educação dos sentimentos rectos para com a família; da sociabilidade gentil estritamente codificada. Muito das maneiras e estilos desta educação ainda plasmam, via paterna, algum fascínio pela aristocracia, a ora assassinada ora exilada realeza portuguesa, a rainha Dona Amélia faleceria em França, anos mais tarde, em mil-novecentos-e-cinquenta-e-um; fascínio pela aristocracia ainda que atenunado-se, já-sempre-e-tanto imbuído de acrimónia, circunstancial endémica revolta contra tudo o que vem a ser Poder, que foi republicano e mais-logo fascista, tudo o que vem a ser Poder e seus atributos, suas disposições burocrático-legais, suas alcavalas impiedosas. Poder que de enviesadamente republicano-ditatorial, passou ao “fascismo-em-marcha” do Estado Novo, implantado no ano de mil-novecentos-e-trinta-e-cinco, dois anos antes, portanto, destes matrimónios sucessivos das manas Aida e Lourdes.

»»»»» Centrados assim, nesta foto, o recém-casado algo hirto, de cerimónia e laço branco, ao que parece; e a esposa-já de testa coberta por esse inusitado véu hollywoodiano-luandense.

»»»»» Obviamente obtida após a cerimónia matrimonial, a fotografia situa o espaço onde os figurantes se expõem, átrio de igreja, uma dentre as que haveria em Luanda, após quinhentos anos de dominação luso-católica. Não tenho meios para identificar de que igreja se trate, nesse ano de mil-novecentos-e-trinta-e-sete, segundo semestre, provável-quase mês de setembro, data aproximada deste enlace.

»»»»» Sobre as circunstâncias em que se deu o encontro entre Maria de Lourdes e José, com Samuel de permeio, remeto para o texto Miniatura / 8 [Amor insequente].

António Sá

[06.04.2015]

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