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Archive for Agosto, 2016

Miniatura / 12 [Maresias]

»»»»» Pelas treze horas e trinta minutos, estou a entrar num cacilheiro que me leva do Cais do Sodré a Cacilhas: sidera-me o cheiro a maresia. É verão, cinco de agosto.

»»»»» A memória acolhe-me ao porto do Lobito, não do lado voltado para a violência do Atlântico, mas para a baía, já para o fundo da baía, onde não há praia mas um pontão, e de onde se vê, mais longe e mais ao fundo, a zona portuária sempre com navios ancorados, agora não sei. Andei por aí alguma tarde ou mais alguma outra, não sei. Por aí habitava um sócio do meu pai, chamava-se Franquelim, que não teve significado para a minha adolescência. Era “bom rapaz” na sua trintena, ou seja, bom homem, trabalhador, especialista em relojoaria, numa época em que os relógios eram de corda. Homem casado, pai de crianças, acamaradava logo, e tentou ensinar-me a pesca à linha, nas águas mansas da baía, desde a altura do pontão.

»»»»» Sempre que a maresia me invade, em geografias portuárias, são esses pontões, águas escuras, já profundas, e essa secção humilde do bairro da Restinga, o que se me apresenta, agora mais sensação pura do que impressão visual, maresia saturada e ainda balsâmica.

 

António Sá

[13.08.2016]

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