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Archive for Abril, 2017

[Folhas mortas 26.08.2007]

Évora, domingo, 26 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Entrado na estrada  para Évora, ocorre-me uma conversa com o L.K., algures numa rota espanhola em que, ao contrário do habitual, ele pareceu esquecer a sua prudência, e perguntou-me por que não ultrapassava um camião. Expliquei-lhe que já ia a noventa, que era o máximo na estrada, e que certamente o condutor do veículo pesado estava a ultrapassar o limite que lhe era permitido; e que enfim não tínhamos pressa, podíamos ir àquela velocidade com desafogo. Ele mostrou-se surpreendido por irmos a noventa: depois de tantos kilómetros perdera a noção da velocidade, e cedera à impaciência de querer chegar.

 

*****

 

»»»»» A memória dos pormenores apaga-se. No entanto, era meu projecto fixar essa memória no tempo próprio.

 

António Sá

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Miniatura / 17 [A morte no ringue]

 

»»»»» A morte no ringue parece título de uma história de boxe, só que… eu explico:

»»»»» 1. O ringue, propriedade da Câmara Municipal de Nova Lisboa, Huambo, era um equipamento desportivo sem cobertura, assim exposto ao bom-tempo, tempo ameno mais ou menos perene, no planalto interior. Pavimento com marcas pintadas no cimento, essas marcas que definem as áreas do campo, de dimensões regulamentares, usado para o hóquei, o básquete e o vólei. Em redor do campo rectangular havia: uma cerca protectora de varões metálicos; bancadas de cimento; e todo o recinto estava defendido por uma sebe densa de arbustos, só interrompida pelo grande portão de entrada, de aço, situado junto a uma esquina desta estrutura rectangular, implantada num parque arborizado, um eucaliptal.

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»»»»» 2. A morte foi a de uma adolescente, mulatinha dos seus nove, dez anos, esguia, de pele acetinada, cabelos lisos, vestido leve de alças, estampado de flores, creio, minúsculas flores… mas a minha memória não é… Se me falha a memória de pormenores, não falha a da impressão de ver um corpo morto: eu estava na pequena bancada de cimento, com outros miúdos, e fomos alertados pelas crianças que brincavam, junto ao pequeno charco criado por um desnível do cimento, a um dos cantos do ringue, para algo que acontecia: aquela rapariga estava inanimada. Saltei o varão metálico, para dentro do ringue, aproximei-me e vi, junto ao charco, aquele corpo: um corpo inerme, amolecido, maleável ao arrastamento a que as crianças mais crescidas o sujeitavam, para o levar e estender no degrau inferior da bancada. Assim tive a primeira sensação do frio ontológico inerente a um corpo morto.

»»»»» Segundo o que se disse depois, a rapariga terá morrido por congestão, princípio de tarde, após o almoço… De facto, vi-a varrer, de pés nus, a água fria que alagava essa zona do ringue, canto em que o desnível do pavimento propiciara a formação de um charco, um lago em miniatura. Princípio de tarde, cacimbo-arrepio-de-frio, ditos incipientes, infantis, e enfim consternação calada das crianças ali reunidas, arrastando num movimento patético, sem sentido, o corpo morto, ainda maleável.

 

 

António Sá

[01.04.2017/05.04.2017]

 

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Miniatura / 16 [Eu na foto]

 

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»»»»» No texto As fotografias, Marguerite Duras ajuda-me a explicar o choque imediato sempre que vejo a minha própria fotografia. Embora isto só aconteça com fotografias recentes, vistas pela primeira vez: depois o choque esvai-se, acontece uma conformação com a imagem que a foto me reflecte. Mas, goste ou não, quase sempre não, o primeiro visionamento vem com um choque.

»»»»» São estas as frases de Duras: “Ficamos sempre confundidos ou maravilhados, sempre admirados, perante a nossa própria fotografia. Temos sempre mais irrealidade do que os outros. É a nós próprios que vemos pior, na vida, incluindo a falsa perspectiva do espelho, através do olhar da nossa imagem composta que nós queremos reter, a melhor, a do rosto defendido que tentamos encontrar quando posamos para uma fotografia.”

»»»»» Auto-retratando-me ao espelho, na primavera de 2016, estranho menos, porque a parte que menos conheço, o rosto, que não posso ver sem mediação, ficou oculto pelo flash e a câmara fotográfica. Registei o estado do meu corpo, como se antevisse alguma contingência.

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»»»»» NOTA:

»»»»» 1) As frases de Marguerite Duras foram colhidas na tradução, de Tereza Coelho, da obra La vie materielle (P.O.L. éditeur, 1987): A vida material, Difel, 1987. Mais precisamente, ideias constantes do texto As fotografias, pp. 102-104.

 

 

António Sá

[03.04.2017/04.04.2017]

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Miniatura / 15 [Fotos antigas]

 

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»»»»» Dar-me ao trabalho de organizar e seriar, segundo critérios geográficos e temporais, fotos antigas, é dar-me ao trabalho. Porque elas existem em número bastante, mesmo que não reportem toda a vida. Elas existem, ao contrário daquelas fotos que Marguerite Duras diz não existirem, o que se explica, sobretudo, por razões de antiguidade: “Não há fotografias da nossa bisavó. Podemos procurar no mundo inteiro que não há.”

»»»»» Nas primeiras décadas do século XX, não se era tão sistemático a captar, quase dia após dia, o crescimento dos filhos. Para crianças, tanto quanto para adultos, as fotos serviam para assinalar os grandes acontecimentos a nível familiar, mas raramente se lhes atribuía uma data, e assim se impõe, com o auxílio das raras fotos datadas, o trabalho detectivesco de, avaliando idades aparentes dos fotografados; analisando vestimentas, objectos, casas e paisagens; e comparando umas fotos com outras, estabelecer-lhes data hipotética e agrupá-las por aproximação.

»»»»» Vou ordenando, por geografias e datas prováveis, fotos dos anos vinte, trinta, quarenta do século passado e, tendo recurso ao testemunho de familiares que estavam lá, acho-o útil, mas deixa-me por vezes em confusão, quando os reconhecimentos não coincidem, ou alguma das testemunhas, em processo de reavivar as memórias, reconhece que se enganou e apresenta versão diferente, dados diferentes dos primitivos.

»»»»» Há curiosidade neste meu trabalho arqueológico, mas não nostalgia. Não posso ter saudades desse universo onde não estive; suscita-me antes enternecimento, talvez lhe chame melhor piedade, uma piedade em que me envolvo a mim mesmo — piedade pela nossa comum sujeição a esse soberano impassível, chamado Tempo. Enternecimento-esquecimento do páthos inerente aos seres vivos, ao estar-se vivo. Reduz-se tudo, na fotografia, a imagens planas, que se vão juntar ao milhão de imagens que nos enche a cabeça — e esta frase é o eco de uma ideia de Marguerite Duras, a este eco acrescento outra citação da mesma: “Penso que, ao contrário do que as pessoas pensaram e ainda pensam, a fotografia ajuda o esquecimento. Tem mais essa função no mundo moderno.”

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) A foto que acompanha esta miniatura insiro-a por ser uma foto “cega”: integrando o espólio das fotos familiares, não lhe identifico o lugar (Luanda, acaso?), nem a data (anos trinta?), nem a identidade dos pantomineiros…

»»»»» 2) As frases de Marguerite Duras foram colhidas na tradução, de Tereza Coelho, da obra La vie materielle (P.O.L. éditeur, 1987): A vida material, Difel, 1987. Mais precisamente, ideias constantes do texto As fotografias, pp. 102-104.

 

 

António Sá

[01.04.2017]

 

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