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Archive for Maio, 2017

[Folhas mortas 30.09.2007]

Madrid, domingo, 30 de setembro de 2007

 

 

»»»»» Quase outra rotina, sem o ser completamente, rotina sobre rotina, a de Madrid sobreposta à de Lisboa.

»»»»» Ontem, Patinir (1480-1524) no Museo del Prado. Obtenho o que uma exposição deste teor procura obter: uma perspectiva mais completa e mais definida relativamente à obra do pintor de Amberes, seus precursores, sua oficina, seus continuadores e epígonos. Extremamente interessante nos pormenores paisagísticos e figurações e no apelo a simbologías. Avassalador, nas suas dimensões, nos seus muitos azuis (a que as reproduções não fazem justiça), o Caronte atravessando o Estígio. Os seus continuadores imediatos não o igualaram, o que define o seu lugar único no contexto da arte flamenga dos felizes (artisticamente) séculos entre os finais da Idade Média e o Barroco rubensiano.

»»»»» Logo mais tarde, esquadrinho uma exposição sobre os etruscos, esse povo engenhoso da península itálica, no Museo Archeologico Nacional.

»»»»» Patinir: Caronte atravessando o Estígio

 

 

António Sá

 

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[Folhas mortas 28.08.2007]

Elvas, terça, 28 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Ainda em Estremoz, vejo uma exposição de fotografias e pinturas centrada na mina de São Domingos; e o Museu Municipal de Estremoz. A primeira está situada num edifício românico, o Palácio Real de Dom Dinis (século XIII), edifício a uma escala humana, provido de um alpendre de esguias colunas de pedra; a decoração superior das colunas, de pedra esculpida, representa motivos florais e animais, destes são identificáveis grupos de felinos: leões e panteras ou leopardos. Do Museu Municipal, que certamente visitei antes com o L.K., mas de que me restam memórias vagas, relembro agora as figuras de cerâmica, cuja tradição remonta ao século XVII e que, vendo com atenção, representam uma grande variedade de caracteres humanos e as diversas actividades da vida cotidiana, havendo ainda uma galeria de negros e mesmo um índio sul-americano.

 

 

»»»»» Museu Municipal de Estremoz

Palacio Real de D. Dinis, Estremoz.

»»»»» Palácio Real de Dom Dinis

 

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»»»»» Já em Elvas, onde não era para ficar, mas decido ficar, visitei o Museu de Fotografia, bastante bem organizado; e o Museu de Arte Moderna, inaugurado há cerca de um mês, e que se restringe a artistas portugueses revelados desde os anos oitenta do século passado. Assim sendo, este último não me traz revelações, só a confirmação das várias tendências em curso. Quanto a grafismos inscritos nas obras artísticas, aspecto a que estou atento por agora, nem todos resultam interessantes. Excepção para trabalhos de Pedro Proença, do qual existem cinco desenhos de grande extensão vertical, a tinta-da-china, com a efígie estilizada de outros tantos poetas, e os símbolos que a eles o artista associou: os poetas são Whitman, Shakespeare, Almada, Cesário e Sá-Carneiro; para Whitman há inscritos versos soltos, para Shakespeare uma frase (a reprodução constante do catálogo torna estas inscrições ilegíveis). Há ainda grafismos legíveis em trabalhos de Fátima Mendonça, Francisco Vidal, Pedro Casqueiro e Ricardo Jacinto.

 

António Sá

 

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[Folhas mortas 27.08.2007]

Estremoz, segunda, 27 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Sediado em Estremoz por uma noite, na Residencial *** por trinta euros, visito o Museu de Arte Sacra, nome pomposo para o que constitui a Fábrica da Igreja Paroquial de Santo André, ou seja, aquilo a que habitualmente se chama o tesouro da igreja. É o único aberto a uma segunda e, para além das alfaias do culto e alguns têxteis, retenho uma curiosa tela do século XVII, uma pintura a óleo que resulta visualmente monocromática, representando São Pedro em grande plano, com o rosto ligeiramente inclinado para baixo, as faces cobertas de grandes lágrimas e, no canto esquerdo, um galo suspenso no ar: é um São Pedro despertado pelo canto do galo. Retenho ainda um outro óleo representando o plano de corpo inteiro de um Santo António com o menino, representação bastante canónica do santo, de rosto rotundamente bondoso, vestido de burel castanho, o menino ao colo.

Bilhete MAS Estremoz 001

 

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»»»»» Muito caminho percorro para descobrir que terei de ir até Cascais para comprar o que há cerca de dois anos tenho em perspectiva. Trata-se de obter o livro Passado, memória e poder na sociedade medieval portuguesa do L.K., que na capa tem o crédito editorial: Redondo; e a data: 1994. Esta localização geográfica, a vila do Redondo, no Alentejo, levou-me a pensar que aí estaria disponível esta edição, por isso, passando por esta vila, fui directo ao vetusto edifício da Câmara Municipal do Redondo, em cujos serviços as prestáveis funcionárias me remeteram para a Biblioteca onde, por sua vez, outras prestáveis funcionárias me folheiam um exemplar, que levo comigo, o único que tenho, e concluímos que foi impresso em Cascais, integrado numa colecção de livros aí editados (lembro-me enfim dessa factualidade), e aí existirá ainda em depósito na Câmara de Cascais. A Câmara do Redondo patrocinou a edição, o que explica a chancela. Concluindo, terei de ir a Cascais procurar o livro. Mas não dou esta incursão por infausta: além da aprazível urbanidade do Alentejo, apreciei a estrada que liga Redondo a Estremoz, tranquila o suficiente para não me absorver só na condução, assim observei a paisagem grandiosa, na aproximação à montanha, e logo a subida cheia de curvas e contracurvas.

 

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»»»»» Numa noite anterior, dormi no Alvito em casa da M.L.L. E… conversas fluidas, incluindo os pais dela e, mais tarde, viajamos até à Vidigueira, para jantar uma bela sopa de cação no restaurante Encruzilhada, na companhia da M.M.L. e recente família.

»»»»» Actualmente, tenho omnipresente o sentimento de quanto nada do que ocorre pode alguma vez repetir-se. Melancolia prévia e tranquila enquanto forma de vida evidente.

 

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»»»»» Há exactamente dez anos, estava eu em Londres: nesta data o L.K., que despertava cedo e saía a tomar o pequeno-almoço, regressou agitado ao quarto de hotel, e acordava eu quando me deu a notícia, que eu achei inverosímil, mas também resultava inverosímil que ele inventasse uma coisa tão tremenda, e rendi-me à evidência. Ligando a televisão, não havia outra coisa senão isso: a princesa Diana morrera num acidente de viação.

»»»»» Estávamos num bairro desafogado, muito verde, hotel simples, de que ele gostava muito e onde já tinha estado, não eu, que era a primeira vez que estava em Londres. Tivemos as nossas horas de museus, segundo o programa estabelecido, era o nosso último dia londrino. No dia seguinte, tomámos um táxi para o aeroporto de Heathrow, mas a cidade estava em estado de desastre, o trânsito congestionado, e foi em grande aflição que chegámos, sobre a hora do voo, e havíamos de passar por todos os controlos e por todos os átrios e corredores de acesso… fomos os últimos esbaforidos passageiros a entrar no avião, com festivo acolhimento da tripulação, que nos esclareceu que retardaram o fecho das portas em nossa intenção: tinham-lhes telefonado no primeiro controlo por que passáramos, a avisar da nossa chegada. Generosidade e amabilidade britânicas que actualmente, após o onze de setembro em Nova Iorque, seriam certamente impossíveis, dado o rigor dos controlos.

 

António Sá

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Miniatura / 3 [Primeiros brincos]

»»»»» Um ritual a realizar com as crianças do sexo feminino no Ocidente era o de furar os lóbulos das orelhas para aí pendurar brincos: assim as meninas ficavam bonitas, desde logo para os paternos progenitores, junto com o encantamento materno e alegria da restante família.

»»»»» Mas nem todas as famílias são assim completas. Ao sétimo aniversário, em mil novecentos e trinta e oito, a Mariazinha de Fátima deixara de ter mãe desde há tantos anos quantos tinha, que lhe falecera poucos dias depois de a dar à luz. E de família-presente além da figura paterna havia dois irmãos: o mais velho e adulto a viver na cidade; tendo o mais próximo, a viver com ela e o pai na propriedade algures no Huambo, cerca de dois anos a mais além dos dela.

»»»»» Assim, nesse seu aniversário, a trinta e um de dezembro, o pai-ourives trouxe-lhe uns brincos que fabricara para a ocasião, brincos de filigrana constituídos por uma haste filiforme a terminar em pequenas esferas ocas com recortes curvilíneos, incrustações de esmalte azul e cor-de-rosa à superfície, elegância de fabrico dessa arte que floresceu nos povoamentos arredores da cidade do Porto, de onde o pai provinha e na mesma urbe, ao longo do século vinte, excelente arte que entretanto…

brincos da Fátima 001

»»»»» Eram os seus primeiros brincos, essa idade propícia, e o ritual a que o pai a submeteu foi o de lhe furar os lóbulos. Fê-lo com a ponta afiada das hastes, e a seguir, munido de um alicate, dobrou-as de modo a obter um gancho. A menina de ontem não se acusa hoje de ter sofrido uma dor particularmente aguda, nenhuma dor nas cartilagens que não a dor útil para ficar bonita, é assim que se diz, “uma menina bonita”. Para esta ausência de dor contribuiu a experiência do ourives neste tipo de operações: primeiro massajou a parte inferior dos lóbulos, esticou-os e espetou a ponta afiada das hastes, depois dobrou-as com o alicate, para obter os tais ganchos assim instalados in loco, fixando os brincos às orelhas, e tornando possível retirá-los facilmente com uma pequena torção.

»»»»» Nas semanas seguintes rodou estas hastes diariamente no furo dos lóbulos, de modo a que a ferida não suturasse à volta do metal, soldando-o ao corpo.

»»»»» Todas estas manipulações eram rematadas com o uso de um algodão embebido em álcool, localizado banho prevenindo infecções, que nos subtrópicos podiam ser perversas, região do Huambo.

António Sá

[21.03.2013/01.04.2013]

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Miniatura / 18 [Aranha sem compostura]

 

»»»»» Num domingo próximo a seguir a qualquer temporal, o pai Antonio seguia, indo a miúda atrás, como de costume, “oh, estás aí?”, dizia o pai como se não soubesse que ela estava ali, e retarda o passo, porque a filha lhe prendera o dedo indicador de uma das mãos que ele levava dadas atrás das costas, enquanto caminha inspectivo pelos sulcos do milheiral. Depois ele segura-lhe matreiro a mãozinha e apressa o passo, levando-a assim forçada, e entram no caminho em direcção ao rio, ladeado de capinzal. Mariazinha ria e protestava ao mesmo tempo, que o largasse, e ele largava-a, e logo tudo podia recomeçar, num tempo de brincadeiras infinitas. De entre a folhagem longilínea verde do capim, uma aranha peluda e mais hirsuta que espiga-de-milho por descascar, e gorda mais que mão infantil, saltou de quando ali, rasou aranhosa a ante-perna da menina, sem nada que a defendesse. Ela vestia no estio uma camisa branco-solto e uma saia curta pelo joelho, e calçava sandálias de couro, assim tanto exposta, sem nada que a defendesse. A desvirtude do acontecimento foi que a menina nem percebeu bem que o que aconteceu tinha acontecido, nem teve tempo de chorar, aterrorizou-se com o aspecto enorme-castanho da aranha que por ali saindo se fazia fugida, como atordoada da bela maldade que fizera. Nem teve tempo de chorar, que é coisa que não fazia muito, não se fazia em tais tempos por qualquer coisa. O pai preocupou-se em ver o lugar do assalto, que era a perna esguia indefesa, mesmo acima da meia alta que a criança calçava sob a sandália. A aranha bordejara ali entre a pele tisnada do sol e o rebordo espesso da meia, ali onde a pele agora criava pontos avermelhados no sítio do raspão aracnídeo, e o pai agachado desceu um pouco a meia, com poucas palavras murmuradas ia acalmando o susto agora já choroso da menina, e decidia que se calhar não era mais de coisa-menor, deu perseguição à aranha-doida saída do seu habitat quem sabe por que loucura momentânea. Mas ele sabe que bichos que se dão por ameaçados, tornam-se ameaçadores, perdem a compostura.

»»»»» Foram andando depressa para casa, a menina coxeava, mais por efeito da impressão pruriginosa que por defeito da perna em poder andar. O pai pensava se o qualquer veneno era de má qualidade. Empalidecia de susto pela menina, mas ia acalmando-lhe o choroso lento-arrastado. Entretanto chamava forte o Xatovera, onde se metera ele e o Nunda?, que não apareciam nesta emergência, eles que andavam sempre por ali a jardinar… Chamava-os por se devesse mandá-los correr até à cidade chamar o médico.

»»»»» E já em casa, chapinhou com água salgada o lugar das vermelhidões que se formaram, para neutralizar o rasto venenoso. Contra os protestos da menina, que ardia, ele murmurava que não era nada, mas por muito que a consolasse muito ela gemia. Depois, usando rama de algodão, tintou a zona com tintura-de-iodo.

Fátima e Antonio 001

»»»»» O pai Antonio e Mariazinha, cerca de 1938

 

 

António Sá

[2014]

 

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