Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Miniatura / 20 [— Na minha cama!]

 

»»»»» [Advertência à maneira de filmes realistas: este relato é baseado em acontecimentos reais.]

»»»»» Acordaram ao ruído de golpes contra a madeira, e logo, sem tempo de estremunhar, as meninas olharam no escuro para a ama, que fez uma exclamação, e elas ecoaram, desalojadas de si, era o susto, surpresa-medo imediatos. Levantaram-se para junto da ama, que se levantava também precipitada, mas sem querer deixar-se assustar-à-vista, impassível para sossegar as meninas.

»»»»» — Estão a bater à porta! — Mariazinha alterada, sobre a estridência de um grito da mulatinha, em resposta a nova saraivada de batidas, e o silêncio suspenso da ama. Com seu silêncio tentava, além do susto próprio, conter o susto das crianças, a negrinha mulata de olhos espavoridos, e Mariazinha de Fátima com seu pavor pálido a crescer, e confiando entretanto na boa protecção da ama Alice. E esta quebrou o silêncio:

»»»»» — Aka! Estão sim! — reflectiu um momento e mandou:

»»»»» — Fiquem quietas e caladas!

»»»»» Conjecturava se não seria o patrão Antonio, estaria voltando mais tarde, como às vezes acontecia, e teria esquecido a chave, ou talvez perdido, ou só não a encontrava naquele escuro da noite… mas se era ele, por que batia com aquela força de quem vai é partir a porta?… talvez que julgasse terem elas o sono mais pesado e nem ouvissem… mesmo assim não era motivo de partir a porta… E Alice, confiante na sua força de ânimo e no seu Deus, palpitava assim se era o patrão, se era forças do mundo do além que se desencadeavam contra a casa…

»»»»» Entretanto suspenderam-se os golpes… “Schiu… schiuuuu…”, sussurrou a governanta, e as crianças provisoriamente obedeceram, escutaram silêncio restolhado nesse entretanto sucedido.

»»»»» — Que foi isto? — perguntava Fátima, pálida à luz do candeeiro-a-petróleo que a ama acendera.

»»»»» — Vamos ver… — disse Alice tranquila quase, para sossegar o caso. — Deve ser o paizinho que chegou e não encontra a chave…

»»»»» Tranquilo esteve o exterior algum tempo, mas como a natureza aborrece a tranquilidade instalada mais que o tempo devido, mais violentos golpes e vozear inumano se desencadearam contra a porta da frente. No compartimento que era a alma da casa, o infinito quarto-das-arrumações-caseiras, aí estavam instalados os catres onde dormiam a mulata Alice, ama e governanta da casa; a sua pequena sobrinha negrinha de sete-oito anos; e a filha do dono da propriedade, colono Antonio. Era filha baptizada Maria de Fátima, pela muita devoção paterna, agora no seu oitavo ano de vida, mil-novecentos-e-quarenta. Neste sítio da casa as três se encontravam suspensas, no instante desses novos golpes seguintes na porta.

»»»»» — Vou esconder-me debaixo da cama! — solução encontrada pela Mariazinha assustada.

Fátima 100 001

»»»»» — Debaixo da cama! — falou Alice em subvoz-sem-querer, para não a ouvir o mundo fora, quem sabe qual fosse. — Nada! Debaixo da cama não! — E encaminhando-se para o corredor. — Deixa inda ver qui é isto. Há-de ser teu paizinho… Quem havia de ser, a esta hora?

»»»»» Fátima queria impor-se à autoridade da ama, esconder-se debaixo da cama, mas Alice agarrou o braço da menina, não a deixou; e logo avançou pelo corredor de terra-batida, em direcção à porta da frente. As meninas, levadas nesse movimento, colaram-se-lhe às saias de chita da camisa-de-noite. A governanta firme, bem frente à entrada, perguntou sonoro:

»»»»» — Quem é?

»»»»» Mas já com os golpes e estertor rouco, parece de monstro fora-porta, Alice assustou-se, agarrou as raparigas pelas mãozinhas e levou-as refugiarem-se no primeiro quarto que dava para o corredor. As tábuas pareciam estalar, e logo com os golpes seguidos a porta cedeu, bateu ressaltando contra a parede, e surgiu recortado na noite um vulto negro-informe para a imaginação das meninas, que espreitavam, mais a ama, por trás da cortina-de-chita, era assim a porta do quarto onde se refugiaram, sem luz de candeeiro, a ama tratou de a apagar logo-antes. Assim como apareceu na porta, a aventesma entrou, grunhia sempre devagar vozes sem sentido humano, que elas três percebessem que fosse português deste mundo falado com frases, palavras soltas que fosse; e desandando corredor fora sem controlo, como bala-humana disparada, mas voando por seu pé passadas soltas e aos baldões contra as paredes laterais, foi encontrar entrada lá no fundo, no quarto-das-arrumações-caseiras. A ama aproveitou o momento para levar as meninas, mudas de terror, porta fora, “vamos chamar os homens!”, era o que dizia para sossegá-las, nada sabia mais explicar aos porquês mudos delas.

»»»»» Saíram logo por essa porta recém-arrombada, têm o terreiro livre de kazumbis, seres nocturnos, almas vagantes, essas que a ama sabia que vinham às vezes por ali, com saudades, pisar a terra vermelha de onde tinham partido. Não, aquele que invadiu a casa não era alma do outro mundo, era ser vivo mesmo que estava já dentro da casa, nem se sabe para quê. Animal assim tão grande, tão descontrolado, assustava qualquer alma de outro mundo que estivesse a vir essa noite.

»»»»» Saíram as três noite escura fora, as meninas coladas às saias da governanta. Ouviam orquestra colorida de sons que a noite compõe, e até se viam estrelas, noite melhor que qualquer dentro de casa vítima de assalto. Saíam a correr pela vida ou qualquer coisa que pudessem perder, eram entretanto integridade salva de qualquer intenção intrusa. Foram correndo à solta caminho fora, que Alice conhecia, o pomar, a azenha, as margens do ribeiro até à sanzala, mais além do lugar onde acabava a xitaca, era muito correr contra o ar fresco do planalto africano, o conhecimento do terreno as alumiava e ajudava a evitar escolhos escondidos.

»»»»» Chegaram directas à cubata do Xatovera, que Alice sabia onde era, e gritou-lhe de fora, instalando no lugar lá dentro confusão de vozes e sobressaltos. Saiu logo o capataz Xatovera e, uma a uma, suas três mulheres estremunhadas, e da porta da cubata alguns olhos acesos de crianças iluminavam o escuro. A dona informou o porquê que vinha, a voz agitou-se, agora a emoção vem toda a sair da garganta; as meninas ajudavam desajudando à explicação, atropelando com frases soltas o discurso da ama, mas o chefe-capataz percebeu o essencial, que era que um intruso arrombara a porta e se instalara dentro da casa do patrão, como em fortaleza conquistada. O invasor falava, informou a dona, era negro alto, enorme, falava era estrangeiro ou o quê, grunhia como animal, “pareceu-me que dizia fo-me, fo-me, mas se calhar era outra coisa que dizia”, informava a dona.

»»»»» — É dona, pode ser é um fugido desses país lá fora, que nem português sabe falar — confirmou Xatovera.

»»»»» Todos na sanzala foram aparecendo interrogados do alvoroço. O capataz entrou em acção pronta, que logo comandou, de assédio do invasor que falava sons estrangeiros, ver quem que era aquele. Mandou Nunda, segundo-capataz, secundá-lo em expedição e alguns homens da sanzala com eles, e após foram alguns meninos mais crescidos, curiosos de ver esse o quê. E no caminho, o chefe-capataz sossegava a governanta e as meninas:

»»»»» — Vamos já ver qual que é esse negro que anda a ’saltar casa. Não pode ser dos kimbo’ aqui nosso perto. Isso é preto estrangeiro do longe.

»»»»» — Deixe estar descansada, dona — diz Nunda. — Nós tratamos desse caso. Fica por nosso conta.

»»»»» Chegaram à casa que a porta da frente estava arrombada, era madeiras partidas-caídas depois que foram porta, e estavam agora os homens a entrar pelo chão batido do corredor até ao quarto-das-arrumações, que era para onde Alice lhes indicava que se tinha metido o assaltante. Xatovera à frente, olharam o compartimento escuro, cortina saída para o lado. Alice acendeu o candeeiro, levantou-o alto pelo pé, alumiou por trás deles a cena e, no círculo de luz, viram deitado num catre o negro estrangeiro intruso, maior que os negros do planalto, a dormir para o resto de qualquer descanso. As raparigas tinham-se infiltrado atrás da ama, entre os homens da sanzala, levadas por essa curiosidade que vai além do medo, e olharam o enorme resto adormecido de monstro que as assombrara.

»»»»» — Lá está ele! — Alice disparou, voz entrecortada do que era comoções de tudo o que a noite estava a ser.

»»»»» — Na minha cama! — assustou-se Fátima, vendo-o deitado no catre que era a cama onde dormia, e passou um calafrio de espanto e medo diferido, agora que se via segura com a presença dos homens da sanzala. — Logo na minha cama!

»»»»» Xatovera e Nunda agarraram do fundo dos sonhos o negro. Mal acordada a resistência do corpo mole-adormecido, logo ele lutou, mas outros homens ajudaram a dominar mais ressaltos, e o arrastaram para o terreiro. Sujeitaram-no até não sentirem movimento de resistência naquele ente enorme, fraquejando das forças-gastas, e perguntaram-lhe coisas, que era aquilo que fazia ali a ‘saltar casa do patrão e ‘sustar a dona e as menina’ dentro. Nada era que entendessem do que o foragido disse-gemido em espécie de resposta, e agitados que estavam os homens perguntando, e língua-de-trapos que ele falava, nada mais que não fosse grunhir sofrimento-animal sujeito-à-força.

»»»»» Alice mandou as meninas irem para dentro, para as suas caminhas, mas ela deixava-se por ali a ver o que os homens faziam, e as meninas deixavam-se esquecidas da ordem, a curiosidade era muita do que acontecia. Os capatazes tentavam ainda sacar ao estranho respostas, que era o que fazia ali, mas nada lhes aproveitavam palavras numa língua que nem era português, nem umbundo, até nem nenhum angolês, nem nada. O estranho era estrangeiro mesmo, e era estranheza de palavras as dele que resinava, e já se esfalecia, ficou mudo, cara encostada ao chão, agarrado sob a força dos capatazes, Nunda lhe impunha pé calejado sobre essas costas só esqueleto.

»»»»» — Esperamos pelo patrão — decidia a governanta, impressionada com o aspecto falecente do assaltante, vítima de pé nas costas. – Ele resolve…

»»»»» — É mesmo — disse Xatovera. — Esse aí já não faz mal.

»»»»» — Esse já não faz nada — disse Nunda

»»»»» Esse não é homem daqui — esclareceu Xatovera. — É homem que ninguém aqui conhece de ver…

»»»»» Alice decide: — Prendam-no nesse anexo. Quando chegar, o patrão resolve.

»»»»» — É, dona. Patrão que resolve. Vamo’ só ‘marrar esse bandido, pra não fugir.

»»»»» — Está parece morto — disse Alice, após observação.

»»»»» Ficaram a olhá-lo os capatazes, a governanta, as meninas que não iam deitar nem admoestadas. Nunda aumentou a pressão da corda que um homem tinha ido buscar à arrecadação, com que o prendia à volta do peito, os braços atados atrás. Aí o assaltante soltava estertores moribundos, era estertores do ar que lhe estava a faltar, Alice dizia, e mandava-lhes que o deixassem ao menos respirar, não era preciso matá-lo.

»»»»» — Deixa-o respirar — disse, — se não ele vai morrer.

»»»»» — Traz aqui — comandou Xatovera.

»»»»» Nunda e os homens da sanzala que ali estavam a assistir arrastaram o corpo preso, braços e pernas tudo amarrado, levaram-no para o anexo-exterior que era a casa-de-banho, sentaram-no aí no chão de terra batida e fecharam a porta, ficaram de guarda, sentaram no chão, a enrolar erva nas mortalhas, trocar conversa.

»»»»» Quase sem tempo depois, nem tempo de acalmar, Alice já levava as meninas para dentro, quando ouviram o chiar das correntes de bicicleta, era o pai Antonio que chegava do seu atraso mais que muito. Explicaram-lhe o alvoroço de tudo o que era a ocorrência, que aquele assaltante quase estava vivo, mostraram-no caído de lado sem acordo, amarrado no anexo. O patrão mandou-lhes que o levassem para o anexo-cozinha, porque aquele da casa-de-banho ele ia precisar.

»»»»» — Veio quem sabe de qualquer estrangeiro… — explicava Xatovera.

»»»»» O patrão tinha deixado a bicicleta tombada no caminho, não era seu costume essa falta de método, foi ouvindo relatórios, certificou-se de que o estranho nem dava acordo de si, mas estava vivo. E tomou decisões: mantê-lo preso, fechado no anexo, com um homem a vigiá-lo bem de cada vez, por turnos, até manhã-cedo, e logo levá-lo na carroça à esquadra de polícia na cidade.

 

 

Glossário (por ordem de ocorrência):

»»»»» aka! (interj.) — Sonoridade muito flagrante da Angola colonial, esta interjeição de surpresa, espanto, na boca dos populares negros: “Aka, patrão!” Tanta é a sua força expressiva, que os brancos, naturais ou não de Angola, a adoptaram: “Aka!”.

»»»»» kazumbi (s. m.) [nos dicionários: cazumbi] — Espírito inda vivo de alguém que morreu e se insinua pelos lugares onde os vivos inda vivem, influenciando-lhes, eventualmente, os percursos e as decisões. Será enfim alma de outro mundo, que persiste habitando neste, até ver. Do kimbundo [nos dicionários: quimbundo] ka-nzumbi.

»»»»» xitaca (s.f.) — Pode ser uma lavra, ou uma pequena propriedade agrícola, uma quinta. Casa e respectivos anexos no centro de uma xitaca são os lugares onde ocorre este episódio colonial. Do termo umbundo oxitaka.

»»»»» kimbo (s.m.) [nos dicionários: quimbo] — Povoado ou bairro indígena, constituído por casas isoladas ou blocos de casas. Do umbundo ko imbo (“no povoado”). Corresponde à sanzala, termo kimbundo [nos dicionários: quimbundo].

»»»»» umbundo (s.m.) — Grupo etnográfico-linguístico dos umbundos ou ovimbundos, constituído por diversas tribos que habitam ao sul do rio Kwanza, entre elas a dos huambos, na região onde se passa o episódio narrado neste texto. No contexto em que aqui ocorre, a palavra indica a língua falada pelo referido grupo humano. Provém do termo regional mbundu.

 

 

António Sá

[2009-2017]

 

Anúncios

Read Full Post »

“Famílias na guerra”

»»»»» A propósito da edição online da novela “Famílias na guerra”, enviaram-me, da parte da editora Bubok [http://www.bubok.pt/], um conjunto de perguntas sujeitas a respostas breves, destinadas á promoção do livro. Delas (perguntas/respostas), respigo as seguintes:

  • Publicou na Bubok o livro “Famílias na guerra”. Do que trata o livro? — “Famílias na guerra” trata de um episódio ocorrido num lapso temporal de três anos (1988-1990) durante a Guerra Civil que devastou Angola por longo tempo. Em confronto, dois movimentos desavindos pós-eleitoralmente: o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).
  • É uma história real, ficcionada ou… ambas? — História desencadeada na imaginação do autor após ouvir o relato do episódio vivido pelo protagonista, que deu um testemunho circunstanciado, seguido de múltiplas entrevistas e revisões conjuntas de texto.
  • O que o levou a escrever este livro? — Vários factores intervieram para que o autor se decidisse a redigir este relato, entre eles: o acaso de ter sido professor do rapaz que viveu as situações e as relatou; e o facto de o autor ser natural de Angola, embora não da região onde os acontecimentos têm lugar.
  • Qual a melhor parte de ter escrito o livro “Famílias na guerra” e da sua publicação? — A melhor parte da escrita foi o investimento de viver na imaginação esses dias turbulentos, essa vida insegura e errante na mata, na floresta, esses momentos de relativo repouso em remotas sanzalas semi-abandonadas. Quanto à publicação, na Bubok, tratou-se de um demorado investimento ao nível da edição virtual.
  • Porque é que os leitores devem ler este livro? — Porque lerão nele um exemplo dos danos das guerras actuais, todas as guerras. Desencadeadas por interesses claramente turvos e turvamente claros, e de que as principais vítimas são os civis, homens, mulheres e crianças usados e abusados pelas facções em litígio.
  •  Porque é que decidiu publicar na Bubok? — Publicar na Bubok, ao invés de uma editora tradicional, será um modo mais expedito de aceder a um público-alvo — o público angolano. Mais imediato e menos custoso será, a esse público, aceder à edição online em qualquer recanto do território angolano.

António Sá

[22.11.2013]

Read Full Post »

Miniatura / 19 [Decorações de parede]

 

»»»»» Na casa em que mais habitei, havia pelo menos, que me lembre por agora, duas decorações de parede: uma Última Ceia em baixo relevo esculpido em folha ou estanho, tamanho standard; e uma tapeçaria representando uma cena de deserto, toda em castanhos e amarelos, com camelos, que é o que mais lembro, e havia uma estrela brilhando, era o percurso dos Reis Magos até ao estábulo divino. A Última Ceia estava na zona da sala-de-jantar; os Reis Magos, na zona da sala-de-estar. Refiro estes espaços enquanto “zonas”, porque era tudo uma grande divisão contínua, organizada em duas partes, separadas pela estrutura de um falso arco remanescente, onde se fixava, junto ao tecto, uma trave de suporte a um cortinado de correr.

»»»»» Resta-me a foto de um Natal onde, parcialmente escondida pela árvore decorada, se vê a referida tapeçaria.

Hua 101 001

»»»»» E se estas decorações, as mais visíveis, se centram em dois motivos dos Evangelhos, nem por isso reflectem a religiosidade familiar: sendo os meus progenitores um casal católico, não eram de facto praticantes, limitando-se a assistir a casamentos e baptizados de familiares, também de famílias com as quais havia algum laço ou intercâmbio. Não só não sendo praticantes, iam já juntando percepções negativas quanto ao clero católico e, por extensão, quanto à própria instituição eclesiástica. Por exemplo: a luxuosa residência episcopal e propriedade adjacente era-lhes motivo de escândalo. Assim, aquelas representações religiosas nas paredes constituíam uma espécie de arcaísmo familiar. Em todo o caso, o texto dos Evangelhos não estava em causa, e a figura de Jesus Cristo merecia a admiração paterna.

 

 

António Sá

[30.06.2017]

 

Read Full Post »

[Folhas mortas 15.12.1995]

Lisboa, sexta, 15 de dezembro de 1995

 

 

»»»»» Vem-me a noção, claramente, de me realizar, de modo clandestino, contra mim mesmo. Sou, sem o querer ser, autor da minha própria perda. Não sou razoável, nem sequer bom para mim mesmo.

 

&

 

»»»»» Com o que acontece, acontece-me perder o sentido de ser eu, não tenho qualquer percepção de um eu centrado a que me referir. Desaparece mesmo a noção de ter um corpo, só quando tenho de me mover alguma coisa acontece — a necessidade de me pôr em movimento.

 

António Sá

Read Full Post »

[Folhas mortas 30.09.2007]

Madrid, domingo, 30 de setembro de 2007

 

 

»»»»» Quase outra rotina, sem o ser completamente, rotina sobre rotina, a de Madrid sobreposta à de Lisboa.

»»»»» Ontem, Patinir (1480-1524) no Museo del Prado. Obtenho o que uma exposição deste teor procura obter: uma perspectiva mais completa e mais definida relativamente à obra do pintor de Amberes, seus precursores, sua oficina, seus continuadores e epígonos. Extremamente interessante nos pormenores paisagísticos e figurações e no apelo a simbologías. Avassalador, nas suas dimensões, nos seus muitos azuis (a que as reproduções não fazem justiça), o Caronte atravessando o Estígio. Os seus continuadores imediatos não o igualaram, o que define o seu lugar único no contexto da arte flamenga dos felizes (artisticamente) séculos entre os finais da Idade Média e o Barroco rubensiano.

»»»»» Logo mais tarde, esquadrinho uma exposição sobre os etruscos, esse povo engenhoso da península itálica, no Museo Archeologico Nacional.

»»»»» Patinir: Caronte atravessando o Estígio

 

 

António Sá

 

Read Full Post »

[Folhas mortas 28.08.2007]

Elvas, terça, 28 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Ainda em Estremoz, vejo uma exposição de fotografias e pinturas centrada na mina de São Domingos; e o Museu Municipal de Estremoz. A primeira está situada num edifício românico, o Palácio Real de Dom Dinis (século XIII), edifício a uma escala humana, provido de um alpendre de esguias colunas de pedra; a decoração superior das colunas, de pedra esculpida, representa motivos florais e animais, destes são identificáveis grupos de felinos: leões e panteras ou leopardos. Do Museu Municipal, que certamente visitei antes com o L.K., mas de que me restam memórias vagas, relembro agora as figuras de cerâmica, cuja tradição remonta ao século XVII e que, vendo com atenção, representam uma grande variedade de caracteres humanos e as diversas actividades da vida cotidiana, havendo ainda uma galeria de negros e mesmo um índio sul-americano.

 

 

»»»»» Museu Municipal de Estremoz

Palacio Real de D. Dinis, Estremoz.

»»»»» Palácio Real de Dom Dinis

 

&

 

»»»»» Já em Elvas, onde não era para ficar, mas decido ficar, visitei o Museu de Fotografia, bastante bem organizado; e o Museu de Arte Moderna, inaugurado há cerca de um mês, e que se restringe a artistas portugueses revelados desde os anos oitenta do século passado. Assim sendo, este último não me traz revelações, só a confirmação das várias tendências em curso. Quanto a grafismos inscritos nas obras artísticas, aspecto a que estou atento por agora, nem todos resultam interessantes. Excepção para trabalhos de Pedro Proença, do qual existem cinco desenhos de grande extensão vertical, a tinta-da-china, com a efígie estilizada de outros tantos poetas, e os símbolos que a eles o artista associou: os poetas são Whitman, Shakespeare, Almada, Cesário e Sá-Carneiro; para Whitman há inscritos versos soltos, para Shakespeare uma frase (a reprodução constante do catálogo torna estas inscrições ilegíveis). Há ainda grafismos legíveis em trabalhos de Fátima Mendonça, Francisco Vidal, Pedro Casqueiro e Ricardo Jacinto.

 

António Sá

 

Read Full Post »

[Folhas mortas 27.08.2007]

Estremoz, segunda, 27 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Sediado em Estremoz por uma noite, na Residencial *** por trinta euros, visito o Museu de Arte Sacra, nome pomposo para o que constitui a Fábrica da Igreja Paroquial de Santo André, ou seja, aquilo a que habitualmente se chama o tesouro da igreja. É o único aberto a uma segunda e, para além das alfaias do culto e alguns têxteis, retenho uma curiosa tela do século XVII, uma pintura a óleo que resulta visualmente monocromática, representando São Pedro em grande plano, com o rosto ligeiramente inclinado para baixo, as faces cobertas de grandes lágrimas e, no canto esquerdo, um galo suspenso no ar: é um São Pedro despertado pelo canto do galo. Retenho ainda um outro óleo representando o plano de corpo inteiro de um Santo António com o menino, representação bastante canónica do santo, de rosto rotundamente bondoso, vestido de burel castanho, o menino ao colo.

Bilhete MAS Estremoz 001

 

&

 

»»»»» Muito caminho percorro para descobrir que terei de ir até Cascais para comprar o que há cerca de dois anos tenho em perspectiva. Trata-se de obter o livro Passado, memória e poder na sociedade medieval portuguesa do L.K., que na capa tem o crédito editorial: Redondo; e a data: 1994. Esta localização geográfica, a vila do Redondo, no Alentejo, levou-me a pensar que aí estaria disponível esta edição, por isso, passando por esta vila, fui directo ao vetusto edifício da Câmara Municipal do Redondo, em cujos serviços as prestáveis funcionárias me remeteram para a Biblioteca onde, por sua vez, outras prestáveis funcionárias me folheiam um exemplar, que levo comigo, o único que tenho, e concluímos que foi impresso em Cascais, integrado numa colecção de livros aí editados (lembro-me enfim dessa factualidade), e aí existirá ainda em depósito na Câmara de Cascais. A Câmara do Redondo patrocinou a edição, o que explica a chancela. Concluindo, terei de ir a Cascais procurar o livro. Mas não dou esta incursão por infausta: além da aprazível urbanidade do Alentejo, apreciei a estrada que liga Redondo a Estremoz, tranquila o suficiente para não me absorver só na condução, assim observei a paisagem grandiosa, na aproximação à montanha, e logo a subida cheia de curvas e contracurvas.

 

&

 

»»»»» Numa noite anterior, dormi no Alvito em casa da M.L.L. E… conversas fluidas, incluindo os pais dela e, mais tarde, viajamos até à Vidigueira, para jantar uma bela sopa de cação no restaurante Encruzilhada, na companhia da M.M.L. e recente família.

»»»»» Actualmente, tenho omnipresente o sentimento de quanto nada do que ocorre pode alguma vez repetir-se. Melancolia prévia e tranquila enquanto forma de vida evidente.

 

&

 

»»»»» Há exactamente dez anos, estava eu em Londres: nesta data o L.K., que despertava cedo e saía a tomar o pequeno-almoço, regressou agitado ao quarto de hotel, e acordava eu quando me deu a notícia, que eu achei inverosímil, mas também resultava inverosímil que ele inventasse uma coisa tão tremenda, e rendi-me à evidência. Ligando a televisão, não havia outra coisa senão isso: a princesa Diana morrera num acidente de viação.

»»»»» Estávamos num bairro desafogado, muito verde, hotel simples, de que ele gostava muito e onde já tinha estado, não eu, que era a primeira vez que estava em Londres. Tivemos as nossas horas de museus, segundo o programa estabelecido, era o nosso último dia londrino. No dia seguinte, tomámos um táxi para o aeroporto de Heathrow, mas a cidade estava em estado de desastre, o trânsito congestionado, e foi em grande aflição que chegámos, sobre a hora do voo, e havíamos de passar por todos os controlos e por todos os átrios e corredores de acesso… fomos os últimos esbaforidos passageiros a entrar no avião, com festivo acolhimento da tripulação, que nos esclareceu que retardaram o fecho das portas em nossa intenção: tinham-lhes telefonado no primeiro controlo por que passáramos, a avisar da nossa chegada. Generosidade e amabilidade britânicas que actualmente, após o onze de setembro em Nova Iorque, seriam certamente impossíveis, dado o rigor dos controlos.

 

António Sá

Read Full Post »

Older Posts »