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Miniatura 18

Miniatura / 18 [Aranha sem compostura]

 

»»»»» Num domingo próximo a seguir a qualquer temporal, o pai Antonio seguia, indo a miúda atrás, como de costume, “oh, estás aí?”, dizia o pai como se não soubesse que ela estava ali, e retarda o passo, porque a filha lhe prendera o dedo indicador de uma das mãos que ele levava dadas atrás das costas, enquanto caminha inspectivo pelos sulcos do milheiral. Depois ele segura-lhe matreiro a mãozinha e apressa o passo, levando-a assim forçada, e entram no caminho em direcção ao rio, ladeado de capinzal. Mariazinha ria e protestava ao mesmo tempo, que o largasse, e ele largava-a, e logo tudo podia recomeçar, num tempo de brincadeiras infinitas. De entre a folhagem longilínea verde do capim, uma aranha peluda e mais hirsuta que espiga-de-milho por descascar, e gorda mais que mão infantil, saltou de quando ali, rasou aranhosa a ante-perna da menina, sem nada que a defendesse. Ela vestia no estio uma camisa branco-solto e uma saia curta pelo joelho, e calçava sandálias de couro, assim tanto exposta, sem nada que a defendesse. A desvirtude do acontecimento foi que a menina nem percebeu bem que o que aconteceu tinha acontecido, nem teve tempo de chorar, aterrorizou-se com o aspecto enorme-castanho da aranha que por ali saindo se fazia fugida, como atordoada da bela maldade que fizera. Nem teve tempo de chorar, que é coisa que não fazia muito, não se fazia em tais tempos por qualquer coisa. O pai preocupou-se em ver o lugar do assalto, que era a perna esguia indefesa, mesmo acima da meia alta que a criança calçava sob a sandália. A aranha bordejara ali entre a pele tisnada do sol e o rebordo espesso da meia, ali onde a pele agora criava pontos avermelhados no sítio do raspão aracnídeo, e o pai agachado desceu um pouco a meia, com poucas palavras murmuradas ia acalmando o susto agora já choroso da menina, e decidia que se calhar não era mais de coisa-menor, deu perseguição à aranha-doida saída do seu habitat quem sabe por que loucura momentânea. Mas ele sabe que bichos que se dão por ameaçados, tornam-se ameaçadores, perdem a compostura.

»»»»» Foram andando depressa para casa, a menina coxeava, mais por efeito da impressão pruriginosa que por defeito da perna em poder andar. O pai pensava se o qualquer veneno era de má qualidade. Empalidecia de susto pela menina, mas ia acalmando-lhe o choroso lento-arrastado. Entretanto chamava forte o Xatovera, onde se metera ele e o Nunda?, que não apareciam nesta emergência, eles que andavam sempre por ali a jardinar… Chamava-os por se devesse mandá-los correr até à cidade chamar o médico.

»»»»» E já em casa, chapinhou com água salgada o lugar das vermelhidões que se formaram, para neutralizar o rasto venenoso. Contra os protestos da menina, que ardia, ele murmurava que não era nada, mas por muito que a consolasse muito ela gemia. Depois, usando rama de algodão, tintou a zona com tintura-de-iodo.

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»»»»» O pai Antonio e Mariazinha, cerca de 1938

 

 

António Sá

[2014]

 

Folhas mortas 26.08.2007

[Folhas mortas 26.08.2007]

Évora, domingo, 26 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Entrado na estrada  para Évora, ocorre-me uma conversa com o L.K., algures numa rota espanhola em que, ao contrário do habitual, ele pareceu esquecer a sua prudência, e perguntou-me por que não ultrapassava um camião. Expliquei-lhe que já ia a noventa, que era o máximo na estrada, e que certamente o condutor do veículo pesado estava a ultrapassar o limite que lhe era permitido; e que enfim não tínhamos pressa, podíamos ir àquela velocidade com desafogo. Ele mostrou-se surpreendido por irmos a noventa: depois de tantos kilómetros perdera a noção da velocidade, e cedera à impaciência de querer chegar.

 

*****

 

»»»»» A memória dos pormenores apaga-se. No entanto, era meu projecto fixar essa memória no tempo próprio.

 

António Sá

Miniatura 17

Miniatura / 17 [A morte no ringue]

 

»»»»» A morte no ringue parece título de uma história de boxe, só que… eu explico:

»»»»» 1. O ringue, propriedade da Câmara Municipal de Nova Lisboa, Huambo, era um equipamento desportivo sem cobertura, assim exposto ao bom-tempo, tempo ameno mais ou menos perene, no planalto interior. Pavimento com marcas pintadas no cimento, essas marcas que definem as áreas do campo, de dimensões regulamentares, usado para o hóquei, o básquete e o vólei. Em redor do campo rectangular havia: uma cerca protectora de varões metálicos; bancadas de cimento; e todo o recinto estava defendido por uma sebe densa de arbustos, só interrompida pelo grande portão de entrada, de aço, situado junto a uma esquina desta estrutura rectangular, implantada num parque arborizado, um eucaliptal.

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»»»»» 2. A morte foi a de uma adolescente, mulatinha dos seus nove, dez anos, esguia, de pele acetinada, cabelos lisos, vestido leve de alças, estampado de flores, creio, minúsculas flores… mas a minha memória não é… Se me falha a memória de pormenores, não falha a da impressão de ver um corpo morto: eu estava na pequena bancada de cimento, com outros miúdos, e fomos alertados pelas crianças que brincavam, junto ao pequeno charco criado por um desnível do cimento, a um dos cantos do ringue, para algo que acontecia: aquela rapariga estava inanimada. Saltei o varão metálico, para dentro do ringue, aproximei-me e vi, junto ao charco, aquele corpo: um corpo inerme, amolecido, maleável ao arrastamento a que as crianças mais crescidas o sujeitavam, para o levar e estender no degrau inferior da bancada. Assim tive a primeira sensação do frio ontológico inerente a um corpo morto.

»»»»» Segundo o que se disse depois, a rapariga terá morrido por congestão, princípio de tarde, após o almoço… De facto, vi-a varrer, de pés nus, a água fria que alagava essa zona do ringue, canto em que o desnível do pavimento propiciara a formação de um charco, um lago em miniatura. Princípio de tarde, cacimbo-arrepio-de-frio, ditos incipientes, infantis, e enfim consternação calada das crianças ali reunidas, arrastando num movimento patético, sem sentido, o corpo morto, ainda maleável.

 

 

António Sá

[01.04.2017/05.04.2017]

 

Miniatura 16

Miniatura / 16 [Eu na foto]

 

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»»»»» No texto As fotografias, Marguerite Duras ajuda-me a explicar o choque imediato sempre que vejo a minha própria fotografia. Embora isto só aconteça com fotografias recentes, vistas pela primeira vez: depois o choque esvai-se, acontece uma conformação com a imagem que a foto me reflecte. Mas, goste ou não, quase sempre não, o primeiro visionamento vem com um choque.

»»»»» São estas as frases de Duras: “Ficamos sempre confundidos ou maravilhados, sempre admirados, perante a nossa própria fotografia. Temos sempre mais irrealidade do que os outros. É a nós próprios que vemos pior, na vida, incluindo a falsa perspectiva do espelho, através do olhar da nossa imagem composta que nós queremos reter, a melhor, a do rosto defendido que tentamos encontrar quando posamos para uma fotografia.”

»»»»» Auto-retratando-me ao espelho, na primavera de 2016, estranho menos, porque a parte que menos conheço, o rosto, que não posso ver sem mediação, ficou oculto pelo flash e a câmara fotográfica. Registei o estado do meu corpo, como se antevisse alguma contingência.

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»»»»» NOTA:

»»»»» 1) As frases de Marguerite Duras foram colhidas na tradução, de Tereza Coelho, da obra La vie materielle (P.O.L. éditeur, 1987): A vida material, Difel, 1987. Mais precisamente, ideias constantes do texto As fotografias, pp. 102-104.

 

 

António Sá

[03.04.2017/04.04.2017]

Miniatura 15

Miniatura / 15 [Fotos antigas]

 

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»»»»» Dar-me ao trabalho de organizar e seriar, segundo critérios geográficos e temporais, fotos antigas, é dar-me ao trabalho. Porque elas existem em número bastante, mesmo que não reportem toda a vida. Elas existem, ao contrário daquelas fotos que Marguerite Duras diz não existirem, o que se explica, sobretudo, por razões de antiguidade: “Não há fotografias da nossa bisavó. Podemos procurar no mundo inteiro que não há.”

»»»»» Nas primeiras décadas do século XX, não se era tão sistemático a captar, quase dia após dia, o crescimento dos filhos. Para crianças, tanto quanto para adultos, as fotos serviam para assinalar os grandes acontecimentos a nível familiar, mas raramente se lhes atribuía uma data, e assim se impõe, com o auxílio das raras fotos datadas, o trabalho detectivesco de, avaliando idades aparentes dos fotografados; analisando vestimentas, objectos, casas e paisagens; e comparando umas fotos com outras, estabelecer-lhes data hipotética e agrupá-las por aproximação.

»»»»» Vou ordenando, por geografias e datas prováveis, fotos dos anos vinte, trinta, quarenta do século passado e, tendo recurso ao testemunho de familiares que estavam lá, acho-o útil, mas deixa-me por vezes em confusão, quando os reconhecimentos não coincidem, ou alguma das testemunhas, em processo de reavivar as memórias, reconhece que se enganou e apresenta versão diferente, dados diferentes dos primitivos.

»»»»» Há curiosidade neste meu trabalho arqueológico, mas não nostalgia. Não posso ter saudades desse universo onde não estive; suscita-me antes enternecimento, talvez lhe chame melhor piedade, uma piedade em que me envolvo a mim mesmo — piedade pela nossa comum sujeição a esse soberano impassível, chamado Tempo. Enternecimento-esquecimento do páthos inerente aos seres vivos, ao estar-se vivo. Reduz-se tudo, na fotografia, a imagens planas, que se vão juntar ao milhão de imagens que nos enche a cabeça — e esta frase é o eco de uma ideia de Marguerite Duras, a este eco acrescento outra citação da mesma: “Penso que, ao contrário do que as pessoas pensaram e ainda pensam, a fotografia ajuda o esquecimento. Tem mais essa função no mundo moderno.”

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) A foto que acompanha esta miniatura insiro-a por ser uma foto “cega”: integrando o espólio das fotos familiares, não lhe identifico o lugar (Luanda, acaso?), nem a data (anos trinta?), nem a identidade dos pantomineiros…

»»»»» 2) As frases de Marguerite Duras foram colhidas na tradução, de Tereza Coelho, da obra La vie materielle (P.O.L. éditeur, 1987): A vida material, Difel, 1987. Mais precisamente, ideias constantes do texto As fotografias, pp. 102-104.

 

 

António Sá

[01.04.2017]

 

Miniatura 14

Miniatura / 14 [Na xitaca, contra a paisagem]

 

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»»»»» Estão contra a paisagem —plataforma setentrional africana: relevos sem ambição de serem colinas, região do Huambo, coração-e-entranhas de Angola. Nos limites da xitaca — para além, essa paisagem contra a qual estão os recém-chegados e os aí residentes. Xitaca, termo umbundo, designa aqui o terreno-propriedade do pater familiae, Antonio Gomes de Sá, cinquenta-e-cinco anos, o homem sentado, de sombrero na mão. Registo a escrita sem acento gráfico de “Antonio”, por respeito à ortografia do próprio. Os aí residentes são este pater familiae, e dois dos descendentes: Joaquim, trinta anos, o mais à direita na foto, de pé, com sacola e chapéu; Maria de Fátima, onze anos, aí já nascida, a adolescente de pé, contra a paisagem. Outro que aí nasceu, João, algo mais de dois anos antes desta última, não se inscreve neste flagrante. Desandados de Luanda, os recém-chegados que a película flagrou: casal e respectivos descendentes pequenos. José e Maria de Lourdes, o casal, de pé um e outra, de chapéu ambos; e, sentados na rocha, os descendentes enquanto crianças, Daniel e Nair.

»»»»» Portanto, o casal: José Gomes de Sá, trinta-e-cinco anos, filho primogénito do pater familiae, e Maria de Lourdes Figueiredo e Sá, vinte-e-dois anos, sendo ele ourives e ela doméstica. Conheceram-se em Luanda, tendo aí casado em mil-novecentos-e-trinta-e-sete, e tendo aí gerado dois filhos, cujas idades andariam pelos cinco anos, Daniel, o rapaz; e os quatro anos, Nair, a rapariga. Depois de um tempo de vida em Luanda, capital a que José chegara adolescente em mil-novecentos-e-vinte, rumaram, por certo instados pelo pai Antonio, para o interior, eventual paraíso geográfico e futurante promissor de oportunidades. Assim se reunia a família desluandante com essoutro núcleo vivente no Huambo.

»»»»» A foto terá sido tomada para assinalar a reunião familiar, e a família assim se manteria unida, na região geográfica do Huambo, pelas décadas seguintes. Datará de mil-novecentos-e-quarenta-e-três, de acordo com a aproximação que dela faz Maria de Fátima, em conversa actual, outubro de dois-mil-e-dezasseis. Maria de Fátima: essa rapariga de pé, cabelo apanhado por detrás das orelhas, blusa branca e saia xadrez; ela não hesita em decidir que estava nos seus onze anos, perfeitos a trinta-e-um de dezembro de mil-novecentos-e quarenta-e-dois.

 

 

António Sá

[Novembro, 2016]

 

 

Miniatura 12 [Maresias]

Miniatura / 12 [Maresias]

»»»»» Pelas treze horas e trinta minutos, estou a entrar num cacilheiro que me leva do Cais do Sodré a Cacilhas: sidera-me o cheiro a maresia. É verão, cinco de agosto.

»»»»» A memória acolhe-me ao porto do Lobito, não do lado voltado para a violência do Atlântico, mas para a baía, já para o fundo da baía, onde não há praia mas um pontão, e de onde se vê, mais longe e mais ao fundo, a zona portuária sempre com navios ancorados, agora não sei. Andei por aí alguma tarde ou mais alguma outra, não sei. Por aí habitava um sócio do meu pai, chamava-se Franquelim, que não teve significado para a minha adolescência. Era “bom rapaz” na sua trintena, ou seja, bom homem, trabalhador, especialista em relojoaria, numa época em que os relógios eram de corda. Homem casado, pai de crianças, acamaradava logo, e tentou ensinar-me a pesca à linha, nas águas mansas da baía, desde a altura do pontão.

»»»»» Sempre que a maresia me invade, em geografias portuárias, são esses pontões, águas escuras, já profundas, e essa secção humilde do bairro da Restinga, o que se me apresenta, agora mais sensação pura do que impressão visual, maresia saturada e ainda balsâmica.

 

António Sá

[13.08.2016]