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Miniatura / 3 [Primeiros brincos]

»»»»» Um ritual a realizar com as crianças do sexo feminino no Ocidente era o de furar os lóbulos das orelhas para aí pendurar brincos: assim as meninas ficavam bonitas, desde logo para os paternos progenitores, junto com o encantamento materno e alegria da restante família.

»»»»» Mas nem todas as famílias são assim completas. Ao sétimo aniversário, em mil novecentos e trinta e oito, a Mariazinha de Fátima deixara de ter mãe desde há tantos anos quantos tinha, que lhe falecera poucos dias depois de a dar à luz. E de família-presente além da figura paterna havia dois irmãos: o mais velho e adulto a viver na cidade; tendo o mais próximo, a viver com ela e o pai na propriedade algures no Huambo, cerca de dois anos a mais além dos dela.

»»»»» Assim, nesse seu aniversário, a trinta e um de dezembro, o pai-ourives trouxe-lhe uns brincos que fabricara para a ocasião, brincos de filigrana constituídos por uma haste filiforme a terminar em pequenas esferas ocas com recortes curvilíneos, incrustações de esmalte azul e cor-de-rosa à superfície, elegância de fabrico dessa arte que floresceu nos povoamentos arredores da cidade do Porto, de onde o pai provinha e na mesma urbe, ao longo do século vinte, excelente arte que entretanto…

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»»»»» Eram os seus primeiros brincos, essa idade propícia, e o ritual a que o pai a submeteu foi o de lhe furar os lóbulos. Fê-lo com a ponta afiada das hastes, e a seguir, munido de um alicate, dobrou-as de modo a obter um gancho. A menina de ontem não se acusa hoje de ter sofrido uma dor particularmente aguda, nenhuma dor nas cartilagens que não a dor útil para ficar bonita, é assim que se diz, “uma menina bonita”. Para esta ausência de dor contribuiu a experiência do ourives neste tipo de operações: primeiro massajou a parte inferior dos lóbulos, esticou-os e espetou a ponta afiada das hastes, depois dobrou-as com o alicate, para obter os tais ganchos assim instalados in loco, fixando os brincos às orelhas, e tornando possível retirá-los facilmente com uma pequena torção.

»»»»» Nas semanas seguintes rodou estas hastes diariamente no furo dos lóbulos, de modo a que a ferida não suturasse à volta do metal, soldando-o ao corpo.

»»»»» Todas estas manipulações eram rematadas com o uso de um algodão embebido em álcool, localizado banho prevenindo infecções, que nos subtrópicos podiam ser perversas, região do Huambo.

António Sá

[21.03.2013/01.04.2013]

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Miniatura 18

Miniatura / 18 [Aranha sem compostura]

 

»»»»» Num domingo próximo a seguir a qualquer temporal, o pai Antonio seguia, indo a miúda atrás, como de costume, “oh, estás aí?”, dizia o pai como se não soubesse que ela estava ali, e retarda o passo, porque a filha lhe prendera o dedo indicador de uma das mãos que ele levava dadas atrás das costas, enquanto caminha inspectivo pelos sulcos do milheiral. Depois ele segura-lhe matreiro a mãozinha e apressa o passo, levando-a assim forçada, e entram no caminho em direcção ao rio, ladeado de capinzal. Mariazinha ria e protestava ao mesmo tempo, que o largasse, e ele largava-a, e logo tudo podia recomeçar, num tempo de brincadeiras infinitas. De entre a folhagem longilínea verde do capim, uma aranha peluda e mais hirsuta que espiga-de-milho por descascar, e gorda mais que mão infantil, saltou de quando ali, rasou aranhosa a ante-perna da menina, sem nada que a defendesse. Ela vestia no estio uma camisa branco-solto e uma saia curta pelo joelho, e calçava sandálias de couro, assim tanto exposta, sem nada que a defendesse. A desvirtude do acontecimento foi que a menina nem percebeu bem que o que aconteceu tinha acontecido, nem teve tempo de chorar, aterrorizou-se com o aspecto enorme-castanho da aranha que por ali saindo se fazia fugida, como atordoada da bela maldade que fizera. Nem teve tempo de chorar, que é coisa que não fazia muito, não se fazia em tais tempos por qualquer coisa. O pai preocupou-se em ver o lugar do assalto, que era a perna esguia indefesa, mesmo acima da meia alta que a criança calçava sob a sandália. A aranha bordejara ali entre a pele tisnada do sol e o rebordo espesso da meia, ali onde a pele agora criava pontos avermelhados no sítio do raspão aracnídeo, e o pai agachado desceu um pouco a meia, com poucas palavras murmuradas ia acalmando o susto agora já choroso da menina, e decidia que se calhar não era mais de coisa-menor, deu perseguição à aranha-doida saída do seu habitat quem sabe por que loucura momentânea. Mas ele sabe que bichos que se dão por ameaçados, tornam-se ameaçadores, perdem a compostura.

»»»»» Foram andando depressa para casa, a menina coxeava, mais por efeito da impressão pruriginosa que por defeito da perna em poder andar. O pai pensava se o qualquer veneno era de má qualidade. Empalidecia de susto pela menina, mas ia acalmando-lhe o choroso lento-arrastado. Entretanto chamava forte o Xatovera, onde se metera ele e o Nunda?, que não apareciam nesta emergência, eles que andavam sempre por ali a jardinar… Chamava-os por se devesse mandá-los correr até à cidade chamar o médico.

»»»»» E já em casa, chapinhou com água salgada o lugar das vermelhidões que se formaram, para neutralizar o rasto venenoso. Contra os protestos da menina, que ardia, ele murmurava que não era nada, mas por muito que a consolasse muito ela gemia. Depois, usando rama de algodão, tintou a zona com tintura-de-iodo.

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»»»»» O pai Antonio e Mariazinha, cerca de 1938

 

 

António Sá

[2014]

 

Folhas mortas 26.08.2007

[Folhas mortas 26.08.2007]

Évora, domingo, 26 de agosto de 2007

 

 

»»»»» Entrado na estrada  para Évora, ocorre-me uma conversa com o L.K., algures numa rota espanhola em que, ao contrário do habitual, ele pareceu esquecer a sua prudência, e perguntou-me por que não ultrapassava um camião. Expliquei-lhe que já ia a noventa, que era o máximo na estrada, e que certamente o condutor do veículo pesado estava a ultrapassar o limite que lhe era permitido; e que enfim não tínhamos pressa, podíamos ir àquela velocidade com desafogo. Ele mostrou-se surpreendido por irmos a noventa: depois de tantos kilómetros perdera a noção da velocidade, e cedera à impaciência de querer chegar.

 

*****

 

»»»»» A memória dos pormenores apaga-se. No entanto, era meu projecto fixar essa memória no tempo próprio.

 

António Sá

Miniatura 17

Miniatura / 17 [A morte no ringue]

 

»»»»» A morte no ringue parece título de uma história de boxe, só que… eu explico:

»»»»» 1. O ringue, propriedade da Câmara Municipal de Nova Lisboa, Huambo, era um equipamento desportivo sem cobertura, assim exposto ao bom-tempo, tempo ameno mais ou menos perene, no planalto interior. Pavimento com marcas pintadas no cimento, essas marcas que definem as áreas do campo, de dimensões regulamentares, usado para o hóquei, o básquete e o vólei. Em redor do campo rectangular havia: uma cerca protectora de varões metálicos; bancadas de cimento; e todo o recinto estava defendido por uma sebe densa de arbustos, só interrompida pelo grande portão de entrada, de aço, situado junto a uma esquina desta estrutura rectangular, implantada num parque arborizado, um eucaliptal.

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»»»»» 2. A morte foi a de uma adolescente, mulatinha dos seus nove, dez anos, esguia, de pele acetinada, cabelos lisos, vestido leve de alças, estampado de flores, creio, minúsculas flores… mas a minha memória não é… Se me falha a memória de pormenores, não falha a da impressão de ver um corpo morto: eu estava na pequena bancada de cimento, com outros miúdos, e fomos alertados pelas crianças que brincavam, junto ao pequeno charco criado por um desnível do cimento, a um dos cantos do ringue, para algo que acontecia: aquela rapariga estava inanimada. Saltei o varão metálico, para dentro do ringue, aproximei-me e vi, junto ao charco, aquele corpo: um corpo inerme, amolecido, maleável ao arrastamento a que as crianças mais crescidas o sujeitavam, para o levar e estender no degrau inferior da bancada. Assim tive a primeira sensação do frio ontológico inerente a um corpo morto.

»»»»» Segundo o que se disse depois, a rapariga terá morrido por congestão, princípio de tarde, após o almoço… De facto, vi-a varrer, de pés nus, a água fria que alagava essa zona do ringue, canto em que o desnível do pavimento propiciara a formação de um charco, um lago em miniatura. Princípio de tarde, cacimbo-arrepio-de-frio, ditos incipientes, infantis, e enfim consternação calada das crianças ali reunidas, arrastando num movimento patético, sem sentido, o corpo morto, ainda maleável.

 

 

António Sá

[01.04.2017/05.04.2017]

 

Miniatura 16

Miniatura / 16 [Eu na foto]

 

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»»»»» No texto As fotografias, Marguerite Duras ajuda-me a explicar o choque imediato sempre que vejo a minha própria fotografia. Embora isto só aconteça com fotografias recentes, vistas pela primeira vez: depois o choque esvai-se, acontece uma conformação com a imagem que a foto me reflecte. Mas, goste ou não, quase sempre não, o primeiro visionamento vem com um choque.

»»»»» São estas as frases de Duras: “Ficamos sempre confundidos ou maravilhados, sempre admirados, perante a nossa própria fotografia. Temos sempre mais irrealidade do que os outros. É a nós próprios que vemos pior, na vida, incluindo a falsa perspectiva do espelho, através do olhar da nossa imagem composta que nós queremos reter, a melhor, a do rosto defendido que tentamos encontrar quando posamos para uma fotografia.”

»»»»» Auto-retratando-me ao espelho, na primavera de 2016, estranho menos, porque a parte que menos conheço, o rosto, que não posso ver sem mediação, ficou oculto pelo flash e a câmara fotográfica. Registei o estado do meu corpo, como se antevisse alguma contingência.

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»»»»» NOTA:

»»»»» 1) As frases de Marguerite Duras foram colhidas na tradução, de Tereza Coelho, da obra La vie materielle (P.O.L. éditeur, 1987): A vida material, Difel, 1987. Mais precisamente, ideias constantes do texto As fotografias, pp. 102-104.

 

 

António Sá

[03.04.2017/04.04.2017]

Miniatura 15

Miniatura / 15 [Fotos antigas]

 

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»»»»» Dar-me ao trabalho de organizar e seriar, segundo critérios geográficos e temporais, fotos antigas, é dar-me ao trabalho. Porque elas existem em número bastante, mesmo que não reportem toda a vida. Elas existem, ao contrário daquelas fotos que Marguerite Duras diz não existirem, o que se explica, sobretudo, por razões de antiguidade: “Não há fotografias da nossa bisavó. Podemos procurar no mundo inteiro que não há.”

»»»»» Nas primeiras décadas do século XX, não se era tão sistemático a captar, quase dia após dia, o crescimento dos filhos. Para crianças, tanto quanto para adultos, as fotos serviam para assinalar os grandes acontecimentos a nível familiar, mas raramente se lhes atribuía uma data, e assim se impõe, com o auxílio das raras fotos datadas, o trabalho detectivesco de, avaliando idades aparentes dos fotografados; analisando vestimentas, objectos, casas e paisagens; e comparando umas fotos com outras, estabelecer-lhes data hipotética e agrupá-las por aproximação.

»»»»» Vou ordenando, por geografias e datas prováveis, fotos dos anos vinte, trinta, quarenta do século passado e, tendo recurso ao testemunho de familiares que estavam lá, acho-o útil, mas deixa-me por vezes em confusão, quando os reconhecimentos não coincidem, ou alguma das testemunhas, em processo de reavivar as memórias, reconhece que se enganou e apresenta versão diferente, dados diferentes dos primitivos.

»»»»» Há curiosidade neste meu trabalho arqueológico, mas não nostalgia. Não posso ter saudades desse universo onde não estive; suscita-me antes enternecimento, talvez lhe chame melhor piedade, uma piedade em que me envolvo a mim mesmo — piedade pela nossa comum sujeição a esse soberano impassível, chamado Tempo. Enternecimento-esquecimento do páthos inerente aos seres vivos, ao estar-se vivo. Reduz-se tudo, na fotografia, a imagens planas, que se vão juntar ao milhão de imagens que nos enche a cabeça — e esta frase é o eco de uma ideia de Marguerite Duras, a este eco acrescento outra citação da mesma: “Penso que, ao contrário do que as pessoas pensaram e ainda pensam, a fotografia ajuda o esquecimento. Tem mais essa função no mundo moderno.”

 

»»»»» NOTAS:

»»»»» 1) A foto que acompanha esta miniatura insiro-a por ser uma foto “cega”: integrando o espólio das fotos familiares, não lhe identifico o lugar (Luanda, acaso?), nem a data (anos trinta?), nem a identidade dos pantomineiros…

»»»»» 2) As frases de Marguerite Duras foram colhidas na tradução, de Tereza Coelho, da obra La vie materielle (P.O.L. éditeur, 1987): A vida material, Difel, 1987. Mais precisamente, ideias constantes do texto As fotografias, pp. 102-104.

 

 

António Sá

[01.04.2017]

 

Miniatura 14

Miniatura / 14 [Na xitaca, contra a paisagem]

 

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»»»»» Estão contra a paisagem —plataforma setentrional africana: relevos sem ambição de serem colinas, região do Huambo, coração-e-entranhas de Angola. Nos limites da xitaca — para além, essa paisagem contra a qual estão os recém-chegados e os aí residentes. Xitaca, termo umbundo, designa aqui o terreno-propriedade do pater familiae, Antonio Gomes de Sá, cinquenta-e-cinco anos, o homem sentado, de sombrero na mão. Registo a escrita sem acento gráfico de “Antonio”, por respeito à ortografia do próprio. Os aí residentes são este pater familiae, e dois dos descendentes: Joaquim, trinta anos, o mais à direita na foto, de pé, com sacola e chapéu; Maria de Fátima, onze anos, aí já nascida, a adolescente de pé, contra a paisagem. Outro que aí nasceu, João, algo mais de dois anos antes desta última, não se inscreve neste flagrante. Desandados de Luanda, os recém-chegados que a película flagrou: casal e respectivos descendentes pequenos. José e Maria de Lourdes, o casal, de pé um e outra, de chapéu ambos; e, sentados na rocha, os descendentes enquanto crianças, Daniel e Nair.

»»»»» Portanto, o casal: José Gomes de Sá, trinta-e-cinco anos, filho primogénito do pater familiae, e Maria de Lourdes Figueiredo e Sá, vinte-e-dois anos, sendo ele ourives e ela doméstica. Conheceram-se em Luanda, tendo aí casado em mil-novecentos-e-trinta-e-sete, e tendo aí gerado dois filhos, cujas idades andariam pelos cinco anos, Daniel, o rapaz; e os quatro anos, Nair, a rapariga. Depois de um tempo de vida em Luanda, capital a que José chegara adolescente em mil-novecentos-e-vinte, rumaram, por certo instados pelo pai Antonio, para o interior, eventual paraíso geográfico e futurante promissor de oportunidades. Assim se reunia a família desluandante com essoutro núcleo vivente no Huambo.

»»»»» A foto terá sido tomada para assinalar a reunião familiar, e a família assim se manteria unida, na região geográfica do Huambo, pelas décadas seguintes. Datará de mil-novecentos-e-quarenta-e-três, de acordo com a aproximação que dela faz Maria de Fátima, em conversa actual, outubro de dois-mil-e-dezasseis. Maria de Fátima: essa rapariga de pé, cabelo apanhado por detrás das orelhas, blusa branca e saia xadrez; ela não hesita em decidir que estava nos seus onze anos, perfeitos a trinta-e-um de dezembro de mil-novecentos-e quarenta-e-dois.

 

 

António Sá

[Novembro, 2016]